[[legacy_image_111215]] O dia era 9 de outubro e o ano, 1871. Nesta data, há 150 anos, na cidade de Santos, circulava o primeiro bonde, ainda puxado por tração animal, no caso, burros. Nesse período, os santistas viram o nascimento, o apogeu e a decadência de um meio de transporte que marcou gerações e a vida das pessoas, a economia e a cultura da região. O bonde iniciou as atividades um ano antes de São Paulo, a partir de um decreto que permitia o transporte de cargas. O bonde 01 transportava suprimentos, animais, mudanças e até caixões para sepultamentos. “Santos foi a primeira cidade na América do Sul a ter esse tipo de transporte. Chamava-se Tram-Road”, explica Marcos Rogério Nascimento, gerente de manutenção da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Santos). Ele tem como base das informações o livro História dos Transportes Coletivos em São Paulo,de autoria do engenheiro e pesquisador na área de transportes Waldemar Corrêa Stiel. Em setembro de 2000, os bondes retornaram ao convívio da população, mas com uma nova missão, a de se transformar em símbolo turístico e instrumento de manutenção da nossa história. “A partir de 2000, a gente começa a trazer bondes turísticos de diversos países”, conta Nascimento. Santos conta hoje com uma frota com exemplares de Portugal, Itália e Japão, além de São Paulo e Votorantim, este último, fabricado nos Estados Unidos. O bonde 01 deverá entrar em atividade em novembro, e é uma réplica do primeiro veículo, que circulou há 150 anos, alterado para uma versão de passageiros. Já o bonde Porto se encontra na reforma periódica, com previsão para voltar a circular até dezembro. Do total de 13 veículos do acervo da CET-Santos, nove já foram restaurados e seis estão em condições de circulação. Rogério Nascimento explica que, antes da pandemia, eram transportadas cerca de 90 a 100 mil pessoas no ano - 16 mil só em janeiro, mês em que recebe grande fluxo de pessoas, tendo em vista as férias de verão. No momento, de acordo com a Prefeitura, há quatro bondes em circulação: o Japão/Café, o Arte, o Camarão e o aberto. Dois deles entram em operação na Linha Turística, que funciona de terça a domingo. Em setembro, ganharam nova roupagem, com temática alusiva à primavera, o Camarão e o da Orla, atração turística da Praça das Bandeiras, no Gonzaga. [[legacy_image_111216]] Os bondes para passageiros começaram a circular somente em 1875, fazendo a linha Emmerich, que saia do Centro de Santos e ia para São Vicente. O bonde tipo reboque para passageiros tinha capacidade para transportar 30 pessoas e sua passagem custava 500 réis. “Tenho dados de um livro que diz que, em 1889, foram transportados 7 milhões de passageiros durante o ano”, diz Nascimento, ao explicar que o bonde era o único meio de transporte que as pessoas utilizavam. No dia 28 de abril de 1909, o primeiro bonde elétrico trafegou na linha São Vicente, via praia. Os primeiros bondes elétricos de Santos foram fabricados na Escócia, pela empresa Hurst & Nelson. O bonde aberto tinha capacidade para 45 passageiros. “Tirando a Europa, Santos foi a única cidade no mundo que rodou bondes dessa marca”, explica Rogério. Manutenção e restauraçãoCom o passar dos anos, essas máquinas precisam de reparos para que continuem a transportar turistas e moradores, o que também faz parte do trabalho de Rogério Nascimento, que trabalha com os bondes desde 1999. “A restauração, na verdade, é uma arte em que se mantém a característica técnica original”. Atualmente, o gerente e sua equipe trabalham na reforma do bonde Reboque 01, uma réplica do veículo de 1871, com previsão de entrega para final de novembro. “Ele foi todo reconstruído. Houve uma série de intervenções mecânicas que as pessoas não vão conseguir visualizar, mas estão relacionadas ao conforto do usuário. Vai vibrar menos, fazer menos barulho, melhorar o freio. Questões sempre ligadas à segurança e ao conforto do passageiro”. Nascimento também relata as dificuldades nas restaurações. Detalhes como os da capota exigem o estudo do desenho e ferramentas próprias. Além disso, existe a questão estrutural. “Precisamos de madeira especial, escolher os materiais, as ferramentas. É justamente essa a questão, unir tudo para que o resultado final fique o mais próximo possível do original”, comenta. As reformas são complexas e podem levar de 90 dias a dois anos, dependendo do estado de degradação dos equipamentos e dos custos envolvidos. Os bondes também passam por vistoria diária, antes de saírem. [[legacy_image_111217]] Importância históricaA professora de Engenharia de Produção da UniSantos, Débora Agráz Cutino Nogueira, aponta a importância da manutenção dos bondes. “Quando falamos de restauração, intrinsecamente estamos falando da manutenção. Não só da física, mas também a histórica”. Ela diz que, quando as pessoas fazem hoje o passeio de bonde, elas têm a oportunidade de reviver vários pontos que mostram a identidade santista. “É por esse meio de transporte que hoje conseguimos reviver todo o nosso Centro Histórico. Na época, ele foi a inovação do transporte na Cidade, além de intensificar o convívio entre as pessoas”, avalia a professora. Para Nascimento, a importância histórica do bonde vem da conexão do passado com o presente. “Como o transporte público em Santos sempre foi muito bom, ele representa também uma era. Esse resgate, essa linha turística faz com que o morador de Santos tenha muito orgulho disso, porque ele acaba vivenciando a história”. * Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - UniSantos sob supervisão do professor Paulo Bornsen e do diretor de Conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.