[[legacy_image_119074]] Ainda na escola, os professores costumavam dizer que a profissão de Gabriel Caldeira talvez ainda nem tivesse sido criada e acreditavam que ele pertencia a uma geração que conheceria novas ocupações, inéditas até então. Hoje, o jovem reconhece: os professores estavam certos. Caldeira é um beatmaker, ou seja, produtor de batidas eletrônicas que são procuradas e compradas por diversos artistas do mundo todo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Ele não só atua nessa área como faz sucesso nela. Conquistou um lugar no Top 200 da Billboard, termômetro de músicas de sucesso nos Estados Unidos. Life Is But a Stream, produzida por Gabriel Caldeira, é a terceira faixa do álbum Long Term Effects of Suffering, da dupla americana \$uicideBoy\$, chegou ao sétimo lugar após seu lançamento, em agosto passado, e foi a primeira conquista internacional do produtor santista. Os beats produzidos com softwares, mais comuns atualmente, são a especialidade de Caldeira. Esse tipo de batida já existia em meados dos anos 80. Na época, eram feitas com samplers (sintetizadores de sons de várias fontes, inclusive outras músicas), drum machines (baterias eletrônicas) e outros hardwares. Em 2010, com o avanço da tecnologia e a facilidade de pagamento por plataformas como Paypal, os beats começaram a ser comercializados na internet. Apesar da longa história da música eletrônica, a profissão de beatmaker é recente. Teve seu boom em meados de 2018 e conquista cada vez mais apaixonados por música, à medida que as produções se popularizam no YouTube e ganham espaço nos álbuns. A maioria dos produtores é norte-americana e europeia. Portanto as plataformas de venda de beats on-line são todas em inglês, o que acaba construindo uma barreira linguística. Mesmo assim, o mercado da música que consome essas produções é amplo e as possibilidades são quase infinitas. De acordo com Gabriel Caldeira, que produz e vende para o exterior, “o céu é o limite”. Para profissionais como ele, a vitrine dos trabalhos é o próprio YouTube, onde eles postam as respectivas produções com nomes em inglês, por conta do mercado internacional, e que fazem referência a um estilo específico de som. “Você posta, por exemplo, Drake type beat, e o rapper que quer um beat nessa pegada te encontra”, diz Caldeira. No entanto, o produtor afirma que como algumas tags têm muita oferta e demanda, é difícil se sobressair. É isso o que faz com que precisem inovar e usar nomes de artistas mais underground. [[legacy_image_119075]] Uma das características da profissão é o anonimato, de acordo com Marcus Vinicius Olimpio, de Guarujá, beatmaker há três anos. “Não é algo ruim, é bem bacana na verdade. Mas é comum que as músicas bombem e ninguém saiba quem produziu”. Olímpio afirma que é normal que apenas os artistas sejam reconhecidos pelas produções. Espaço conquistado Apesar do anonimato citado por Olimpio, os produtores têm, aos poucos, conquistado seu espaço com beats que chegam a acumular milhões de views nas plataformas de streaming e conquistam lugar nas paradas da Billboard. Gabriel Caldeira lembra que “existem produtores que têm Grammys e ninguém conhece”. O músico santista, que iniciou a carreira no início de 2019, já conseguiu espaço nas paradas norte-americanas. “As milhares de horas que eu passei produzindo nos últimos dois anos foram recompensadas”. O também santista Lucas Sanches, conhecido como Twenty, conta que costuma produzir beats para o rapper brasileiro Sueth, e que a parceria começou por acaso. “Eu postava beatpacks no meu Instagram. Um dia, o produtor dele viu e compartilhou nos stories. Foi aí que ele me conheceu, pediu alguns beats e, desde então, não parei”. O produtor já tem duas músicas lançadas em parceria com o rapper no Spotify. Uma delas, Royal Salute, já acumula mais de 3 milhões de streamings na plataforma. Pagamentos e lucros Além da produção, é preciso saber vender e negociar. Apesar do reconhecimento conquistado pouco a pouco por alguns, a parte financeira - que costuma ser mais simples em vendas on-line, já que elas são creditadas na hora -, ainda encontra obstáculos quando há envolvimento de gravadoras. As grandes empresas do setor musical têm mais pessoas envolvidas na produção da música e na divisão dos lucros, o que torna o processo mais burocrático. O pagamento efetuado pelas gravadoras é por royalties, que são recebidos todo mês, conforme os streams aumentam. Gabriel Caldeira conta que existem produtores que lucram alto, mensalmente, apenas com a venda on-line. “Alguns conseguem ganhar mais de US\$ 30 mil (cerca de R\$ 170 mil). Eu precisei produzir mais de mil beats e publicar 300 para conseguir meus primeiros US\$ 2 mil (R\$ 11 mil)”. Não há valores pré-estabelecidos no mundo da música, mas normalmente o pagamento é referente a milhões de streams. Por exemplo, 1 milhão de streams no Spotify, rendem US\$ 4 mil (R\$ 22 mil), que são divididos entre os envolvidos, de acordo com a negociação. Desvalorização profissional De acordo com Marcus Vinicius Olimpio, a produção de beats ainda é muito desvalorizada. “Basta entrar no YouTube e procurar tutoriais de como produzir. Então, muita gente acredita que é um trabalho fácil”. O produtor de Guarujá diz, ainda, que a profissão é mais valorizada pela “velha guarda” do rap e hip hop, assim como pela indústria no exterior, que entende melhor o trabalho e o tempo investidos na produção de um beat. Além disso, Olímpio conta que muitos produtores vivem da música e precisam de dinheiro para sobreviver. “ Alguns vendem o beat por R\$ 50,00 porque precisam pagar as contas no fim do mês”. *Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna-UniSantos sob supervisão do professor Eduardo Cavalcanti e do diretor de Conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.