Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) faz alerta sobre o Porto de Santos (Vanessa Rodrigues/AT) Apesar de manter a condição de principal exportador de café do Brasil, o Porto de Santos apresenta claros sinais de esgotamento e clama por investimentos em infraestrutura. É o alerta do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), que apresentou nesta quarta-feira (10) seu relatório estatístico mensal sobre o produto. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Santos sempre se destacou nessa condição de liderança, mas em 2023 e, inclusive, durante meses desse ano, vem cada vez mais caindo seu percentual”, afirmou o diretor do Cecafé, Eduardo Heron. No ano safra 2023/24 (que terminou no mês passado), houve o embarque de 32.607 milhões de sacas no complexo portuário santista, o que corresponde a 68,9% de todo o volume comercializado. Trata-se do menor percentual de representatividade do Porto de Santos na história - que já chegou a 85%. “O mais curioso é que Santos não está perdendo cargas para portos com melhor infraestrutura. É porque o Porto está travado, a um custo elevadíssimo, não se consegue consolidar embarque e, para fugir das despesas portuárias, o exportador vai buscando alternativas para reduzir o impacto financeiro”, argumenta Heron. Conforme números do Boletim Detention Zero (DTZ), elaborado pela ElloX Digital em parceria com o Cecafé, 254 navios destinados à exportação de café sofreram atrasos ou alterações de escala nos portos brasileiros em junho, número que representou 62% dos 413 porta-contêineres movimentados no mês passado. Somente em Santos, foram 118 embarcações que tiveram algum tipo de atraso no processo de embarque - ou 82% do total. “As cargas vêm do interior de Minas Gerais e do Espírito Santo, por exemplo, para embarcar em Santos. Elas chegam nos terminais e são impedidas de entrar porque os pátios estão cheios. Com isso, o exportador tem adicional de custo, o que atrapalha o fluxo financeiro de qualquer empresa. O agro, que vem crescendo ao longo dos anos, não pode ficar a mercê de custos elevadíssimos”, detalha o diretor do Cecafé. Outras cargas e infraestrutura Depois de Santos, aparece o Rio de Janeiro, que ampliou sua participação para 28,1% (somando a capital e Itaguaí-Sepetiba), refletindo a absorção das fugas de carga de Santos, ao remeter 13,269 milhões de sacas ao exterior na temporada 2023/24. Já o Porto de Paranaguá, no Paraná, entra na lista com o embarque de 465.770 sacas e representatividade de 1%. “Enquanto Santos encolheu 10%, o Rio aumentou 10%. As alternativas já ficam claras, mas no Rio também existem desafios. Ele está se destacando, mas imaginem somado a outras cargas. Vamos ter colapso nos outros portos. O problema de infraestrutura não é só em Santos. É nos portos brasileiros”, projeta Heron. O diretor do Cecafé observa que o desafio logístico para o segundo semestre - quando existe aumento de embarque de cargas em contêineres - não se refere apenas à exportação de café, mas também a outras como açúcar e algodão. “Precisamos da sensibilidade por parte das autoridades que invistam com urgência nos projetos ativos em curso, principalmente em Santos, como o STS10 (terminal no Valongo cuja formatação não está definida). A continuar esse cenário, posso garantir que vamos morrer e nenhuma daquelas embarcações acima de 14 mil TEU (unidade de medida de um contêiner) vão chegar como se deve ao Porto de Santos”, afirma Heron. Exportação do grão cresce 32% e atinge volume recorde A exportação brasileira de café alcançou o volume histórico recorde de 47.300 milhões de sacas de 60 kg no ano safra 2023/24, o que implica alta de 32,7% na comparação com os 35.632 milhões apurados de julho de 2022 a junho de 2023. O montante atual, embarcado para 120 países, também representa crescimento de 3,6% sobre o recorde anterior, de 45.675 milhões de sacas no ciclo 2020/21. Os dados também fazem parte do relatório estatístico mensal do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). “Do lado bom, o Brasil, com uma safra melhor, após dois ciclos de colheita menor, ampliou seu market share (parcela de mercado) no comércio global, ocupando espaços deixados por oferta reduzida de outros produtores, como Indonésia e Vietnã”, afirma o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira. O esgotamento no Porto de Santos também foi lembrado pelo presidente da entidade. “Por outro lado, seguimos nos deparando com intensos gargalos logísticos, com problemas no exterior devido à permanência de conflitos geopolíticos e, internamente, com o esgotamento do principal porto brasileiro, em Santos, o que tem gerado altos custos adicionais e imprevistos aos operadores, os quais, ainda assim, desdobram-se para honrar os compromissos com os clientes internacionais e manter o Brasil como principal player (grupo) global”, analisa.