[[legacy_image_101673]] Há 40 anos, eram sorteados os apartamentos do Conjunto Residencial Martins Fontes, mais conhecido como Jaú, no Aparecida, em Santos. O apelido vem do nome da construtora Jaú S/A — Construtora e Incorporadora, de São Paulo, que ergueu os 33 prédios e 1.188 apartamentos. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Depois do BNH, é o segundo maior empreendimento residencial popular no Município. E foi também a primeira casa própria do mecânico de automóveis Wagner Barroso. Ele tem a mesma idade do conjunto: chegou aos seis meses, engrossando a lista dos pioneiros. “Meu pai era doqueiro e morava de aluguel na Vila Belmiro. Como havia financiamento, com condições especiais, para comprar uma unidade, ele aproveitou e mudou com minha mãe e comigo no colo.” Wagner deixou o Jaú aos 25 anos, depois que casou. Mas, sempre que pode, vai para a casa da mãe e leva o filho, Danilo, de 6 anos. O passatempo preferido deles é jogar futebol no mesmo campinho em que o mecânico brincava quando criança. “(O conjunto) Marcou muito minha infância. O campinho tinha o dobro do tamanho. A gente se juntava aqui. Havia muitas crianças nos prédios. Era uma festa. Teve uma época em que a gente acendia fogueira, à noite, e assava batata no espeto” , conta. Mas, além de alegria, o campinho também deixou marcas. “No canto tinha uma árvore grande, e a gente colocava corda para fazer um balanço. Caí e quebrei os pulsos.” O piloto de parapente Christian de Abreu, de 38 anos, nasceu no Jaú. É do tempo em que os prédios não tinham muros e as garagens eram abertas. Ele lembra que, com os amigos, andava muito de bicicleta entre os carros, e havia o medo dos vizinhos de terem o veículo arranhado. Também brincava de pega-pega e jogava taco na rua. “A gente ficava o dia inteiro no prédio e na rua. Acho que fomos a última geração que soube o que era brincar na rua. Hoje, eles só querem saber de jogo on-line.” Muitos desses momentos estão registrados em fotos na garagem dele, que acabou virando seu cantinho preferido. “Morei com meus pais no oitavo andar. Depois, comprei meu apartamento no segundo, no mesmo prédio. Aqui é muito bom. É perto de tudo.” A facilidade e a proximidade de serviços e estabelecimentos comerciais também chamam a atenção do aposentado Ulisses Freitas Gonçalves, de 66 anos. Ele vive no Edifício Tocantins desde que os condomínios não tinham muros nem garagens fechadas. “Com o tempo, foi mudando tudo. Mas ficou bom também. É bem sossegado. A gente conhece todo mundo. Estamos montando um grupo no WhatsApp para ajudar no controle da segurança. Nem penso em sair daqui”, afirma. Cores Cada condomínio ganhou o nome de um estado brasileiro e os prédios, de cidades. A pensionista Alciria Santos, de 82 anos, mudou-se em 1982 para o Condomínio Paraná, no Edifício Maringá. Mas a referência para os moradores eram as cores dos prédios. “Os vizinhos se conheciam por ‘é o fulano do prédio verde’ ou ‘a fulana do prédio amarelo’”, recorda. Os filhos estudaram na escola estadual Olga Cury, criada para atender estudantes do bairro. “Quando cheguei aqui, não havia o Sesc, ainda. Da janela da sala, acompanhei as obras.” Recém-chegada ao empreendimento, a aposentada Rosemeire Costa da Rocha, de 77 anos, diz que já está se acostumando à casa nova. Ela trocou o apartamento em que viveu por quase 50 anos no BNH por outro no Jaú, há três. “Porque morava no quarto andar e tinha de subir de escada. Estou com problema de locomoção. Agora, moro no quinto andar, mas tem elevador. Estou gostando daqui também.” Área do antigo INPS abriga os 33 edifícios O Conjunto Residencial Martins Fontes foi criado por cooperativa habitacional que levou o mesmo nome. O empreendimento, com 1.188 associados, foi erguido pela Jaú S/A – Construtora e Incorporadora, de São Paulo. E foi assim que surgiu o Jaú. Cada associado teve direito a uma unidade. Os imóveis foram divididos em 33 blocos de 36 apartamentos cada um. Vinte blocos (720 apartamentos) são de dois dormitórios (tipo B, com 82,73 metros quadrados, m2), e 13 (468 moradias) têm três quartos (tipo A, com 104,55 m2). A planta das unidades podia ser conferida nos folhetos produzidos pela Inocoop-SP, que anunciou a abertura de inscrições para a cooperativa. O conjunto foi erguido em uma área retangular, paralela à Avenida Almirante Cóchrane (Canal 5) e à Rua Alexandre Martins, no lado mais comprido; e pela Rua Vergueiro Steidel e os fundos da Avenida Pedro Lessa, no mais curto. O terreno foi adquirido do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS, atual INSS) com ajuda de dois órgãos integrantes do Sistema Financeiro da Habitação: o BNH (Banco Nacional de Habitação), sigla pela qual é mais conhecido o Conjunto Habitacional Humberto de Alencar Castelo Branco, vizinho ao Jaú e entregue em 1970, e a Caixa Econômica Federal, responsável pelo financiamento aos mutuários. A obra deveria ter sido entregue em 5 de janeiro de 1981. Mas ocorreram atrasos, e o sorteio dos apartamentos ocorreu somente em 12 de setembro, no Colégio Canadá (Rua Mato Grosso, 163, Boqueirão). Os primeiros moradores começaram a chegar entre outubro e novembro do mesmo ano.