[[legacy_image_217961]] Um trabalho minucioso, feito com bisturis por duas restauradoras no Outeiro de Santa Catarina, em Santos, trará resultado de tamanho oposto aos pequenos objetos usados por elas: a revitalização das pinturas de paredes no prédio anexo ao espaço, que marca a fundação da Cidade. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Andréia Naline e Márcia Nicolau se dividem para, literalmente, descascar camadas de tinta da parede e revelar arte escondida em forma de pintura. Até meados de julho de 2023, as restauradoras passarão centenas de manhãs descobrindo esses fragmentos da história santista registrados em formato de desenhos. O trabalho leva tempo pela delicadeza que exige e pelo estado do imóvel, segundo elas. Até agora, já se fez a “janela didática” — a limpeza do desenho, pois restou pouco da pintura original. Um dos espaços, no segundo andar do edifício, mais parece uma grande sala. Porém, ao se descobrirem os fragmentos de desenho nas paredes, perceberam-se mudanças com o tempo. “Havia uma sala, tinha uma parede, um quarto. Hoje, não existem mais”, explica Márcia. “As pinturas ajudam a entender a história do edifício pelos diferentes estilos de desenho e de pintura”, completa Andreia. Com as informações do desenho e do tipo de mistura da tinta, é feita uma máscara de estêncil. Uma espécie de molde a laser servirá para a restauração, diz Andréia. “Fazemos a abertura em um acetato e refazemos a pintura nos lugares onde não é possível recuperá-la.” Essas pinturas são, geralmente, à base de cal. Segundo Márcia, as artes com cores foscas permitem perceber essa característica. “Não podemos usar látex, por exemplo. Essa estrutura é toda feita de argamassa de cal e areia, muito antiga. Não pode ser usado nada sintético.” [[legacy_image_217962]] Várias pinturas Uma das paredes do espaço tem várias pinturas decorativas, aponta Márcia. Ela explica que naquele espaço, próximo à entrada do prédio, há pelo menos três desenhos diferentes. “Há casos em que há três camadas de tinta. Já pegamos pinturas com dez, 11 camadas de tinta”, exemplifica Andreia. Nesse caso, a sinergia é necessária no trabalho. Algo que as duas têm de sobra, pois trabalham juntas há cerca de dez anos. A experiência também conta, pois acumulam na lista de trabalhos espaços como o Teatro Coliseu e também o Teatro Guarany. “É um processo que se torna intuitivo”, diz Márcia. Reforma e história O Outeiro foi reaberto ao público neste ano, após reforma assinada pelo arquiteto Ney Cadaltto, ao custo de R\$ 3,2 milhões. A obra contemplou a recuperação de todas as fachadas, dos ornamentos, itens de segurança e melhorias em itens como acessibilidade. No século 16, o casal Luis Góis e Catarina de Aguillar ergueu, na base do pequeno morro, a Capela de Santa Catarina de Alexandria, junto à qual foi construída, em 1543, a primeira Santa Casa do País. Desde então, a região passou a ser ocupada, estendendo-se ao local que mais tarde seria a Vila de Santos e, a partir de 1839, a Cidade de Santos. Durante anos, o outeiro forneceu pedras para o calçamento das ruas e a ampliação do porto. Entre 1880 e 1884, o médico italiano João Éboli construiu uma casa acastelada no bloco de rocha que restou do monte e, em 1922, a Câmara Municipal reconheceu o Outeiro de Santa Catarina como marco inicial do povoamento da Cidade.