Trânsito aquaviário é monitorado em tempo real por um centro de operações com tecnologia de ponta (Alexsander Ferraz) Manobrar um navio no Porto de Santos requer alta qualificação, experiência e muito amor. É o que afirmam os práticos, que nesta quinta (27) comemoram o Dia da Praticagem e da criação da Associação dos Práticos da Barra e Canal do Porto de Santos, que completa 91 anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A data comemorativa foi oficializada pelo Decreto-lei 3.294/2016, da Prefeitura de Santos, em alusão à criação da associação, em 27 de junho de 1933. A entidade foi instituída pelo então ministro dos Negócios da Marinha, almirante Protógenes Pereira Guimarães. As atividades começaram 2 de novembro daquele ano. Atualmente, a Praticagem de São Paulo, que corresponde à Zona de Praticagem (ZP) 16, entre as 22 existentes no Brasil, atende aos portos de Santos e São Sebastião e ao Terminal Aquaviário de São Sebastião (Tebar), da Petrobras. São 60 práticos associados e uma frota de 20 lanchas. A função do prático começa quando ele sobe a escada lateral do navio e passa à cabine de comando, assessorando o comandante para conduzir a embarcação no trecho mais perigoso de uma viagem, como o canal de um porto, ou seja, em águas restritas, quando o risco de acidente é potencial. O trânsito aquaviário é monitorado em tempo real pelo Centro de Coordenação, Comunicações e Operações de Tráfego (C3OT), equipado com tecnologia de ponta e operadores qualificados e experientes para realizar as manobras de embarque e desembarque nos navios com segurança, colaborando para a preservação da embarcação, da carga, da tripulação, das pessoas e do meio ambiente nas imediações das instalações portuárias. “Santos é um porto de alta dificuldade, porque ele é sinuoso, muito estreito e com tráfego muito intenso de embarcações miúdas, como ferry boat, barco de lazer, canoa havaiana, além do cruzamento de navios. As nossas operações são 24 horas, não tem nenhuma manobra que a gente faça de dia que não faça à noite”, diz o diretor institucional da Praticagem de São Paulo, Carlos Alberto de Souza Filho, 62 anos. Da lancha, o prático sobe a escada do navio para ir ao comando (Vanessa Rodrigues/Arquivo) Ao invés de lançar suas âncoras após 30 anos de serviços prestados à Marinha do Brasil, Souza Filho, oficial da reserva, decidiu se tornar um prático. Natural do Rio de Janeiro (RJ), ele se inscreveu no processo seletivo para ingressar na Praticagem de São Paulo realizado em 2008 e conta que a escolha da profissão vem do coração. “Ela só serve para quem tem amor aos navios, porque senão é muito sofrido: é estresse, atenção e responsabilidade o tempo todo. A gente lida com esses monstros enormes em locais estreitos, em águas restritas, com as condições marginais de segurança, sempre no limiar de um acidente. Eu sempre fui apaixonado por navios e a profissão me proporciona continuar embarcando nos navios e conversando com pessoas de todas as nacionalidades”. Ele explica que os práticos fazem escalas de 48 horas por 72 horas de descanso, mas em cada escala o limite de horas trabalhadas é de 12 horas. Os práticos não têm aposentadoria, pois não são funcionários. “A Praticagem de São Paulo, embora preste serviços de interesse público nos portos, é uma empresa privada”, esclarece. O vice-presidente da Praticagem de São Paulo, Bruno Roquete Tavares, de 46 anos, foi um dos práticos a manobrar o MSC Natasha XIII, de bandeira liberiana, em 1º de fevereiro deste ano. Maior embarcação a navegar pela costa brasileira, o porta-contêineres escreveu um novo capítulo na história do Porto de Santos, consolidando uma nova era: a das escalas de navios da classe New Panamax. Com 366 metros de comprimento por 48,2 metros de largura e capacidade para 14,4 mil TEU (medida do contêiner padrão de 20 pés), ele encheu os olhos de quem o viu atravessar as águas santistas, na Ponta da Praia, atracando em segurança no cais da Brasil Terminal Portuário (BTP), na Margem Direita. O MSC Natasha XIII zarpou na manhã seguinte com destino à Ásia. “Eu participei dessa manobra junto com outros dois práticos. A gente conseguiu fechar com chave de ouro. Foi uma das manobras mais tranquilas, porque a gente estava preparado. O sentimento foi de conquista, um prazer imenso em poder estar justificando tudo aquilo que eu aprendi, de poder entregar segurança e qualidade de serviço”, declara. Tavares, que é marítimo e oficial da Marinha Mercante por formação, diz que ser prático é conquistar o mais alto grau profissional que já almejou. “Eu faço o meu trabalho com muito amor. Ser prático para mim é chegar ao topo da minha profissão, da minha carreira”. Quem é O prático divide a responsabilidade da manobra com o comandante do navio. É um profissional conhecedor local das peculiaridades daquele porto: vento, corrente, profundidades. Ele sabe onde pode passar com aquele navio. Enquanto o comandante do navio, é treinado para navegar em mar aberto, o prático manobra navios em regiões restritas, com perigos e uma geografia completamente diferente. Fábio Mello Fontes tem 85 anos e uma paixão sem fim pela profissão (Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Com a palavra, o profissional mais antigo em atividade Fascinado por navios desde menino, o presidente da Praticagem de São Paulo, Fábio Mello Fontes, de 85 anos, fez da paixão uma profissão. Neste ano, ele completou 55 anos atuando como prático - é o mais antigo em atividade no Brasil. Fontes conta que chegou à Praticagem em janeiro de 1969. “Vi muitos gigantes dos mares lançarem suas âncoras e amarras no cais. Lembro o impacto visual que causou a entrada do Queen Elizabeth 2, com seus 294 metros de comprimento. O majestoso navio de passageiros atraiu o interesse de centenas de curiosos que se aglomeravam na região do Armazém 32 para contemplar a luxuosa embarcação”, comenta. Ele diz que todo dia aprende algo novo. Cada manobra é diferente, não há uma igual a outra. “Já passei por alguns quase acidentes, mas graças a Deus deu tudo certo. Eu gosto das manobras mais difíceis, é como o trabalho dos arquitetos que vai sendo aperfeiçoado. Minha profissão é fascinante”, relata ele, que em abril deste ano caiu no mar quando subia a escada de um navio. Os ferimentos foram leves e ele seguiu o trabalho. Fontes diz que o segredo para exercer essa profissão é estar bem-preparado e gostar do que faz. “Quando eu peguei meu primeiro radinho, me senti no paraíso. Testemunhei a evolução desse Porto de Santos, dos navios, da tecnologia. Quando eu comecei, eram navios de 49 metros (comprimento) no máximo, hoje já manobramos os de 366 metros”. Ele conta que o bom humor ajuda muito na profissão. “Diariamente estamos em contato com comandantes estrangeiros, de culturas, hábitos e línguas diferentes. No início, eu sinto que estão tensos e conto uma história, brinco, gosto muito de conversar. Logo viram amigos. A vida me ensinou que não basta ao prático ser experiente, é preciso se antecipar aos problemas e aumentar sempre a margem de segurança. Há riscos inerentes e o prático que está na manobra tem que pensar que há inúmeras variáveis que podem facilitar ou complicar o trabalho”. Contudo, Fontes ressalta que a atracação de navios de 366 metros no Porto de Santos continua sendo um desafio. “Os terminais se modernizaram, mas a geografia do Porto é a mesma. Isso nos obriga a um jogo de xadrez para coordenar as posições de entrada, cruzamentos e saídas para otimizar e agilizar o resultado. O aprofundamento do canal é urgente e necessário para otimizar as operações”.