[[legacy_image_253358]] “O público define o que é sucesso. A crítica, o que é bom. Mas é o tempo que dirá o que é arte”. A máxima de Robert De Niro, evocada pelo crítico de cinema Waldemar Lopes, aplica-se a qualquer obra, seja para a telona, para os palcos ou impressa em livro. Porém, para Waldemar, a frase define o grande vencedor do Oscar 2023: o filme Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, que levou sete estatuetas, nas principais categorias. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Para essa conquista, tem que possuir qualidade: (o filme) trouxe a ficção científica, que é um gênero meio deixado de lado, para o centro da premiação”, aponta. O jornalista e também crítico de cinema André Azenha acha merecidos os prêmios à produção. Para ele, a dinâmica do filme, que prima pela edição com cortes rápidos e a ideia central de multiverso, dialoga com as novas gerações. “Mas não funcionaria somente pela parte técnica, se não tivesse alma, que é a relação entre mãe e filha. Essa é a essência do filme”. TransformaçãoAmbos os críticos aprovam as escolhas de coadjuvantes, ator (HeHuy Quan) e atriz (Jamie Lee Curtis), bem como de melhores atriz (Michele Yeoh) e ator (Brendan Fraser). André Azenha enfatiza o discurso de Michele e como o Oscar tem a capacidade de dialogar com a realidade. “Ela (Michele) dá o recado de não se abater quando alguém disser que você ‘já passou da época’ para algo. Ela deve ter passado por isso e serviu de recado para as adolescentes que humilharam a mulher de 40 anos na faculdade, aqui no Brasil”. A referência são as universitárias de Bauru que publicaram um vídeo nas redes sociais debochando de uma colega por ter 40 anos e estar na faculdade. A história escandalizou o País na semana passada. Já Waldemar Lopes enfatiza a transformação física de Brendan Fraser para viver o papel de um professor com obesidade mórbida, em A Baleia. “Fraser e (Austin) Butler (que viveu Elvis) alternaram prêmios de atuação. O Oscar ficou com Fraser, pois deve ter pesado a alteração física”. Segundo ele, a academia reconhece os esforços também nesse sentido. Waldemar cita novamente Robert De Niro, que levou o Oscar após engordar para o personagem de Touro Indomável, em 1981; ou a vitória de Gary Oldmann, que literalmente encarnou Winston Churchill, em O Destino de Uma Nação, em 2018. Realidade e agilidadeA partir de críticas que ganharam mais força a partir de 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que detém a premiação, vem trabalhando para se tornar mais diversa e inclusiva. Um exemplo foi a vitória de Parasita, produção da Coreia do Sul, melhor filme em 2020. “A tendência vem se consolidando desde que ampliaram o número de acadêmicos com gente do mundo inteiro votando, para aumentar a representatividade de outras etnias e minorias”, explica André. Ao definir ações inclusivas e dialogar com o mundo que a circunda, a academia também mira a própria sobrevivência do cinema, em especial a indústria norte-americana. Nesse sentido, a cerimônia deste ano também chamou a atenção de Waldemar Lopes. “Foi uma cerimônia mais ágil, com prêmios anunciados em blocos, discursos enxutos e sem clipes para homenagear gêneros do cinema”. O objetivo é recuperar a audiência, que vem diminuindo ano a ano. A pandemia, e a consequente explosão do streaming, aceleraram esse processo. O fato de a academia em 2010 ter ampliado de cinco para dez o número de produções indicadas a Melhor Filme também contribui para esse resgate, segundo avalia Waldemar. “Abre espaço para grandes sucessos, como Avatar e Top Gun, que têm qualidades, mas talvez não estivessem ali se o número de indicados fosse menor”.