[[legacy_image_116918]] O prejuízo provocado pelas aulas remotas, em razão das medidas de isolamento impostas pelas covid-19, já provoca uma corrida contra o tempo nos cursos preparatórios pré-vestibulares sociais destinados a alunos afrodescendentes e carentes de escolas públicas. Com a proximidade da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), nos dias 21 e 28 de novembro, estudantes utilizam todo momento disponível para se dedicar aos conteúdos perdidos durante as aulas realizadas a distância por pouco mais de um ano e meio. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A jovem Gabrielle Souza, 18 anos, recém-formada no Ensino Médio, acredita que a pandemia prejudicou muito mais os alunos da rede pública, porque essas unidades não dispunham de estrutura para realizar as aulas on-line. “A rede pública já não tem muita infraestrutura, e com a pandemia, ficamos um pouco à deriva. Algumas escolas demoraram meses até definir uma plataforma de ensino a distância”, avalia a estudante, reforçando que muitos também não dispunham de acesso à internet para acompanhar as aulas nessa modalidade. Aluna do projeto pré-vestibular comunitário Educafro, Gabrielle afirma ter melhorado bastante em relação ao ano passado, e segue otimista. “Acredito que vou me dar bem. Mas estou um pouco preocupada com a quantidade de matérias que podem cair na prova”. O coordenador Geral do Núcleo Educafro Santos Valongo, Júlio Evangelista Santos Júnior, revela preocupação com o desempenho dos alunos. “As aulas presenciais já estão suspensas desde março do ano passado, então estamos muito apreensivos pela prova ser feita no papel. Sabemos que, no processo de ensino-aprendizagem, precisamos fazer algumas coisas presenciais para que a assimilação seja melhor”. Evangelista entende que o público-alvo do projeto é “diferente”, pois vem de um ensino precarizado. “Nunca foi fácil para nós. Alguns dos alunos não possuem internet nem computador em casa, um dos principais fatores de regresso causado pela pandemia”. Ele acredita que, mesmo com as cotas, a disputa não é justa. “A cota é um tipo de reparação histórica para negros e pobres no Brasil, mas a gente sabe que o acesso ao direito e à igualdade social ainda requer uma série de ajustes em diversas questões que vão além de uma lei”. [[legacy_image_116919]] Filho de lenhador, Manoel Bispo, 58 anos, veio da Bahia para Santos enquanto ainda era semianalfabeto. Seu primeiro emprego na região foi como coletor de lixo. Ano passado, ele terminou o Ensino Médio no programa de Educação de Jovens Adultos (EJA), e passou a sonhar com o ingresso no Ensino Superior. “Entrei no Educafro porque queria estudar mais um pouco. Ainda estava inseguro para disputar uma vaga na faculdade”, afirma Bispo, que ainda está em dúvida sobre qual caminho escolher, se um curso de Direito ou de Gestão Pública. Ele garante que está otimista para a prova do Enem deste ano. “Mesmo se eu não passar, não tem problema. Esperei 58 anos. Mais um, não fará diferença. O importante é sempre tentar, nunca desistir. As pessoas dizem que a esperança é a última que morre, mas ela nunca morre, não”. Para quem está inseguro ou se preparando na reta final, o coordenador do Educafro recomenda conhecer a prova do Enem e resolver questões de provas anteriores. “Ajuda bastante também verificar as áreas do Enem que são mais importantes para o seu curso e focar na redação, porque ela vale muitos pontos”. AdaptaçãoA Associação Cultural dos Afrodescendentes da Baixada Santista (Afrosan), localizada no Campo Grande, em Santos, oferece cursinho pré-vestibular para alunos carentes, e comemorou o retorno parcial das atividades neste ano. O presidente da entidade, José Ricardo Santos, diz que a volta tem sido bem recebida pelos alunos, que enfrentaram um período difícil e prejudicial ao desempenho escolar. A Afrosan tem recorrido ao sistema híbrido, intercalando aulas presenciais e remotas aos sábados. “Ano passado, com a pandemia, foi tudo muito difícil, porque era novidade e nós tivemos que nos adaptar para continuar com o projeto por meio das tecnologias”, diz Santos, revelando que muitos dos alunos do curso tiveram que desistir por não terem acesso à internet. “Muitos têm pouca infraestrutura, sem sequer um local para estudar”, explica. Ele aponta que toda essa situação traz à tona a reflexão sobre a desigualdade no acesso ao Ensino Superior e suas consequências. “Por volta dos anos 2000, já discutíamos a pouca participação e a presença das populações negra e pobre nas universidades e cursos superiores”. Para ele, o cenário continua crítico. * Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna-UniSantos sob supervisão da professora Lidiane Diniz e do diretor de Conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.