A chegada em Santos e o trajeto rumo ao Terminal Marítimo de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, em Outeirinhos, no Porto de Santos, costuma ser uma experiência ruim para os turistas que estão a caminho da diversão nos navios de cruzeiro. O motivo é o trânsito na entrada da Cidade e no complexo portuário santista. O acesso rodoviário é prejudicado pela convivência dos carros e ônibus de turismo com o fluxo de caminhões. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Criar rotas exclusivas ou outras soluções logísticas para ônibus de turismo é considerada iniciativa muito positiva, na visão do diretor da Central de Fretes Turismo, José Luis Blanco Lorenzo. “A criação de corredores ou faixas preferenciais para ônibus de turismo em dias de embarque e desembarque, melhor sinalização, áreas exclusivas para embarque e desembarque e integração entre Prefeitura, Autoridade Portuária, Ecovias e operadores de turismo contribuiria para reduzir o tempo de deslocamento, aumentar a segurança e melhorar significativamente a experiência dos turistas que chegam a Santos”, frisa Lorenzo. O Concais explica que participa ativamente das discussões relacionadas à mobilidade e à logística da operação de cruzeiros. Ao final e antes do início de cada temporada, informa o administrador do terminal, são realizadas reuniões com autoridades públicas, empresas de transporte, armadoras e demais parceiros envolvidos na atividade para avaliar os resultados obtidos e discutir oportunidades de melhoria. “Toda iniciativa voltada à otimização dos acessos ao terminal é bem-vinda e contribui para aprimorar a experiência do passageiro. A operação de cruzeiros envolve uma logística complexa e integrada, que depende da atuação conjunta de diversos agentes públicos e privados para alcançar os melhores resultados”, afirma. Gestão Concessionária do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI), a Ecovias Imigrantes explica que monitora continuamente as condições de tráfego e atua para garantir a fluidez e a segurança viária dos usuários que se deslocam para a Baixada Santista, incluindo aqueles com destino ao terminal. “Em períodos de maior movimentação, a concessionária realiza a gestão operacional do tráfego, com a implantação de operações especiais quando necessário, e mantém interlocução com os órgãos competentes para apoiar o planejamento das ações voltadas à mobilidade”, afirma, em nota. A Ecovias acrescenta que a mobilidade nos acessos ao terminal envolve a atuação coordenada de diferentes órgãos e entidades. “Assim, medidas específicas relacionadas à organização dos acessos e à circulação de veículos, incluindo ônibus de turismo, dependem de planejamento integrado entre os responsáveis pela gestão viária e portuária. Nesse contexto, a Ecovias Imigrantes permanece à disposição para contribuir tecnicamente com estudos, avaliações e planos operacionais que possam colaborar para a mobilidade e a segurança viária na região”. Município A Prefeitura de Santos assegura que o terminal já conta com alternativas que ajudam a reduzir interferências no tráfego urbano, como o acesso pela área dos antigos armazéns portuários e espaços específicos para estacionamento. “Além disso, a nova passarela para pedestres, implantada no início da última temporada de cruzeiros, trouxe mais segurança e organização ao deslocamento dos passageiros entre o terminal e os estacionamentos particulares, reduzindo interferências no fluxo de veículos e melhorando a experiência de embarque e desembarque”, acrescenta, em nota. O objetivo das intervenções, segundo a Administração, é garantir uma convivência harmoniosa entre a atividade turística, o trânsito urbano e a movimentação de cargas no Porto, proporcionando mais conforto, segurança e agilidade aos passageiros. “Atualmente, o acesso ao terminal na região de Outeirinhos conta com sinalização urbana e portuária específica, tendo a Avenida Perimetral, sob jurisdição da Autoridade Portuária de Santos, como principal ponto de chegada e saída. A operação é acompanhada pela Guarda Portuária e pela CET-Santos, que atuam na gestão e organização desses fluxos”, detalha. Planejamento operacional O Concais informa que, a cada temporada de cruzeiros, realiza um planejamento operacional conjunto com a Guarda Portuária e demais órgãos envolvidos para organizar o fluxo viário no entorno do terminal e garantir maior segurança e fluidez aos passageiros. “A temporada de cruzeiros coincide com a alta temporada de verão no litoral paulista, período em que há aumento significativo da movimentação nas rodovias de acesso à Baixada Santista. Por essa razão, o terminal mantém contato permanente com as empresas responsáveis pelo transporte dos passageiros que chegam de outras cidades ou estados”, aponta, em nota. O administrador do terminal explica ainda que os horários de chegada e saída dos ônibus são previamente alinhados, tanto para embarques quanto para desembarques, permitindo uma melhor distribuição dos fluxos ao longo do dia. Falta infraestrutura viária, diz especialista Para o consultor portuário Ivam Jardim, a operação de cruzeiros hoje sofre os mesmos impactos logísticos enfrentados pelo Porto de Santos. “Existe uma condição estrutural de saturação do sistema Anchieta-Imigrantes, que em determinados períodos acaba gerando reflexos tanto nos acessos à Baixada Santista quanto nos acessos metropolitanos da Grande São Paulo”. Terminal do Concais recebe dezenas de ônibus durante a temporada de cruzeiros, com passageiros que vêm de várias partes do País (Sílvio Luiz/Arquivo AT) Com isso, diz Jardim, o passageiro de cruzeiro acaba compartilhando parte do fluxo viário com a movimentação portuária e com os caminhões direcionados ao Porto, especialmente em períodos de maior demanda operacional. “Isso naturalmente reduz a fluidez dos deslocamentos e impacta a experiência de chegada ao terminal.” O especialista destaca que o Concais tem conhecimento prévio da chegada dos ônibus e organiza os deslocamentos em parceria com outros órgãos. “Entretanto, melhorias operacionais possuem um limite. Em determinado ponto, a solução passa necessariamente por investimentos em infraestrutura e ampliação da capacidade viária, tanto nos acessos metropolitanos quanto nos acessos urbanos ligados ao Porto de Santos”. Agências As agências de turismo recomendam antecedência quando o assunto é embarcar em um cruzeiro no Porto de Santos. “A orientação para que o passageiro programe seu deslocamento com antecedência faz parte das recomendações. O acesso ao Porto de Santos pode sofrer impactos decorrentes de fatores como obras, acidentes, condições climáticas e aumento do fluxo de veículos em períodos de maior movimento, como finais de semana e feriados”, comenta, em nota, a CVC. Atualmente, cerca de 70% das vendas de cruzeiros nacionais pela CVC têm embarque na Cidade. “O Porto de Santos é o principal porto de embarque da temporada de cruzeiros e possui papel estratégico para a operação da CVC. Essa representatividade reflete a localização privilegiada do Porto, próximo ao maior mercado emissor de turistas do país, além da ampla oferta de navios e itinerários disponíveis ao longo da temporada”, diz a CVC. A Agaxtur orienta o cliente, caso more em São Paulo, a chegar cedo no complexo santista para evitar problemas relacionados ao trânsito. “Quando o cliente reside em outra cidade, sugerimos até mesmo uma noite em Santos na véspera da viagem, para que o embarque seja mais tranquilo e sem muitos riscos de deslocamentos”. Cruzeiristas driblam problemas no Porto Os cruzeiristas conhecem bem os problemas para chegar ao Terminal de Passageiros em Santos. E isso acontece na mesma proporção em que se previnem para tentar evitá-los. “Quem vai de São Paulo ou outra cidade, cheguem cedo ao Porto. A estrada é ótima, mas imprevisível. Se acontecer um acidente, o tempo de viagem pode triplicar e você corre o risco de perder o navio”, recomenda o fotógrafo e cinegrafista Elias Aftim, de 56 anos, nascido em Santos e morador de São Paulo. O profissional, que já fez oito cruzeiros, observa que a sinalização no Porto para quem vai de carro também pode ser melhorada. “Dá para se perder sem um aplicativo de mapa. Muito mal sinalizado. Acho que nem sei como chegar lá sem aplicativo. As vias na entrada de Santos têm zero sinalização para o Concais. Mesmo para quem vai de Santos”. Namorados e moradores de Bauru, no interior de São Paulo, o designer gráfico Gabriel Netto e a publicitária Viviane Pivato, ambos de 26 anos, tentam ir dois dias antes quando vão embarcar em Santos. O fluxo grande de acesso ao Terminal e a passagem do trem em frente ao Concais são fatores que podem deixar o passageiro mais tenso pelas possíveis consequências ligadas ao atraso. “No dia do embarque, também procuramos chegar cedo ao Porto para interagir com passageiros e ficar tranquilo para embarcar. E essa é uma orientação que a gente costuma passar também para outras pessoas: se você vem de longe, se é sua primeira viagem de cruzeiro ou se está indo com família, criança ou idoso, chegar com antecedência na cidade faz muita diferença”, afirma Gabriel. VLT Moradora de Ilhabela, no Litoral Norte de São Paulo, a administradora de empresa e agente de viagens Larissa Squillaro, de 38 anos, alega não enfrentar problemas porque o pai reside na Cidade, na Ponta da Praia, e conhece a realidade enfrentada. A recomendação, porém, é a mesma de Gabriel e Viviane para quem vem de mais longe: chegar com antecedência de, pelo menos, um dia. “Na minha opinião, o desafio não é a presença dos caminhões em si, mas a necessidade de conciliar da forma mais eficiente possível a operação portuária com a movimentação de milhares de passageiros. Uma melhor gestão do fluxo de veículos e uma comunicação mais clara nos dias de maior movimento poderiam ajudar a tornar a experiência mais organizada para todos”, recomenda. A cruzeirista também sugere a criação de uma linha do VLT ligando a Rodoviária de Santos ao Porto com acesso ao Terminal. “Isso ajudaria a oferecer uma alternativa de transporte mais prático e organizado aos passageiros e funcionários. Além de facilitar o deslocamento, também poderia contribuir para diminuir o fluxo de veículos, tornando a chegada ao terminal mais fácil e tranquila, otimizando a logística nas imediações retroportuárias”. Série especial Essa é a segunda reportagem de uma série de cinco matérias que serão publicadas aos domingos para mostrar os caminhos e desafios para atrair mais armadoras de cruzeiros ao Brasil e viabilizar operações ao longo de todo o ano, com conforto aos passageiros. O objetivo da série é ir além do discurso e mostrar, com profundidade, onde estão os entraves reais e o que precisa mudar. No último domingo (2), o tema foi o alinhamento do cais e as possibilidades para facilitar a atracação dos navios de cruzeiros. A Tribuna mostrou que a infraestrutura no Porto de Santos enfrenta desafios que dependem de ações do poder público. O principal, segundo o Concais, administrador do Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, é o comprimento disponível no cais. O trecho em frente ao terminal possui cerca de 294 metros, enquanto muitos dos navios de cruzeiros modernos necessitam de aproximadamente 350 metros para realizar a atracação. O Governo Federal deixou de fazer uma obra essencial para alinhar o cais em 2014. No próximo domingo, a terceira reportagem abordará a chegada de cruzeiristas pelos aeroportos e como a limitação de voos é um gargalo para atrair turistas de outros estados.