O navio foi abastecido com etanol na Margem Esquerda do cais santista (Vanessa Rodrigues/AT) O navio porta-contêineres CMA CGM Iron foi abastecido com etanol no Porto de Santos em uma operação inédita no Brasil. O abastecimento ocorreu no domingo (12), no Tecon Santos, da Santos Brasil, em Guarujá. A embarcação recebeu 500 toneladas, equivalentes a 635 mil litros do combustível renovável, volume suficiente para abastecer apenas um dos tanques. Uma cerimônia, nesta segunda-feira (13), no terminal, detalhou a operação. Entregue em 2025, o CMA CGM Iron tem capacidade para transportar 13 mil TEU (unidade de medida equivalente a um contêiner de 20 pés) e é o primeiro navio de uma série de 12 embarcações equipadas com o inédito motor tricombustível certificado para operar com etanol. O combustível foi fornecido pela Copersucar. O presidente da empresa, Tomás Manzano, explicou que é do mesmo tipo usado em automóveis. “Na mesma especificação do etanol anidro utilizado hoje no Brasil para mistura na gasolina. A motorização do navio foi desenvolvida inicialmente para operar com metanol, mas uma série de testes demonstrou que o etanol também é eficiente nessa motorização”, afirmou. Segundo Manzano, a utilização do etanol, comparada com o combustível fóssil de navegação, reduz em cerca de 70% as emissões. O CMA CGM Iron deixará hoje o Porto de Santos com destino a Paranaguá (PR) e, de lá, seguirá para o Sri Lanka, no sul da Ásia. A CEO da CMA CGM Brasil, Neusa Marcelino, afirmou que somente após a conclusão dessa primeira viagem será possível avaliar a eficiência energética do etanol e decidir sobre sua utilização em outras embarcações da armadora. “Ainda é precoce dizer quantos dos nossos navios vão consumir etanol”. O projeto foi desenvolvido ao longo dos últimos dois anos. Envolve uma parceria de diversos agentes da cadeia para trazer o etanol até o Porto e viabilizar o abastecimento do navio. Segundo o diretor de Operações da Bunker One no Brasil, Daniel Caldas, o abastecimento do CMA CGM Iron exigiu adaptações em uma barcaça originalmente utilizada para o fornecimento de diesel marítimo. “Foram instalados equipamentos seguros, mangotes específicos, realizado um treinamento intensivo da tripulação e elaborado um plano de emergência voltado ao risco de incêndio. O etanol tem um ponto de fulgor mais baixo, ou seja, entra em ignição mais facilmente que o diesel marítimo. Por isso, nosso foco foi a segurança operacional”, destacou. Caldas informou que o fornecimento de 500 toneladas de etanol para um dos tanques do navio durou entre cinco e seis horas e ressaltou uma vantagem ambiental do biocombustível. “Se houver um vazamento, o etanol evapora rapidamente e não causa impacto no corpo hídrico como um combustível derivado do petróleo. Isso muda o foco do combate à emergência”. CMA CGM Iron foi abastecido com etanol no terminal da Santos Brasil, na Margem Esquerda do cais santista (Vanessa Rodrigues/AT) Mercado potencial Para Tomás Manzano, a operação representa apenas o início da utilização do biocombustível na navegação internacional. “A partir de agora, o desafio é desenvolver corredores verdes de abastecimento para que os navios possam utilizar etanol a partir do Brasil e, também, de outras localizações estratégicas”. Ele destacou que o mercado tem potencial expressivo. “O consumo global de combustível de navegação é bastante representativo. Se 10% desse combustível for substituído por etanol, estamos falando de um volume em torno de 50 bilhões de litros de etanol. Hoje, o Brasil produz 37 bilhões de litros de etanol. Então, é uma oportunidade muito grande para esse mercado”. Presente à cerimônia, a secretária-executiva adjunta do Ministério de Portos e Aeroportos, Luíza Amorim Motta, classificou a operação como um marco para a logística brasileira e afirmou que a iniciativa posiciona o País na vanguarda da transição energética do transporte marítimo. Sustentável O diretor-presidente da Santos Brasil, Antônio Carlos Sepúlveda, afirmou que sediar o primeiro abastecimento de um navio com bioetanol reforça o protagonismo do Tecon Santos na inovação portuária e na transição energética da navegação. “A Santos Brasil nasceu para transformar a operação portuária e continua fazendo parte dessa história. Agora, também estamos participando da transformação da matriz energética do transporte marítimo”. Ele disse que a iniciativa fortalece o papel do Porto de Santos como “futuro hub de abastecimento de combustíveis de baixo carbono”.