"Uma das grandes queixas do caminhoneiro é que ele fica à mercê de espaços sem a menor infraestrutura”, diz Rosemeire (Divulgação) Roseneide Fassina tem a Psicologia como parte de sua formação profissional. Também se dedicou à gestão de pessoal, passando até pela direção da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). Com a preocupação em sempre se atualizar por meio de cursos, passou a furar bolhas e ocupar espaços na carreira, como a recente chegada à presidência do Clube do Leme, um grupo que reúne profissionais do setor portuário, e do Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Litoral Paulista (Sindisan), o que ela considera desafiador. Confira a entrevista a seguir. Como é ser a primeira mulher presidente do Sindisan? É desafiador, porque, apesar de ter sido eleita e ter uma diretoria, quando você é vice-presidente (ela era) não está à frente totalmente. Eu já tinha meu trabalho bastante forte, inteirada dos assuntos ligados à nossa atividade. Mas estar na linha de frente te dá um outro posicionamento. Você fica muito no holofote e tem uma cobrança. Eu sinto essa cobrança maior porque, a todo momento, as pessoas ficam questionando se, de verdade, estou preparada mesmo para fazer a gestão de um sindicato com uma cultura ainda tão masculina. Entende que seria como um processo de fortalecimento da figura feminina frente ao sindicato? Comecei a mapear no litoral paulista quem são as mulheres líderes que estão no segmento do transporte. Há alguns movimentos de inclusão de mulheres como motorista de carreta, de empilhadeira etc. Mas, e as lideranças? Existem mulheres que estão há mais de 20 anos em cargos de liderança que nunca tinham ido a um sindicato. A mulher não se vê líder sindical. Enquanto isso, quando vai a um evento, vê subirem ao palco apenas homens. Quando tem, é uma apenas. Tenho essa consciência de que, muitas vezes, sou a única mulher nos espaços. Isso no começo me constrangia muito, mas o caminho é esse. Caso houvesse uma política de trazer as mulheres para posições de comando, muita coisa seria diferente na cadeia logística? O ser humano precisa de um modelo. Como a mulher não se vê lá, não entende que ela tem essa possibilidade. Eu sempre penso que quando eu estou nesse lugar de destaque, outras mulheres estão me olhando. Costumo dizer que existe uma lacuna de autoridade. A mulher pode estar em certos cargos, mas ela sempre precisa do apoio de alguma figura masculina para poder estar onde está. Se você olhar na questão portuária, temos vários terminais em Santos, mas nenhuma mulher como CEO. Como o sindicato atua atualmente? Quais são as principais bandeiras? Se fosse listar três problemas principais do setor, quais seriam? Na semana passada, estive em uma audiência pública na Comissão de Infraestrutura do Senado, discutindo aspectos da Lei do Motorista (13.103/2015), onde alguns pontos foram declarados como inconstitucionais pelo (ministro do STF) Alexandre de Moraes. A ideia é chegar a um acordo que possa favorecer tanto o empregador quanto o empregado. Hoje, ela prejudica os dois lados. Um segundo ponto importantíssimo é sobre os acessos, tanto nas perimetrais para chegar até os terminais portuários, quanto o acesso principal, que é uma segunda via de descida da Imigrantes. São pautas que, além de impactarem fortemente o transportador de carga e todos os outros modais, são urgentes, porque já estão ultrapassadas. Se demorar uns seis a dez anos a ficar pronta, já vai estar defasada — e muito — porque os volumes de carga só têm aumentado. Roseneide Fassina: "As pessoas ficam questionando se, de verdade, estou preparada mesmo para fazer a gestão de um sindicato com uma cultura ainda tão masculina” (Divulgação) É importante, mas já nasce obsoleto, é isso? A gente tem que estar o tempo todo discutindo e fazendo com que os intervenientes, as entidades que estão discutindo isso, achem a melhor solução para atender a todos. Porque, se não participa, a coisa é feita e nós não opinamos, tem que aceitar aquilo que foi imposto. Essa discussão é muito rica. E outro papel do sindicato é a convenção coletiva, fazer com que essa interlocução junto ao sindicato laboral também possa trazer melhorias para o nosso setor — mas de forma sustentável. Ou seja, que fique bom para empregador e empregado. Que projetos a senhora já conseguiu colocar em prática desde janeiro e o que planeja fazer à frente do sindicato até 2027? Comecei a criar grupos temáticos para discutir todos os assuntos. Tenho feito um trabalho de chamar o associado que, em alguns casos, fica só reclamando do que acontece, mas não vai para a discussão principal. A gente precisa ouvir todos para fazer uma representação democrática. O que desejo, até o final do mandato, é ter feito esse diálogo com todos os intervenientes. A gente tem muitos problemas com os terminais portuários. A cadeia logística precisa conversar. O sindicato rodoviário de cargas tem que colocar o empresário como protagonista, porque os outros modais sempre dão a impressão a quem vê de fora que são mais importantes que o rodoviário de carga. Todos são importantes. O rodoviário é visto como uma espécie de vilão? Somos até responsáveis por isso: é uma atividade ainda muito poluente e não tem feito a lição de casa para resolver isso. Hoje, existe um programa chamado Despoluir, o maior feito na questão de emissão de fumaça preta. Há um carro que vai com o técnico fazer teste de opacidade da fumaça dos caminhões. A ideia é só termos caminhões rodando dentro de critérios aceitáveis, senão são reprovados. E a gente já está implementando nas empresas associadas — inclusive o associado tem esse serviço a custo zero. Voltando aos acessos ao porto, especialmente quanto aos caminhões parados na safra. Se fosse incumbida de formatar uma solução, qual seria? Primeiro, os agendamentos têm que estar funcionando mesmo, porque muitas empresas têm agendamento, mas atendem como o necessário. Essa conversa entre embarcador, as janelas dos terminais portuários e os retroportuários que estão recebendo essa carga, têm que estar em sintonia. Segundo: a gente precisa ter estacionamentos para deixar esses caminhões, para não ficarem estacionados em lugares que não são permitidos, causando o caos que muitas vezes a gente tem em Santos. Então, todos têm que estar fazendo a sua parte para que isso aconteça. Nós precisamos ter condições de receber os caminhões. Com relação ao futuro leilão do Tecon Santos 10, que vai trazer um aumento significativo no número de caminhões, como avalia essa situação? Somos apoiadores de que aconteça mesmo, mas desde que tudo que está sendo prometido pelos acessos seja cumprido primeiro. Há uma questão de fluxo. Eu tenho conversado muito com o presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, e ele tem todos esses projetos no cronograma. Uma das pautas que a gente tem falado muito é essa questão dos caminhões, para eles terem os espaços de estacionamento e os acessos, para que quando esse terminal começar a funcionar, todo esse fluxo aconteça de uma maneira tranquila, sem impactar a cidade. Outro gargalo está na questão da Alemoa: ruas esburacadas, trânsito complicado, fatores que atrapalham a logística. Uma das grandes queixas, principalmente do caminhoneiro, é que ele fica à mercê de espaços sem a menor infraestrutura. A Lei do Motorista existe há cinco anos e os locais onde os motoristas têm que fazer suas paradas para descanso não foram implementados. E o empregador paga horas extras indevidas, que a lei não permite, e o caminhão tem que ficar em espaços que as empresas têm que pagar para o caminhoneiro ficar. Também existe uma situação com os caminhões em Guarujá, com ações pontuais da Prefeitura, da APS e perspectiva de obras. Como que o sindicato vem atuando nessa questão? Tenho uma agenda, a pedido dos sindicatos dos caminhoneiros autônomos do Guarujá, que querem fazer uma proposta para unir forças. Sou totalmente aberta a esse tipo de diálogo. Quero chegar no final (da gestão) dialogando com todos os intervenientes para que a gente possa resolver. Marquei para o dia 15, porque eles também estão se sentindo bastante desprestigiados em relação aos terminais portuários, pois impõem janelas que muitas vezes não são exequíveis.