Em fevereiro, a corretora de imóveis Mariana Ancelmo de Melo Valente, de 25 anos, comemorou a conquista de uma vaga para sua filha de um ano na Escola Municipal Estina Campi Baptista, em Praia Grande. Assine o Portal A Tribuna agora mesmo e ganhe Globoplay grátis e dezenas de descontos A vaga na rede municipal de ensino permitiu que ela e o marido pudessem trabalhar, mas isso mudou um mês depois com a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia de Covid-19. “Tive que largar meu emprego para cuidar da minha filha, pois meus pais estão com uma idade avançada e estavam sobrecarregados”, conta. Como não há aulas online para alunos de creches, ela conta que costuma pesquisar atividades na internet para entreter a filha. “Sempre coloco vídeos para estimular ela a falar e conhecer as cores. Mas como ela tem apenas um ano e onze meses fica muito difícil achar atividade voltada para essa idade”, diz. ‘Tem que trabalhar para pagar as contas’ Quem também compartilha a dificuldade para manter as crianças entretidas em casa é a assistente financeiro Sthefany Caroline Magalhães Pereira, de 29 anos, que tem uma filha de três anos e um filho de seis, ambos matriculados em escolas de Praia Grande. Sthefany diz que a pandemia mudou a rotina da família e, desde então, tem de se desdobrar para dar conta dos afazeres junto com o marido. “Cuidar dos serviços de casa, trabalho e criança não é fácil”, comenta. Segundo a prefeitura de Praia Grande, não há números precisos de interessados em vagas nas creches do município porque os pedidos de matrícula estão suspensos em decorrência da pandemia. O que resta é aguardar, e é isso o que a vigilante patrimonial Bruna Gouvêia Soares de Matos, de 31 anos, tem feito. Bruna tem uma bebê de três meses e está de licença maternidade, mas em breve retornará ao trabalho e já está preocupada porque não poderá contar com nenhuma creche para deixar a filha. Enquanto as aulas presenciais não são retomadas, ela terá de deixar a bebê e sua outra filha, de 12 anos, com a avó. “Quando sair a vaga a gente tenta e vai lutando. A gente tem que trabalhar para pagar as contas, mas se trabalha não tem com quem deixar os filhos”, diz. ‘Papel de educar’ De acordo com o Ministério da Educação, a educação infantil tem a finalidade de promover o desenvolvimento da criança nos aspectos físico, psicológico, intelectual e social. As creches, em especial, são dedicadas ao atendimento de crianças de zero a três anos. Em Praia Grande, há um total de 77 unidades escolares, dedicadas à Educação Infantil, Ensino Fundamental, Educação de Jovens e Adultos (E.J.A), Complementação Educacional e Educação Especial. De acordo com a Prefeitura, atualmente há 55.789 alunos matriculados na rede municipal de ensino. Desse total, 9.800 correspondem a alunos de creches. Para a pedagoga Marly Saba, mestre em educação, o maior impacto da suspensão de aulas nas creches ocorre em lares cujos pais precisam sair de casa para trabalhar. “A creche, antigamente, era vista somente pelo lado do cuidar. Hoje a creche assume o papel também de educar, ensinar valores. Ela possibilita o incentivo à arte, a falar, a brincar com o outro respeitando a socialização. Não é só cuidar”, diz a pedagoga, que tem experiência na área da direção de creches e atuou como coordenadora do curso de pedagogia da UniSantos. Cantar músicas, contar histórias e desenhar as letras são algumas das atividades que os pais podem promover em casa para incentivar o aprendizado dos filhos, orienta Marly. Segundo ela, é importante que os pais aproveitem esse momento para se aproximar mais dos filhos. “É preciso apoiar, incentivar a criança”. Para Marly, um dos aspectos positivos é que agora os pais conseguem perceber melhor a importância do papel dos professores. “O professor pode ser visto pelos pais de uma outra forma, tendo o seu trabalho valorizado. Duvido que os pais vão criticar conhecendo hoje o trabalho que eles desenvolvem na escola”, finaliza.