Sistema digital compartilhado proporciona o acompanhamento das atividades portuárias em tempo real no Porto de São Sebastião. Empresas privadas, operadores e órgãos públicos podem se cadastrar voluntariamente e inserir suas informações operacionais. (Semil/Divulgação) O Porto de São Sebastião, no Litoral Norte, é o primeiro ativo portuário do País a contar com o Port Community System (PCS). A plataforma digital foi implementada pela Companhia Docas de São Sebastião (CDSS) em 14 de agosto com a finalidade de proporcionar mais agilidade, eficiência, transparência e redução de custos à cadeia logística. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Trata-se de um sistema digital compartilhado que proporciona o acompanhamento das atividades portuárias em tempo real. Empresas privadas, operadores e órgãos públicos podem se cadastrar voluntariamente e inserir suas informações operacionais, bem como acompanhar as atividades dos demais agentes da cadeia logística. “O PCS é um dos módulos que compõem o ecossistema portuário informatizado, funcionando como uma camada digital de dados e serviços compartilhados com toda a comunidade portuária”, informa a CDSS, que é comandada pelo Governo do Estado. A Companhia informou ainda que parte dos investimentos contabilizados foi realizada anteriormente à implantação do PCS, em sistemas e soluções digitais que já estavam em operação e foram posteriormente integrados e consolidados na plataforma. “Até o momento, não incluindo sistemas anteriores, foram investidos R\$ 400 mil no aprimoramento do ecossistema portuário”. O presidente da CDSS, Ernesto Sampaio, afirmou que o sistema não tem custo para os usuários e que será aperfeiçoado gradativamente. A plataforma já reúne 50 empresas usuárias, com 47 usuários cadastrados. “O Port Community System começou a ser desenvolvido há cerca de três anos e é um ambiente comunitário, de adesão voluntária da comunidade portuária e outros atores públicos e privados que manifestem interesse em ter acesso às informações que tramitam ou que existem dentro de um ambiente portuário”, explicou Sampaio. De acordo com o gestor portuário, a proposta é organizar e compartilhar informações que antes ficavam restritas à autoridade portuária ou eram obtidas de maneira descentralizada. “Essas informações normalmente estavam restritas à autoridade portuária. O que o Port Community System faz é organizá-las por meio da digitalização e da informatização. Isso permite que toda a comunidade possa usufruir dessas informações”, afirmou. Na prática, o sistema pode proporcionar a redução de etapas manuais, troca de documentos físicos, além de dar mais previsibilidade ao fluxo de cargas. Entre os recursos disponíveis estão o acompanhamento de exigências regulatórias, controle de pendências documentais, monitoramento da movimentação terrestre de cargas, gestão de acessos e agendamentos, além de indicadores operacionais e de custos. Construção coletiva Sampaio comentou que o desenvolvimento do PCS começou pela discussão com a comunidade. “A Companhia Docas realizou dezenas de reuniões com representantes da comunidade portuária para identificar as principais demandas e definir quais informações deveriam ser compartilhadas. Participaram das discussões equipes de operações, Guarda Portuária e Tecnologia da Informação, além de representantes dos diferentes segmentos envolvidos nas atividades do Porto”. A partir desse levantamento, diz ele, foram identificadas informações já produzidas pelo sistema de gestão portuária que poderiam ser disponibilizadas aos demais usuários, respeitando dados de caráter interno e informações protegidas por sigilo comercial. O diretor-presidente da CDSS ressaltou, no entanto, que o PCS não é uma solução pronta adquirida no mercado. “Ele é desenvolvido com a comunidade portuária. Um organismo vivo. À medida em que a comunidade portuária for identificando novas necessidades, novas funcionalidades, oportunidades de melhoria, ela vai apresentar para o conselho consultivo e a gente aqui dentro da autoridade portuária vai avaliar a possibilidade de implementar”, frisou. Sampaio disse que informações comerciais serão preservadas quando houver pedido ou necessidade de sigilo empresarial. Informações em tempo real O presidente da CDSS, Ernesto Sampaio, disse que a ferramenta permite que diferentes agentes se antecipem às próximas etapas da operação. “A previsão de término do atendimento de um navio, por exemplo, pode auxiliar o próximo operador a organizar sua equipe, enquanto agentes marítimos podem acompanhar informações sobre atracação e desatracação para coordenar serviços com a Praticagem e empresas de rebocadores. São informações úteis não só para a operação que está em andamento, mas para as futuras movimentações também”, afirmou. O gestor do Porto de São Sebastião destacou ainda que as comunicações que antes poderiam ocorrer por telefone, e-mail ou aplicativos de mensagens passam a ter um ambiente comum de consulta. “Você está substituindo tudo isso por uma única plataforma comum de acesso à informação única, não haverá uma diferença de informação”. Sampaio disse também que o sistema é integrado ao Porto Sem Papel, do Governo Federal, o que permitirá ao usuário consultar informações dos dois ambientes por meio do PCS, reduzindo a necessidade de acessar diferentes sistemas. No cais santista, programa foi encerrado Em 2023, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) escolheu os portos de Santos, Itajaí (SC), Suape (PE) e Rio de Janeiro (RJ) para participar de um projeto piloto de implantação do PCS, apoiado pelo Governo britânico. O projeto, desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP) por meio do Instituto de Tecnologia de Software e Serviços (ITS), contaria com financiamento do Reino Unido. A plataforma era uma das prioridades na agenda de modernização dos portos públicos para o ministério na época. O presidente-executivo da Abtra, Angelino Caputo, lembrou que as discussões para a implantação da plataforma no Brasil iniciaram por volta de 2018, “na esteira das iniciativas para a implantação do Acordo Mundial de Facilitação do Comércio, definido pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2013”. Caputo disse que o projeto seria financiado pelo Prosperity Fund UK, do Reino Unido, a fundo perdido, mas sofreu restrições em função da redução dos recursos inicialmente previstos. “O projeto chegou a mapear processos e prever um piloto em Santos, mas foi interrompido durante a pandemia. A economia inglesa começou a ter problemas e aquele dinheiro, cerca de 5 milhões de libras, foi minguando ao ponto de o projeto ser encerrado”, comentou. Perguntado se o custo-benefício seria a principal barreira à implementação do PCS nos portos brasileiros, Caputo disse que não. “Um levantamento feito no exterior apontou que para cada dólar aplicado no PCS há um retorno de US\$ 17 dólares de lucro. Então, não se trata nem de custo-benefício, é só benefício. Tem um custo pequeno e um benefício gigante”, afirmou. Sem projeto Procurada pela Reportagem, a Autoridade Portuária de Santos (APS) informou que, atualmente, não tem projeto para implantação do PCS. “O estudo para implantação de programa com o mesmo nome deixou de ser debatido em 2021”. Sistema amplia eficiência, avalia associação O presidente-executivo da Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados (Abtra), Angelino Caputo, afirmou que o Port Community System (PCS), adotado na Europa há cerca de 40 anos, proporciona agilidade e eficiência operacional para toda a cadeia produtiva do setor portuário, com reflexos na competitividade. “O Port Community System é uma plataforma de integração entre os atores da comunidade portuária. A tecnologia não substitui os sistemas utilizados individualmente por terminais, autoridades, praticagem, despachantes e demais prestadores de serviços, mas cria uma conexão entre eles”, afirmou. Caputo compara o PCS a um “varal neutro” no qual os sistemas de diferentes integrantes da cadeia podem trocar informações. Na prática, isso permite, por exemplo, que dados sobre a chegada e operação de um navio sejam compartilhados automaticamente com os agentes que precisam dessas informações para organizar seus próprios serviços. “Quando eu boto o ‘varal’ ligando esses caras, um sistema fala com outro sistema. Então, eu garanto agilidade, tempo real, segurança, proteção de sigilo comercial, evita até erro de digitação”, disse o presidente-executivo da Abtra. Para o executivo, o impacto se estende à competitividade dos portos e à redução do chamado Custo Brasil. “O objetivo do PCS não é o governo controlar o privado, e sim trocar informação para agilizar o fluxo logístico”, pontuou. Caputo afirmou que cada porto tem o seu sistema junto à comunidade portuária, mas que São Sebastião é o único porto no Brasil a ter um PCS desenvolvido dentro dos padrões reconhecidos pela Associação Internacional de Sistemas de Comunidade Portuária (International Port Community Systems Association, IPCSA).