“Estamos longe do potencial pleno do nosso mercado”, diz o diretor (Maurício Martins) O turismo de cruzeiros no Brasil ainda convive com desafios que limitam seu crescimento. É nesse cenário que atua João Tomaz, diretor-executivo da Associação Nacional de Terminais de Cruzeiros (Aterc), entidade que reúne os principais terminais de passageiros do País. Aos 51 anos, ele está há dois anos e meio à frente da associação, mas acumula mais de 15 anos de experiência no setor, onde atua desde 2010. Em entrevista para A Tribuna, Tomaz avalia que o mercado vive um momento de recuperação gradual após a pandemia, com demanda de passageiros e interesse das armadoras, mas ainda distante do potencial já alcançado em outras temporadas. O executivo destaca o papel estratégico do Porto de Santos como principal hub do País, mas defende avanços em infraestrutura, com mais berços dedicados e melhor integração urbana. Nesse contexto, considera que a transferência do terminal Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, para o Valongo pode abrir novas oportunidades econômicas e turísticas para a Cidade. Como a Aterc avalia o momento atual do setor de cruzeiros no Brasil? O setor de cruzeiros no Brasil, apesar de sempre sensível e digno de cuidados, vive um momento de retomada e reorganização após desafios, a exemplo da própria pandemia. Temos notado uma recuperação gradual da demanda por parte dos passageiros, além de um interesse contínuo das armadoras que já operam por aqui em manterem o Brasil como parte de seus itinerários na América do Sul. Para que esse volume de passageiros aumente, a Aterc faz a sua parte tentando contato com companhias no exterior, apresentando o trabalho e a estrutura dos seus associados (o Concais, em Santos, o Contermas, em Salvador, o Píer Mauá, no Rio de Janeiro, e o Termap, em Fortaleza). Com isso, buscamos atrair novas companhias e navios para o Brasil. Não é um trabalho fácil, tampouco rápido, mas é de fundamental importância, frente a competitividade de destinos internacionais. Como foram as últimas temporadas de cruzeiros no País em termos de movimentação de passageiros e escalas de navios? As últimas temporadas mostraram uma recuperação relevante em comparação com o período imediatamente posterior à pandemia. Ainda assim, estamos longe do potencial pleno do nosso mercado, que já chegou a ter um número significativamente maior de navios operando regularmente no País. O importante é que há demanda de passageiros. Talvez fosse interessante se tivéssemos um número maior de minicruzeiros, proporcionando, assim, um incremento na oferta de cabines durante as temporadas no Brasil. Quais são hoje os principais desafios para a expansão do turismo de cruzeiros no Brasil? Passam principalmente por questões de custos, de forma geral, regulação e segurança jurídica. O Brasil já perdeu companhias grandes que aqui operaram, como a Royal Caribbean, por exemplo, frente à insegurança jurídica. É mais difícil recuperar uma companhia que já operou por aqui do que buscar novas armadoras. De toda a forma, é importante continuarmos investindo e apostando no Brasil, motivo pelo qual o Concais segue avançando com o tema relativo à mudança de área do terminal no Porto de Santos. Além, claro, de todos os terminais associados seguirem investindo em melhorias contínuas. A infraestrutura portuária brasileira está preparada para receber mais navios e passageiros? O Brasil possui terminais de passageiros que operam com alto nível de eficiência e qualidade. No entanto, sempre há espaço para ampliar e modernizar parte da infraestrutura existente, especialmente em relação a berços dedicados para cruzeiros, acessos viários para áreas de embarque e desembarque e integração com a Cidade. O desenvolvimento dessa infraestrutura é fundamental para sustentar um crescimento mais consistente do setor, porém, também é necessário que os terminais arrendados tenham garantias de que mais navios virão para o Brasil. Realizar altos investimentos sem qualquer previsibilidade relacionada ao aumento no fluxo de operações é um ponto bem sensível a se debater. Apenas como exemplo, em recentes temporadas um de nossos associados, o Contermas, foi prejudicado pelo cancelamento de operações em Salvador. É esse tipo de imprevisibilidade que sempre preocupa, quando citados investimentos robustos. "Uma eventual mudança (do Concais para o Valongo) poderia abrir oportunidades para maior integração entre o terminal de passageiros e o ambiente urbano”, diz Tomaz (Maurício Martins/AT) Muitos especialistas apontam que o Brasil ainda tem poucos terminais dedicados a cruzeiros. Como a Aterc avalia essa estrutura? De fato, o número de terminais dedicados exclusivamente ao atendimento de passageiros de cruzeiros ainda é relativamente pequeno se comparado a mercados mais maduros. Terminais especializados permitem maior eficiência operacional, melhor experiência para o passageiro e maior capacidade de planejamento logístico. Por isso, a ampliação e modernização dessa rede de terminais é vista como um passo importante para fortalecer o setor no Brasil. Daí a relevância da já citada previsibilidade no aumento e recorrência no fluxo de operações. Mais navios, mais segurança para novos investimentos. O Porto de Santos concentra grande parte da operação de cruzeiros do País. Qual é a importância desse terminal para o setor? O Porto de Santos é, sem dúvida, o principal hub de cruzeiros do Brasil. Ele concentra a maior parte das operações de embarque e desembarque de passageiros, além de ter uma localização estratégica em relação ao maior mercado emissor de turistas do País, que é a região Sudeste. Essa posição faz com que Santos desempenhe um papel central na logística e na viabilidade econômica de muitas operações de cruzeiros no Brasil. Cabe ressaltar que o terminal do Rio de Janeiro (Píer Mauá) também tem um enorme potencial de ser um grande emissor de passageiros, já que desfruta de uma excelente estrutura com rápido acesso do Aeroporto Santos Dumont até o terminal de passageiros, além de ser um destino excepcional para os turistas. Não temos dúvidas de que o Rio de Janeiro tem excelentes condições de atender a demanda de passageiros oriundos do interior e outras localidades, e se tornar um terminal tão relevante quanto o de Santos. Há relatos de conflitos operacionais entre a movimentação de cargas e a operação de cruzeiros no Porto. Como esse problema afeta a atividade? Em alguns momentos, podem ocorrer desafios operacionais decorrentes da convivência entre diferentes tipos de operação dentro de um porto multipropósito. Por isso, é importante que haja planejamento adequado de berços e áreas dedicadas para cada tipo de atividade. Reforço a necessidade da previsibilidade e a organização dessas operações, justamente para garantir eficiência para ambos os segmentos, cargas e cruzeiros. Na avaliação da Aterc, a transferência do terminal de passageiros do Outeirinhos para o Valongo é necessária? Por quê? A discussão sobre a eventual transferência do terminal envolve diversos fatores técnicos, urbanísticos e operacionais. A região do Valongo possui potencial interessante do ponto de vista de integração urbana e desenvolvimento turístico, além da já citada questão de mais berços exclusivos, dedicados a navios de cruzeiros. Ao mesmo tempo, qualquer decisão precisa considerar aspectos operacionais do Porto, investimentos necessários e, principalmente, a garantia de continuidade das operações de cruzeiros. Quais seriam os principais ganhos dessa mudança para o Porto de Santos e para a Cidade? Uma eventual mudança poderia abrir oportunidades para maior integração entre o terminal de passageiros e o ambiente urbano, ampliando o impacto positivo do turismo de cruzeiros na economia local. Isso pode significar mais fluxo de visitantes, estímulo ao comércio, gastronomia, serviços turísticos e valorização da região histórica da Cidade. Já para o Porto, sem dúvida uma segregação correta nas operações com mais berços dedicados a cruzeiros facilitaria a logística de toda a cadeia operacional. Um novo terminal de cruzeiros em Santos poderia ampliar a capacidade de receber navios maiores e mais passageiros? Sim, o novo Concais tem um projeto ultramoderno, apto a receber três navios de passageiros simultaneamente, com infraestrutura de primeiro mundo, permitindo receber navios de maior porte e aumentar a eficiência do embarque e desembarque de passageiros, fator que pode também contribuir para melhorar a experiência do turista e tornar o destino mais competitivo internacionalmente. O que o Brasil precisa fazer para se tornar um destino mais competitivo no mercado internacional de cruzeiros? O Brasil tem um enorme potencial como destino de cruzeiros, com diversidade de paisagens, clima favorável e grande mercado consumidor. Para ampliar a competitividade é importante continuar avançando na redução de custos operacionais do navio, no aprimoramento regulatório, nas questões relacionadas à segurança jurídica e na promoção internacional do destino. Sobre este último ponto, inclusive, a Aterc vem investindo bastante no ótimo relacionamento com a Embratur, tendo seus terminais associados participando no estande do órgão no Seatrade Cruise Global, maior feira internacional voltada ao segmento de cruzeiros que acontece anualmente, em Miami (EUA). Quais são as perspectivas para as próximas temporadas? As perspectivas são sempre otimistas e, havendo mais previsibilidade, talvez o Brasil tenha condições de ampliar significativamente sua participação no mercado de cruzeiros da América do Sul, atraindo um número maior de navios e passageiros nas próximas temporadas. Seguimos trabalhando e acreditando fortemente nisso.