A transferência do Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, de Outeirinhos para o Valongo, é vista como a mais importante medida para ampliar a competitividade do Porto de Santos no setor de cruzeiros, tanto em infraestrutura quanto na experiência do passageiro. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! A construção da base do projeto na água, em frente ao Parque Valongo, está atrelada às obrigações do vencedor do leilão do Terminal de Contêineres (Tecon) Santos 10, no cais do Saboó. Mas a Autoridade Portuária de Santos (APS) já sinalizou que poderia investir, uma vez que o leilão do Tecon Santos 10 não tem data prevista após sucessivos adiamentos nos últimos anos. “A mudança para um novo terminal e a modernização da estrutura de atracação seriam extremamente importantes para elevar a experiência, o conforto e a segurança do cruzeirista”, afirma o consultor portuário Ivam Jardim, da Agência Porto. Segundo ele, não adianta pensar no terminal de passageiros de forma isolada. “A experiência do usuário precisa ser completa. De nada adianta ter um terminal moderno se o acesso a ele continuar problemático. Por isso, os investimentos precisam vir acompanhados de melhorias viárias e de uma integração mais qualificada com a região central de Santos, permitindo uma experiência mais positiva para quem embarca ou visita a cidade”. O consultor portuário acrescenta que existem diversos projetos que podem fortalecer ainda mais o turismo de cruzeiros em Santos. “Podemos destacar o novo acesso (rodoviário) ao Porto de Santos, o futuro aeroporto do Guarujá e projetos de revitalização da região central da Cidade”, cita Jardim. Experiência do passageiro Embora ofereça atualmente um espaço capaz de atender com qualidade os passageiros de cruzeiros, o Concais destaca, em nota, que, para Santos continuar ampliando a competitividade, é fundamental avançar na infraestrutura portuária, na mobilidade urbana, na acessibilidade e nas condições de atracação, além do novo terminal no Valongo. “A experiência do passageiro começa muito antes do embarque. Um acesso rápido e eficiente ao terminal, processos ágeis de embarque e desembarque, integração com diferentes modais de transporte e berços adequados para os navios são fatores cada vez mais relevantes para as armadoras e para os turistas”, define. “Também é importante considerar a complexa logística envolvida nas operações de embarque e desembarque de milhares de passageiros. O local proposto para o novo terminal possui potencial para absorver esse fluxo de forma eficiente, minimizando impactos na rotina da cidade”, emenda. Revitalização Para a Prefeitura de Santos, a transferência do terminal de passageiros para o Valongo é a principal transformação em discussão. “O projeto tem potencial para modernizar significativamente a infraestrutura de atendimento aos cruzeiristas e ampliar a capacidade operacional da cidade”, explica. “Além de modernizar a operação dos cruzeiros, ela fortalece a revitalização do Centro Histórico, aproxima os passageiros dos principais atrativos turísticos da cidade e cria novas oportunidades de desenvolvimento econômico e urbano”, completa. O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) julga que a “implantação do novo terminal também deverá contribuir para qualificar a recepção dos passageiros e integrar a atividade de cruzeiros à região central de Santos, fortalecendo a conexão entre o Porto e a Cidade”. A Autoridade Portuária de Santos (APS) lembra que a mudança tornará fácil o acesso às diversas atrações turísticas do Centro Histórico de Santos, casos como o Museu do Café, o Museu Pelé, a Rua XV de Novembro e o Parque Valongo. “Dessa forma, haverá um apelo mais direto para que os turistas visitem essas atrações, o que irá impactar positivamente na experiência do passageiro”. Além disso, diz a APS, o projeto do terminal de cruzeiros no Valongo prevê estruturas como edifício-garagem e a possibilidade de três navios de cruzeiro atracarem simultaneamente, facilitando o acesso dos passageiros. O Concais complementa ressaltando que a presença desses berços de atracação é uma “condição considerada estratégica pelos principais terminais de cruzeiros do mundo”. Do lado de Guarujá, a Prefeitura avalia que, com o advento do aeroporto, haja maior procura pelos cruzeiros marítimos, considerando o encurtamento dos traslados e a possibilidade de voos diretos para o Guarujá. Contribuição Em nota, a Autoridade Portuária de Santos (APS) lembrou que contribui para o desenvolvimento do Parque Valongo e na revitalização do Centro Histórico de Santos, “o que trará outros benefícios do ponto de vista turístico quando o terminal de cruzeiros for instalado naquela região”. A estatal citou a entrega do Armazém 3, ocorrida em junho passado, que se uniu ao Armazém 4, e o próprio Parque Valongo. “Também na região central, foi inaugurado em maio o Hub de Inovação – Armazém 7 que abrigará inúmeras ações de desenvolvimento tecnológico, startups, laboratório, entre outras atividades. O Hub será gerido pelo Instituto Mackenzie e contribuirá para a revitalização do Centro”, acrescenta. “Ainda em 2025, foi inaugurada a Passarela Porto-Cidade Engenheiro José Colla – estrutura acessível de 228 metros”, emenda, referindo-se ao chamado bulevar aéreo entre a Rua XV de Novembro e o Parque Valongo. Integração O Ministério do Turismo (MTur), em nota, informa que trabalha sob a ótica da integração para que a vocação de liderança do Porto de Santos como principal polo do setor de cruzeiros na América do Sul “seja continuamente aprimorada”. “Nosso papel é incentivar e apoiar diretrizes que tornem o trânsito do turista cada vez mais fluido e confortável, apoiando a modernização tecnológica dos serviços receptivos e a requalificação do entorno. O objetivo compartilhado por todos os atores envolvidos é garantir que a excelência da experiência do passageiro tenha início logo em sua chegada à cidade”, comenta. A pasta acrescenta que projetos que promovem a revitalização urbana e a aproximação do porto com a cidade, como o da mudança do Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, para o Valongo, estão em total sintonia com as tendências globais de turismo e gestão portuária. “O Ministério do Turismo enxerga com otimismo iniciativas que buscam harmonizar a eficiência operacional com a valorização do patrimônio cultural. Um terminal integrado ao sítio histórico e urbano de Santos tem o potencial não apenas de otimizar os fluxos logísticos da atividade, mas de enriquecer a experiência do viajante, oferecendo uma imersão imediata nos atrativos da cidade”. O Ministério afirma que segue acompanhando as discussões técnicas, “convicto de que as soluções adotadas deixarão um grande legado social e turístico para a Baixada Santista”. Todas as esferas de governo concordam que é preciso fortalecer o turismo de cruzeiros em Santos e tornar a região atrativa aos visitantes (Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Modelo de sucesso Turismóloga e especialista em planejamento estratégico do turismo na área pública e privada e em estruturação de destinos turísticos, Selma Cabral afirma que a transferência do terminal para o Valongo pode representar uma mudança de paradigma. “Em vez de um terminal apenas operacional, Santos pode ter um terminal integrado à experiência urbana, cultural e turística. É o modelo adotado por diversos destinos internacionais de sucesso”. Selma lista temas que merecem atenção, além da mudança do Concais: aeroporto do Guarujá, revitalização da área portuária histórica, integração porto-cidade, ampliação da oferta de passeios e experiências, programas de qualificação turística, desenvolvimento de roteiros regionais para pré e pós-cruzeiro. “E também discutir o legado econômico dos cruzeiros para a região, ou seja, transformar passageiros em visitantes, visitantes em consumidores e consumidores em promotores do destino”, detalha. O presidente da Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista (APT), Eduardo Silveira, considera que houve evolução no setor. O maior desafio, segundo ele, é o de promover o turismo regional, embora saiba que há obstáculos a serem enfrentados, sejam eles de infraestrutura ou de serviços. “A integração de todas as cidades para atender aos turistas passa pela adoção conjunta de ações, deliberações e normas que promovam a atividade do turismo. Entre elas podemos citar desde a necessidade de treinamento para o comércio, passando pela capacitação de novos profissionais, para enfim chegarmos à promoção da nossa diversidade, gastronomia e da cultura caiçara”, resume. Ações conjuntas As prefeituras de Santos e de Guarujá defendem uma atuação conjunta para consolidar, em longo prazo, as duas cidades como destino único em termos de turismo. “A consolidação passa por uma estratégia regional integrada. Santos e Guarujá possuem atrativos complementares e, juntas, podem oferecer uma experiência mais completa aos visitantes, estimulando a permanência dos turistas antes e depois dos cruzeiros. Além disso, trabalhamos para que Santos possa receber cruzeiros o ano inteiro e não apenas na temporada de verão”, argumenta a Administração santista. A Prefeitura de Guarujá julga que é importante reforçar a divulgação dos municípios e a possibilidade que o visitante tem de conhecer dois ou três destinos em um único dia. “O que pode ser trabalhado em parceria com as armadoras, operadoras de turismo e companhias aéreas”. A Administração guarujaense diz que as duas cidades são mais do que sol e praia. “Respiramos cultura, história, gastronomia e turismo de aventura, entre outras opções de lazer, potencialidades que podem e devem ser trabalhadas em conjunto e de maneira integrada”.