(Alexsander Ferraz/ AT) A grande experiência de Luciana Fuschini na área da segurança é responsável por credenciá-la para falar sobre o tema. Delegada aposentada da Polícia Federal (PF), ela exerceu as funções de chefe da Delegacia da PF em Santos e coordenadora da Comissão Estadual de Segurança Pública nos Portos, Terminais e Vias Navegáveis (Cesportos). Atualmente, além de consultora na área de segurança, Luciana atua como conselheira de administração na Autoridade Portuária de Santos (APS). Nesta entrevista para A Tribuna, ela aborda problemas e sugere soluções envolvendo o setor, em especial no Porto de Santos. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! A senhora foi a primeira mulher a ocupar a delegacia da Polícia Federal aqui em Santos. É uma responsabilidade que fica para a vida? Sim, algumas coisas que a gente faz ao longo da vida, que vão pavimentando caminhos para outras pessoas, acabam ficando. Quando você chega primeiro, é algo solitário, não tem ninguém te esperando. Tudo é muito novo e diferente. Isso aconteceu várias vezes na minha vida. Quando eu coordenei a Cesportos no estado de São Paulo, em 2018, também fui a primeira mulher. Agora, na diretoria da Soamar (Sociedade Amigos da Marinha), também fui a primeira mulher. Foram caminhos que a gente foi pavimentando. O ramo portuário ainda segue sendo muito masculino. Essas suas conquistas inspiram outras mulheres? Com certeza. Tem muitas mulheres que chegam e falam que se inspiraram, o quanto foi bom eu ter mostrado os caminhos. Não acho que o meio seja machista, é uma questão objetiva: o Porto começou com estivadores carregando sacos, era algo ligado à força. Era um ambiente mais masculino no qual foi, aos poucos, sendo inserida a questão de logística. Agora tem até estivadora, que opera a máquina. Acho que as mulheres que entram estão se dando muito bem. As características dos homens e das mulheres são complementares. Com a sua experiência de 21 anos como delegada PF, o que mudou na segurança dos portos? Tivemos um avanço muito grande na parte de ISPS Code, que é uma certificação internacional de segurança no porto, que entrou a partir de 2019, com força de lei federal. A partir desse momento, começou a se cobrar os terminais e, virando obrigatório, a régua aumentou bastante. Os terminais passaram a se adaptar e a segurança deu uma boa elevada. Dá para perceber em estatísticas o impacto que isso teve. E, fora isso, o avanço da tecnologia, a inteligência artificial (IA) está crescendo exponencialmente essa parte tecnológica. O que pode ser feito para minimizar as ocorrências envolvendo segurança nos portos, em especial em Santos? Hoje, para um terminal ser certificado, tem que ter um estudo de avaliação de risco e o plano de segurança feito para mitigar aqueles riscos que foram detectados. Se os terminais tiverem aquela maturidade de segurança e eles seguirem exatamente o que está proposto nos planos deles, a gente já está em um patamar muito elevado. São os supervisores de segurança, obrigatórios em todos os terminais portuários, que verificam essa situação do ISPS Code e fazem algo chamado Roip, que são os Registros de Ocorrência de Incidente de Proteção. Serve para uma investigação. Hoje você tem barreira perimetral virtual, tem vídeo analítico, várias camadas de segurança, análise preditiva com IA. Isso tudo eleva o nível. Os portos ainda são rotas essenciais para o tráfico de cocaína, basta ver as apreensões constantes... Os traficantes têm muito dinheiro, criatividade e tempo para achar rotas e maneiras alternativas. Gosto muito de gráficos porque, com eles, você consegue enxergar bastante coisa. É possível ver, ao longo dos anos, o que houve. Nem sempre quando o número de apreensões diminui, significa que as coisas estão dando certo. Às vezes, é uma mudança de rota ou de modus operandi. E o que acontece: a polícia e os órgãos de segurança estão sempre um passo atrás. Então, quando se analisa um gráfico, tem se levar tudo em consideração. Tivemos aqui uma GLO (Garantia da Lei da Ordem, com intensificação no patrulhamento militar) no Porto de Santos (entre novembro de 2023 e junho de 2024) e isso (apreensões) diminuiu naquele período. Mas o que eu percebi foi um aumento no número de ocorrências nos portos do Nordeste e do Norte, que ainda tem um nível de maturidade de segurança um pouco menor. O investimento em inteligência tem que ser ainda maior? Não tenho dúvida. Hoje, a gente tem um investimento baixíssimo, não só em inteligência, mas em mão de obra. O número de servidores está muito aquém. O aparelhamento também. Por exemplo, aqui no Porto de Santos a gente tinha uma lancha, vamos receber outra. Mas se essa que tem quebra? Como o maior porto do Hemisfério Sul tem esse grau de estrutura? Não pode ser assim. Precisamos olhar e ver a magnitude de como isso impacta o País e a economia, que passa pelo Porto de Santos. Os salários também são menores do que outras carreiras. Estamos encolhendo e acaba acontecendo o impacto da falta de atratividade. Tudo isso tem que ser levado em consideração e analisado de cima para baixo do Governo, para poder investir nesses profissionais. O pessoal trabalha meio na raça. Às vezes falta dinheiro para gasolina na viatura, não pode fazer uma diária. Por várias vezes eu tirei a diária do bolso para receber meses depois. Não é justo. Temos um Núcleo de Polícia Marítima (Nepom) que está completamente aquém, não só no Porto de Santos. Está prevista a construção de um novo prédio da PF na Ponta da Praia. O quanto ele será importante para melhorar o trabalho? Eu me sinto muito à vontade em falar sobre isso, porque foi a minha gestão que conseguiu de volta aquele terreno. No atual prédio da Polícia Federal, não tem estacionamento suficiente para as viaturas. O prédio é precário. Isso tem até um impacto psicológico para o crime organizado. Se há uma estrutura mais imponente com viaturas, lanchas, aquilo causa um impacto. É importante que você esteja com todo o aparato e com a visão para tudo ali no Porto e no futuro aeroporto, além da saída rápida da lancha por ali. A futura mudança do Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, para o Valongo vai ser importante para a segurança do Porto? Embora ele tenha sido bem construído, uma instalação nova já nasce com uma estrutura ainda mais pensada, também com os órgãos de segurança, dentro da maturidade no assunto que temos hoje, e integrando os órgãos intervenientes que já atuam conjuntamente. A nova localização também ajuda nisso, saindo um pouco da, digamos, confusão do Porto. Vai ser interessante essa mudança. O que a Cesportos já fez e pode continuar fazendo em termos de mudanças e incrementos ligados à segurança? Na época em que eu estive lá, uma das coisas nas quais eu mais batia era a integração do público com o privado. Não adianta cada um discutir isoladamente. A gente trabalha integrado, um precisa do outro. Por exemplo, se você dobrar o número de toneladas de movimentação, você não tem a estrutura dos órgãos públicos na mesma proporção. Quando vai se tomar qualquer tipo de decisão, precisa envolver todos esses órgãos para poder ver o impacto. É o efeito em cadeia. Puxei muito essa integração do público om o privado e ela continua hoje rendendo bons frutos. Tenho batido nisso também dentro do Conselho de Administração (Consad) do Porto de Santos. A Cesportos tem que ter um papel mais atuante? Ela tem hoje um papel mais atuante. Antigamente não tinha tanto, mas foi encorpando e hoje as pessoas veem a importância. Costumo dizer que a segurança não é um setor, ela permeia tudo. Quando uma empresa contrata alguém, tem que ver quem está contratando. Hoje, o crime organizado cria empresas de fachada, pagando todos os impostos e colocando o preço lá embaixo. O setor de compras vai lá e a contrata porque ela está, formalmente, toda correta. E, na verdade, está contratando o crime organizando para ele ter acesso ao terminal e aos navios. Embora não tenha ligação direta com a Polícia Federal, haverá daqui a alguns anos o túnel imerso Santos-Guarujá. Como analisá-lo sob o ângulo da segurança? Ele tem um impacto na segurança. Se a mobilidade do cidadão de bem vai ser maior, a do crime também. É outro aspecto que eu sempre converso: quando sair, tem que haver toda essa questão do aspecto da segurança, com inteligência artificial e uma série de coisas. Ou seja, o que tem nas cidades inteligentes, como detectar pessoas procuradas. Tem que fazer a maior blindagem possível para não se tornar um meio facilitador para o crime ao invés de só um meio de mobilidade dos cidadãos. É por isso que eu falo que tudo passa pela segurança. É um dos aspectos que a gente tem que ver sempre que tomamos decisões dentro ou fora do Porto. (Alexsander Ferraz/ AT)