A ampliação da presença de outras armadoras (donas das frotas de navios) no Brasil, além das já tradicionais MSC e Costa, depende de fatores que vão muito além da demanda. O consultor portuário Ivam Jardim, da Agência Porto, entende que é uma questão de ambiente de negócios e estratégia comercial. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! “A decisão de uma armadora de entrar em um novo mercado normalmente vem acompanhada de um plano de negócio de longo prazo, e não de curto prazo. Por isso, atribuo muito mais essa cautela a uma percepção internacional de insegurança e complexidade do ambiente brasileiro do que a qualquer limitação do mercado de cruzeiros em si”, afirma. Jardim lembra que MSC e Costa são operadoras que atuam no Brasil há muitos anos e conhecem profundamente o mercado brasileiro. “Sem dúvida permanecem aqui porque possuem operações exitosas”, complementa. Turismóloga e especialista em planejamento estratégico do turismo, Selma Cabral explica que as armadoras avaliam custos operacionais, taxas portuárias, combustível, segurança jurídica, disponibilidade de infraestrutura e atratividade dos roteiros, deixando claro que a decisão não depende apenas da demanda. “Além disso, os navios competem globalmente por mercados. Ou seja, o mesmo navio que opera no Brasil pode operar no Caribe, Mediterrâneo ou Ásia”, completa. Apresentar ao mercado Ivam Jardim acredita que o principal ponto para fazer com que outras armadoras operem no País é desenvolver um trabalho institucional forte de apresentação do Brasil ao mercado internacional de cruzeiros. Segundo ele, ainda existe uma visão externa de que o Brasil é um ambiente difícil para operar e há necessidade de mudar essa percepção. “É necessário apresentar melhor os nossos destinos, os nossos terminais, a qualidade das operações e, principalmente, demonstrar que existe demanda consolidada. Hoje, os navios alocados em Santos, temporada após temporada, apresentam bons resultados. Além disso, há um crescimento de cruzeiros temáticos e de novas experiências que possuem espaço para expansão no País”, argumenta. O consultor diz ser fundamental dar previsibilidade regulatória e segurança jurídica para essas empresas, inclusive no que envolve legislação trabalhista e planejamento operacional de longo prazo. “O objetivo é fazer com que outras armadoras enxerguem o Brasil como uma unidade de negócio viável e rentável, assim como já acontece hoje com MSC e Costa”, afirma. MSC e Costa são operadoras que atuam no Brasil há muitos anos e conhecem profundamente o mercado brasileiro (Sílvio Luiz/AT) Regulação e Infraestrutura O presidente da Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista (APT), Eduardo Silveira, lembra que o calendário é feito pelas companhias com antecedência de dois a três anos, o que exige previsibilidade. “Além do lucro, há questões que envolvem regulação (regulamentos e regras) que aqui acabam sendo mais onerosas e burocráticas para as companhias, desde questões relacionadas ao recolhimento de impostos até a legislação trabalhista. Isso sem falar na questão da falta de previsibilidade de onde o navio vai parar. Essas são as questões básicas que precisamos ajustar”. No caso de Santos, Silveira acredita que o pontapé inicial está sendo desenhado com o futuro Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, sendo transferido de Outeirinhos para o Valongo. “Quando o Governo Federal, por meio da Autoridade Portuária de Santos (APS), dá esse passo, ele sinaliza que estamos seguindo no caminho de uma construção sólida para o setor de turismo. O próximo passo é o Ministério do Turismo atuar junto ao Governo e ao Congresso em relação às necessidades do segmento de cruzeiros marítimos e do turismo”, afirma. Corazul A vinda da companhia espanhola Corazul Cruzeiros para a temporada 2026/2027 causou alvoroço. Porém, a empresa, que pretende antecipar a estreia na temporada brasileira para setembro, ainda está com o navio Buenavista atracado na China. Nova no setor, a Corazul cancelou, em junho, toda a programação na Europa, onde iria começar suas operações. A companhia garante que não haverá problemas no Brasil e que, se não conseguir antecipar para setembro, atracará por aqui em novembro. Apesar dos acontecimentos, a turismóloga Selma Cabral vê a chegada da Corazul como um sinal positivo, mostrando que existe confiança no potencial do mercado brasileiro. “O desafio é transformar casos isolados em movimento permanente. Para isso, o País precisa oferecer estabilidade, infraestrutura e condições competitivas para novas operações”, recomenda. Por sua vez, Ivam Jardim acredita que outras armadoras internacionais estejam observando atentamente essa operação. “Caso ela seja bem-sucedida, isso naturalmente tende a estimular novos movimentos de mercado e a atração de outras empresas para o Brasil. Por isso, considero fundamental que o setor e os órgãos governamentais atuem de forma coordenada para apoiar essa iniciativa, criando um ambiente favorável para que a operação tenha sucesso e ajude a fortalecer ainda mais o mercado brasileiro de cruzeiros”, argumenta. Descontos A Autoridade Portuária de Santos (APS) informou, em nota, que ajuda as armadoras aplicando descontos progressivos para navios com mais escalas e passageiros durante as temporadas e que outras iniciativas não são de competência da empresa pública federal. “O turismo de cruzeiros, assim como qualquer empreendimento, necessita de um bom ambiente de negócios. A APS mantém canal direto constante com a Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil) para, no que lhe cabe, apoiar as iniciativas que fomentem o crescimento deste tipo de turismo”, emenda. Companhias explicam dificuldades para expansão Apesar da longa tradição na temporada brasileira de cruzeiros, MSC e Costa dizem que enfrentam problemas no País. O presidente executivo da Costa Cruzeiros para as Américas, Dario Rustico, afirma que o Brasil possui um enorme potencial turístico e é considerado um dos mercados mais relevantes para a companhia fora da Europa, porém ainda enfrenta questões que impactam a competitividade do setor. “Operar um navio na costa brasileira chega a ser até 50% mais caro do que nos mercados concorrentes do exterior, como o Caribe ou o Mediterrâneo. Esse custo elevado, somado a pesados gargalos estruturais, excesso de burocracia e a falta de investimentos em infraestrutura portuária adequada, limita severamente a nossa capacidade de expandir e intensificar as rotas”, afirma. A Costa terá dois navios na temporada 2026/2027: o Costa Diadema e o Costa Serena, realizando embarques em Santos, Rio de Janeiro e Itajaí (SC). Buscar soluções Em nota, a MSC destaca “os altos custos operacionais e a infraestrutura limitada” como desafios do País no mercado global de cruzeiros, embora argumente que a América do Sul continua sendo estratégica para a empresa, com destaque para o Brasil. “A MSC atua em conjunto com a Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil) e autoridades locais para buscar soluções que promovam um ambiente mais favorável e competitivo. O objetivo é criar melhores condições para o desenvolvimento contínuo e sustentável do setor na região. É fundamental avançar em aspectos como infraestrutura portuária, custos competitivos, previsibilidade regulatória e ampliação da oferta de destinos aptos a receber navios de grande porte”, comenta. A MSC contará com cinco navios regulares na América do Sul durante a temporada. Será a estreia do MSC Virtuosa, com itinerários de sete noites, com embarques em Santos e escalas em Búzios, Salvador e Maceió, além de minicruzeiros de três noites com escala em Búzios. Os outros serão o Seaview, Divina, Musica e o Splendida – este último não terá saídas de Santos. Prefeituras As prefeituras de Santos e Guarujá tentam fortalecer a estrutura turística das cidades para consolidar os destinos e atrair novas armadoras. Em nota, a Administração de Santos informa que “já vem desenvolvendo um trabalho permanente de promoção do destino, participando dos principais eventos internacionais do setor, com destaque para a Seatrade Cruise Global, principal evento mundial da indústria de cruzeiros, além das ações realizadas em parceria com a Clia Brasil e demais entidades ligadas ao turismo e ao segmento marítimo”. A mais recente edição da Seatrade Cruise Global foi realizada entre os dias 13 e 16 de abril neste ano, em Miami, nos Estados Unidos. Já a Prefeitura de Guarujá afirma que pode “apresentar um planejamento estratégico de atrativos, redução de tempo e custos para um melhor aproveitamento do destino”. Sobre a oferta turística existente, o Município acrescenta que conta com dois resorts, além de ampla rede gastronômica internacional. Concais Em nota, o Concais diz que tem infraestrutura, experiência operacional e equipes capacitadas para atender novas armadoras nas atuais instalações. Para o terminal, a disponibilidade de áreas adequadas para receber navios de diferentes portes, com segurança e eficiência operacional, é fundamental para aumentar a atratividade do destino. “O fato de os navios nem sempre conseguirem atracar diretamente em frente ao terminal é um dos fatores avaliados pelas armadoras”. Série Essa é a quarta reportagem de uma série de cinco matérias publicadas aos domingos sobre os caminhos para atrair mais cruzeiros ao Brasil. No último domingo, o tema foi o aumento de passageiros com o futuro aeroporto de Guarujá. No dia 9 de agosto, os problemas de mobilidade para chegar ao Concais. A primeira, em 2 de agosto, tratou das formas de facilitar a atracação dos navios de cruzeiros. No próximo domingo, a última reportagem abordará os projetos futuros para atrair mais cruzeiristas.