A pesquisa destacou a grande concentração no modal rodoviário no País: 80% da carga movimentada pelos operadores logísticos usam apenas os caminhões para transporte (Alexsander Ferraz/AT) A multimodalidade representa eficiência logística e redução de custos no transporte de cargas, mas apenas 31% dos 1,5 mil operadores logísticos que atuam no Brasil operam mais de um modal. O número é considerado baixo, e os principais entraves ao avanço da oferta multimodal são a falta de infraestrutura, as poucas rotas e os custos altos no País. É o que revela o estudo Perfil dos Operadores Logísticos no Brasil 2026, apresentado nesta quinta-feira (17) pela Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol) e pelo Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), que mapeou a multimodalidade pela primeira vez. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Segundo o estudo, entre os operadores logísticos com soluções multimodais, 44% são de grande porte, 29% são de médio porte e 19% de pequeno porte. Em termos documentais e regulatórios, 38% possuem habilitação como Operador de Transporte Multimodal (OTM), emitida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). A pesquisa também concluiu que as empresas multimodais apresentam maior escala. Atendem, em média, 12 estados e 11 setores econômicos ao mesmo tempo, contra dez estados e sete segmentos entre os que não oferecem esse tipo de serviço. Concentração Ainda há muita concentração: 80% da carga movimentada passa por apenas um modal, 17% por dois e 3% por três ou mais. O rodoviário está presente em 94% das operações, seguido pelo aéreo nacional (21%), aéreo internacional (8%), marítimo internacional (7%), cabotagem (7%), ferroviário (5%) e hidroviário (3%). O transporte aéreo de carga, portanto, segue como o segundo mais utilizado pelos operadores logísticos, em particular pelo alto volume do e-commerce e de cargas sensíveis, como produtos farmacêuticos e perecíveis. Quando perguntados sobre os principais entraves à multimodalidade, os operadores apontaram a indisponibilidade de ativos físicos, a baixa qualidade da infraestrutura e a oferta limitada de rotas. Ferrovias e hidrovias receberam as piores avaliações, com notas médias de 3,2 e 3,4, respectivamente, em uma escala de zero a dez. Nos terminais, que conectam os modais, barreiras regulatórias são apontadas como gargalos nas unidades aéreas, portuárias e alfandegárias, enquanto a baixa disponibilidade é o principal problema nos terminais ferroviários e hidroviários. Desafios Para a diretora-executiva da Abol, Marcella Cunha, 31% de uso da multimodalidade por parte dos operadores é “um número pequeno, considerando o tamanho do nosso País”. Marcella avalia que o desafio não está apenas na infraestrutura, mas também na integração entre sistemas e na formulação de políticas públicas que considerem toda a cadeia logística. “Não é só combinar modais ou investir em modais individualmente, muitas políticas públicas vêm sendo formuladas nesse sentido para desenvolver quase que individualmente os modais, sem pensar nas interfaces, na integração entre eles”, observou. A executiva defende que a multimodalidade seja tratada como uma política de Estado, e não como um plano de governo. “Então, se a gente combina esses eixos e tenta contribuir com formulação de políticas públicas, seja nesse governo ou no próximo, para termos a multimodalidade como, de fato, um projeto, um programa de Estado e não de governo que atravesse governos, esse é o melhor dos mundos”. Ela ressalta que os maiores operadores logísticos conseguem oferecer mais serviços multimodais, mas que ainda há espaço para ampliar esse modelo. Na avaliação de Marcella, a redução de custos pode ser um incentivo importante, desde que acompanhada de projetos estruturados e de diálogo com os embarcadores. “A gente não tem isso contabilizado, mas a ideia, obviamente, é usar a multimodalidade para ganhar mais eficiência, reduzir custos, reduzir emissões de CO2, de poluentes”. Estímulo Marcella Cunha acrescenta que o setor também precisa ampliar o conhecimento sobre as possibilidades existentes e estimular projetos-piloto. “A gente vê um desconhecimento de oportunidades do próprio operador logístico. É um papel nosso, da Abol, estimular que eles conheçam e procurem soluções multimodais, criem, façam pilotos de projetos multimodais, tendo o seu embarcador como principal parceiro”, afirmou.