<p data-end="357" data-start="14">“Eu tenho uns 20 caminhões parados no pátio porque não tenho motorista”. A declaração de Gislaine Zorzin, diretora administrativa da Zorzin Logística e diretora institucional da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP), resume uma crise que já afeta diretamente o transporte rodoviário de cargas no Brasil.</p> <p data-end="779" data-start="359"><a href="https://www.whatsapp.com/channel/0029Va9JSFuGehEFvhalgZ1n">Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp!</a></p> <p data-end="779" data-start="359">Pesquisa da NTC&Logística mostra que 88% das transportadoras têm dificuldades para contratar caminhoneiros e motoristas. Já dados da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) divulgados pela Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas (Anatc) indicam que o número de motoristas habilitados para veículos pesados caiu de cerca de 3,5 milhões em 2014 para 1,3 milhão em 2024 - redução de 62%.</p> <p data-end="1046" data-start="781">A idade média dos profissionais ativos chega a 46 anos e o interesse dos jovens pela profissão diminui ano após ano. Gislaine afirma que a situação é ainda mais delicada no transporte de cargas químicas, que exige mão de obra especializada e treinamento específico.</p> <p data-end="1241" data-start="1048">“A gente tem um perfil de motorista mais especializado, mas que muitas vezes se sente até invadido porque tudo o que ele faz precisa comunicar para a empresa por questões de segurança”, afirma.</p> <p data-end="1257" data-start="1243"><strong data-end="1257" data-start="1243">Tecnologia</strong></p> <p data-end="1626" data-start="1259">Segundo ela, o avanço da tecnologia embarcada nos caminhões trouxe ganhos operacionais e de segurança, mas também aumentou a resistência de parte dos profissionais. Empresas utilizam câmeras, rastreamento e sistemas internos de controle para reduzir riscos de acidentes e roubos de carga. “Não é todo mundo que aceita dirigir com uma câmera filmando o tempo inteiro”.</p> <p data-end="1833" data-start="1628">Além do monitoramento, a rotina pesada e as longas jornadas também afastam novos profissionais. Para as transportadoras, os carros de aplicativo se tornaram concorrentes diretos na disputa por mão de obra.</p> <p data-end="1992" data-start="1835">A possibilidade de trabalhar em horários flexíveis e sem o mesmo nível de controle atrai profissionais que antes poderiam migrar para o transporte de cargas.</p> <p data-end="2012" data-start="1994"><strong data-end="2012" data-start="1994">Prós e contras</strong></p> <p data-end="2338" data-start="2014">A executiva afirma que a exigência de habilitação profissional também pesa contra o transporte rodoviário. Enquanto motoristas de carros por aplicativo podem trabalhar com CNH categoria B, caminhoneiros precisam obter habilitação específica e cumprir exigências adicionais, como exames toxicológicos e cursos especializados.</p> <p data-end="2544" data-start="2340">Apesar dos desafios, Gislaine avalia que parte das exigências trouxe ganhos para a segurança viária. “Depois que o (exame) toxicológico começou a ser exigido, você vê a diminuição no número de acidentes”.</p> <p data-end="2932" data-start="2546">O exame toxicológico passou a ser obrigatório para motoristas profissionais em 2016. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) reforçam o impacto da medida. Segundo levantamento do órgão, entre 2015 - antes da obrigatoriedade - e 2017, após a implementação da política, os acidentes com caminhões nas rodovias federais caíram 34%, enquanto as ocorrências envolvendo ônibus recuaram 45%.</p> <p data-end="3217" data-start="2934">Ainda de acordo com a PRF, desde a entrada em vigor da exigência do exame toxicológico, a lei seca identificou 29.605 motoristas profissionais dirigindo sob efeito de álcool. Já o toxicológico apontou 188.873 resultados positivos para substâncias psicoativas, principalmente cocaína.</p> <p data-end="3538" data-start="3219">A crise de mão de obra ocorre em um momento de pressão crescente sobre os custos do transporte rodoviário. Segundo a NTC&Logística, os motoristas representam 19,5% da estrutura de custos do setor, atrás apenas do combustível e dos veículos. Nos últimos 24 meses, o custo com mão de obra subiu 13,42%.</p> <p data-end="51" data-start="0"><strong data-end="51" data-start="0">Avanço de veículos autônomos é visto como saída</strong></p> <p data-end="330" data-start="53">Diante da dificuldade crescente para repor mão de obra, Gislaine avalia que parte da solução pode vir do avanço dos veículos autônomos no transporte de cargas. Segundo ela, a tendência é que, no futuro, a função tradicional do caminhoneiro passe por uma transformação profunda.</p> <p data-end="524" data-start="332">“Talvez a gente não tenha mais motorista, e sim operador”, afirma. Para a executiva, esses profissionais poderão controlar caminhões remotamente, sem necessariamente estarem dentro do veículo.</p> <p data-end="863" data-start="526">Tecnologias desse tipo já são realidade em operações de mineração no Brasil. A Vale, por exemplo, opera caminhões autônomos em minas como Brucutu, em Minas Gerais, desde 2018, além de expandir a tecnologia em Carajás e Serra Sul, no Pará. Os veículos utilizam sistemas guiados por GPS, radares e algoritmos para circulação sem motorista.</p> <p data-end="998" data-start="865">Segundo a mineradora, a tecnologia ajuda a reduzir riscos de acidentes, melhorar o consumo de combustível e aumentar a produtividade.</p> <p data-end="1227" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="1000">A comparação com a mineração, porém, exige cautela. Os caminhões autônomos da Vale operam em ambientes fechados, com rotas predefinidas e infraestrutura dedicada, condições radicalmente diferentes das rodovias brasileiras.</p>