Testes realizados no Terminal de Passageiros Giusfredo Santini demonstram incompatibilidades estruturais (Alexsander Ferraz/AT) Um teste para a implantação do sistema de biometria nos terminais de passageiros do País, feito no mês passado, no Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, em Santos, teve limitações relevantes. O consultor portuário Ivam Jardim, da Agência Porto Consultoria, que atua junto aos principais terminais de passageiros do Brasil, avalia que o modelo testado apresenta incompatibilidades estruturais com a operação portuária. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Segundo o especialista, a solução não contempla parcela significativa dos usuários, como estrangeiros, menores de idade e tripulações, o que obrigaria a manutenção de fluxos paralelos e reduziria a eficiência operacional. Além disso, Jardim destaca que a exigência de validação em área restrita, após o raios X, impede o uso da biometria como ferramenta de controle de acesso inicial, etapa fundamental para organização do fluxo nos terminais. Outro ponto crítico observado durante o teste foi a instabilidade do sistema. “Foram registradas falhas de reconhecimento que exigiram repetição do processo ou intervenção manual. Em operações de grande escala, isso tende a gerar filas e perda de previsibilidade”, afirma. Ivam Jardim também ressalta que a aceleração isolada da identificação não resolve gargalos do embarque, que dependem da capacidade do navio e das áreas internas. “Pode haver, inclusive, efeito contrário, com acúmulo de passageiros em áreas sensíveis, como o cais”. No campo econômico, o consultor alerta que, além da indefinição sobre investimentos, operação e manutenção do sistema, o desafio passa pela padronização da solução em diferentes realidades portuárias. Segundo ele, Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza e Maceió possuem operadores que poderiam realizar investimentos mediante mecanismos de reequilíbrio contratual. Contudo, outros destinos de cruzeiro, como Paranaguá (PR), Itajaí (SC), Balneário Camboriú (SC), Búzios (RJ), e escalas de parada, como Ilhabela, sequer dispõem de infraestrutura ou de área administrada para instalação da tecnologia. “Como padronizar a experiência do passageiro e a operação em estruturas tão distintas?”, questiona Jardim. Portaria A implementação do sistema de biometria nos terminais de cruzeiros do País ainda depende da publicação de uma portaria que instituirá a política pública sobre o tema. As diretrizes estão em análise no Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), que também definirá o cronograma. Para o MPor, porém, o primeiro teste — uma prova de conceito — realizado no Concais no dia 16 de maio, durante o último embarque da temporada 2025/2026, teve resultados considerados satisfatórios. “Foram registradas falhas de reconhecimento que exigiram repetição do processo ou intervenção manual. Em operações de grande escala, isso tende a gerar filas e perda de previsibilidade”, diz Ivam Jardim, consultor portuário da Agência Porto Consultoria (Divulgação) A Autoridade Portuária de Santos (APS) destacou que o cais santista reúne características que o credenciam como ponto inicial do programa, concentrando grande volume de passageiros ao longo da temporada de cruzeiros. No teste, a validação biométrica ocorreu após a passagem pelo raios X. De acordo com o MPor, a implementação será gradual e poderá ser expandida para outros procedimentos, como controle migratório. A pasta também afirma que a tecnologia reduz fraudes e erros de identificação, além de permitir maior rastreabilidade das informações. Reequilíbrio contratual O MPor informou que o teste em Santos não gerou custos e que os investimentos futuros ainda serão definidos. A pasta indicou que a política poderá prever mecanismos de reequilíbrio contratual, com o objetivo de evitar oneração direta aos usuários.