[[legacy_image_357163]] Qualificação profissional é mais que uma exigência do mercado. Trata-se de uma necessidade. Há 25 anos, um espaço em Santos se dedica a desenvolver habilidades em quem atua no segmento portuário. Nesse período, o Instituto de Capacitação Técnica e Profissional (Incatep) já concedeu mais de 124 mil certificados. De acordo com o proprietário, João Gilberto Campos, a ordem é atualização constante - deles e dos trabalhadores. Segundo Campos, o Incatep, que ganhou tração por conta dos simuladores que trazem para o ambiente virtual ações reais da operação portuária, conseguiu converter essa prática em ações ligadas ao meio ambiente, aderentes às práticas de ESG (meio ambiente, social e governança, da sigla em inglês), por exemplo. “Cada litro de diesel deixa 2.58 kg de dióxido de carbono (CO2) no ar. Cada hora de simulador economiza, em média, 50 litros de diesel. A cada 12 horas de utilização de equipamento, evita-se uma tonelada de CO2. É nosso processo de descarbonização”, conta. Uma visita à sede do Incatep, na Ponta da Praia, permite uma noção realista do que faz um profissional portuário. São 32 simuladores, em um espaço de 500 metros quadrados, destinados ao aprendizado da operação de pá carregadeira, retroescavadeira, escavadeira hidráulica, guindaste de bordo, RTG (rubber tyred gantry, também chamados de transtêineres elétricos), empilhadeiras de pequeno e grande porte, entre outros. Cargas como celulose, uma das mais movimentadas pelo Porto de Santos, possuem simulador. “A pessoa não vai sair daqui pronta para trabalhar, mas com um começo. Na empresa (que for empregada), deve ficar um certo período treinando com o equipamento real. Mas é um início”, acrescenta o dono da Incatep. Campos, porém, faz uma ressalva: não adianta apostar apenas em um curso de capacitação se não tiver uma boa formação educacional. “Cada vez mais, as empresas querem que a pessoa se habilite, se capacite. Mesmo para área operacional, elas recomendam Ensino Superior”, resume. Segundo ele, os programas usados pelos simuladores são desenvolvidos pelo próprio centro. “Se eu quiser instalar 100 simuladores, eu instalo, porque a licença é minha. Não dependo de fornecedor. O carregador de navio, ou shiploader, só existe aqui”. Os cursos são de até 100 horas de duração. Mas, cada sessão é de, no máximo, duas horas, “para não ficar entediante”, segundo relata. Um dos simuladores faz uso de óculos de realidade virtual, dando nova dimensão à experiência. TrilhasCampos diz que um diferencial do método de ensino está nas chamadas trilhas de formação. Nelas, cada profissional escolhe os cursos de capacitação que desejar, operador de contêiner, controlador de contêiner, celulose, trabalhador portuário de granel, trabalhador off-shore e operador de minérios. “Temos algumas situações que são marcantes, como contribuir com a melhoria das pessoas. Tem gente trabalhando em vários países. A pessoa não tem profissão e a gente oferece isso a ela para o resto da vida”, resume. HabilidadesAs vivências são diferentes, mas os objetivos de quem busca se capacitar no Incatep são convergentes: desenvolvimento profissional e pessoal. Durante a visita, A Tribuna conheceu três pessoas que apostam na transformação. Um deles é Oscar da Silva, de 27 anos. Motorista de aplicativo, o morador do Quarentenário, em São Vicente, faz o curso de operação de contêiner. E já consegue enxergar no horizonte uma vida melhor. [[legacy_image_357164]] “O simulador é bem didático. Já consigo me visualizar lá (nas empresas do Porto). Fazer os cursos é meio caminho. Tenho vontade de fazer faculdade, mas dependo da condição financeira. Meus pais gostaram da ideia, porque é uma carreira de futuro. Estou começando o processo”, descreve. A bordo do portêiner, as dificuldades iniciais vão sendo superadas - como o vento e a chuva no manejo dos contêineres. “No começo, é complicada (a operação), porque tem dois controles, a questão do balanço, mudanças climáticas, mas depois a gente vai se habituando e pegando o jeito”, descreve. Alma de meninoO estivador aposentado Gilvando Bispo Leandro, de 55 anos, faz dois cursos de reciclagem: guincho e pá carregadeira. Mas não perde o foco, o mesmo que lhe garantiu uma premiação por desempenho na BTP. “Quando eu percebi que haveria mudanças no meu trabalho, em 2000, comecei a fazer cursos. Hoje, estou me reciclando. É importante não perder a motivação”, descreve. Apoio familiarDepois de dez anos fora do mercado de trabalho, a auxiliar de almoxarifado Lidiane Cristina Menezes Ferreira, de 33 anos, fazia um curso de empilhadeira. [[legacy_image_357165]] “Já trabalhei em posto de gasolina e almoxarifado. Depois fiquei em casa, cuidando dos filhos, e agora, resolvi voltar à ativa”, conta. Mãe de três filhos, um deles uma bebê de 2 meses, ela, que trabalha na DP World, conta que o apoio da família foi fundamental. “Fiquei grávida, mas não desisti. A empresa chamou e decidi não deixar passar essa oportunidade. O apoio integral da família foi o que deu um gás”, agradece.