O Porto de São Sebastião possui flexibilidade de acesso marítimo e uma profundidade natural que varia de 18 a 25 metros no canal aquaviário (Divulgação) O Porto de São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, alcançou uma movimentação média anual de 1,5 milhão de toneladas e deverá eliminar totalmente o tráfego de caminhões de carga de áreas urbanas. Com os investimentos recentes em infraestrutura nos acessos terrestres e projeção para começar a movimentar contêineres em cinco anos, o segundo complexo portuário paulista desponta como modelo de eficiência operacional. Trata-se de um porto público delegado pelo Governo Federal ao Estado. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Em 2024 e 2025, a movimentação de cargas superou em mais de 50% a média anual registrada até 2023 em São Sebastião. No biênio, foram 2,96 milhões de toneladas movimentadas — 1,53 milhão em 2024 e 1,44 milhão em 2025 — patamar superior ao de qualquer período equivalente nos quatro anos anteriores. Para o diretor-presidente da Companhia Docas de São Sebastião (CDSS), Ernesto Sampaio, o desempenho consolida o porto em um novo nível operacional. “A gente, de fato, atingiu um novo patamar de movimentação”, comentou. De acordo com o gestor portuário, açúcar e gado vivo puxaram os resultados. O açúcar a granel tornou-se protagonista na pauta de exportações após a assinatura de contrato de uso temporário (permitindo uma empresa usar a área do porto por um período curto) no fim de 2024. “Em 2025, movimentamos cerca de 473,9 mil toneladas de açúcar. Um terço da nossa movimentação total é de açúcar a granel”, afirmou Sampaio, ressaltando que, em janeiro, o produto representou 59% da carga movimentada. Outro destaque é o embarque de gado bovino vivo. Apenas três portos brasileiros operam esse tipo de carga no Brasil: Rio Grande (RS), Vila do Conde (PA) e São Sebastião. “Em 2025, tivemos um aumento de 28% na movimentação de carga viva em relação a 2024. A preferência internacional por animais criados na Região Sudeste impulsiona a demanda”, frisou. Novo acesso Sampaio celebra a eficiência logística com a entrega do Contorno Sul da Rodovia dos Tamoios, no final de 2024. “Hoje, já temos um acesso direto ao Porto permitindo que o caminhão não acesse o Centro da cidade. Um segundo acesso exclusivo para veículos de carga está em fase final de obras”. Com investimento de R\$ 51,1 milhões, a nova estrutura viária proporcionará o acesso direto de caminhões ao porto, sem passagem pelo Centro da cidade, fazendo a ligação direta com os contornos das cidades de São Sebastião e Caraguatatuba. Sampaio enfatizou o ganho ambiental obtido com essa medida. “Uma operação rápida e fluida traz conforto ao caminhoneiro e significa menos gases poluentes na atmosfera”. Pátios de triagem O presidente da CDSS mencionou ainda os dois pátios de triagem que já estão funcionando desde meados do ano passado em Caraguatatuba. “Atualmente, todos os caminhões que acessam o porto para deixar mercadorias destinadas à exportação são obrigados a passar por um dos pátios antes de seguir viagem. O sistema opera de forma eficiente, minimizando os impactos no trânsito da cidade e trazendo mais organização logística”. Beneficiado geograficamente, o Porto de São Sebastião possui flexibilidade de acesso marítimo pela Barra Norte e Barra Sul e uma profundidade natural que varia de 18 a 25 metros no canal aquaviário, podendo atingir 42 metros em alguns pontos, reduzindo a necessidade de dragagens. “Quando a gente elimina essa incerteza da dragagem de manutenção, valoriza bastante qualquer tipo de operação realizada aqui”. Multipropósito Com o arrendamento do futuro terminal multipropósito SSB01, cujo leilão está previsto para o final deste ano, São Sebastião passará a movimentar contêineres. Em sua capacidade máxima, o terminal irá operar 1,35 milhão de TEU (medida de contêiner padrão de 20 pés) e 3,45 milhões de toneladas de granéis sólidos ao ano. “O investimento previsto é de R\$ 3,8 bilhões, sendo R\$ 2,5 bilhões na primeira fase e mais R\$ 1,3 bilhão ao longo dos 35 anos de contrato. Esse arrendamento trará investimentos para construção de novos berços de atracação e atenderá uma demanda que já está reprimida”, disse Sampaio, comentando ainda que “o leilão está previsto para o último trimestre deste ano, após análise do Tribunal de Contas da União (TCU). A expectativa é que tenhamos muitas empresas participando do leilão”, afirmou. O novo terminal possuirá um perfil voltado ao transbordo de contêineres (transhipment), complementando a logística nacional. “A essência do negócio aqui tende a ser de transhipment, trazer navios de grande porte totalmente carregados e redistribuir por cabotagem”. Segundo Sampaio, o grande diferencial será a capacidade de receber os maiores navios do mundo totalmente carregados. “Nenhum outro porto do Brasil tem um terminal que vai poder atracar os maiores navios do mundo com calado de 17 metros”. Contudo, ele ressaltou que o objetivo não é competir diretamente com o Porto de Santos, mas complementar a logística regional. “Estamos falando de realidades muito diferentes. Nosso papel é complementar e fidelizar cargas que buscam estabilidade operacional.” Sampaio mencionou que mais de 90% das operações são de rotas internacionais. “Nos consolidamos como alternativa para ampliar a competitividade do comércio exterior brasileiro”. Prefeitura elogia relação do complexo com a cidade A relação porto-cidade entre o complexo portuário e o município de São Sebastião representa um modelo de ecossistema eficiente, com tendência ao fortalecimento da economia e impacto zero na mobilidade urbana. O diretor de Assuntos Portuários da Prefeitura de São Sebastião, Robson Wilson dos Santos, destacou que o Município mantém diálogo com a União e com o Governo do Estado no que tange ao planejamento urbano, às obras de infraestrutura terrestre e à atividade portuária. “O prefeito Reinaldo Moreira (Republicanos) está discutindo junto com o Governo do Estado e com o Governo Federal os impactos positivos e negativos para o município”, afirmou. Um dos principais avanços, na avaliação de Robson Santos, é o novo acesso viário que liga diretamente a Rodovia dos Tamoios ao porto. “Hoje, os caminhões portuários não passam mais pelo Centro. Eles vão direto para o Porto. Isso desafogou muito o trânsito e reduziu acidentes”, comentou. Segundo ele, a próxima etapa aguardada é a conclusão da saída direta do Porto para a rodovia, o que deve melhorar ainda mais a fluidez logística. “Os caminhões vão poder sair direto do porto para a estrada. Também é um ponto positivo”, ressaltou. O representante do Governo Municipal destacou o impacto do setor portuário na geração de emprego e renda. “Hoje, seis operadores portuários atuam no complexo, gerando mais de mil empregos diretos”. Sobre o arrendamento do futuro terminal multi-propósito, o SSB01, o diretor de Assuntos Portuários da Prefeitura afirma querer que ele “venha agregar e gerar mais emprego e renda no Município, somando com os operadores que já estão aqui”. “Nós estamos dentro da discussão para que o negócio não cresça de forma descontrolada e o impacto se torne negativo. O planejamento está sendo feito a quatro mãos para que o município e a região ganhem com isso”, enfatizou. Futuro terminal: divisor de águas O futuro terminal multipropósito SSB01 deverá incrementar o potencial produtivo do Porto de São Sebastião, ampliando não somente a demanda, mas a variedade de carga. Com ele, o ativo portuário passará a operar contêineres. O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) pretende realizar o leilão de arrendamento no último trimestre deste ano. Com prazo contratual de 35 anos e investimento previsto de R\$ 3,8 bilhões, o terminal irá operar granéis sólidos, cargas gerais e contêineres. A estrutura planejada terá capacidade estimada para movimentar até 1,35 milhão de TEU (medida equivalente a um contêiner de 20 pés) por ano, além de cerca de 3,45 milhões de toneladas de granéis sólidos, ampliando a capacidade operacional do porto. De acordo com o MPor, o empreendimento passou recentemente por consulta e audiência públicas conduzidas pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). “No momento, as contribuições recebidas estão em fase de análise para eventuais ajustes e aperfeiçoamentos no modelo de concessão proposto”. O terminal SSB01 foi qualificado no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do Governo Federal. O projeto é conduzido pelo ministério, com estruturação da Infra S.A. O MPor avalia que “a implantação do novo terminal reforça o papel estratégico do Porto de São Sebastião no sistema portuário nacional, ampliando sua competitividade e consolidando-o como alternativa logística relevante no Estado de São Paulo e na região Sudeste”. A pasta estima que, além do impacto logístico positivo, o futuro ativo “deverá gerar cerca de 5 mil postos de trabalho durante a fase de construção e aproximadamente 1,3 mil empregos permanentes quando o terminal entrar em operação”. Potencial estratégico na logística paulista Beneficiado pela geografia, oferecendo duas entradas de acesso marítimo e com canal aquaviário profundo até 25 metros, o Porto de São Sebastião deve ter estrutura para ampliar sua participação na matriz logística paulista. A avaliação é do economista e professor universitário Roberto Paveck. Segundo ele, a localização próxima aos polos industriais do Vale do Paraíba e a inserção em uma economia dinâmica criam condições objetivas para expansão e atração de novas cargas. “O Porto de São Sebastião tem um potencial relevante de crescimento, sustentado por fatores estruturais importantes. Um porto competitivo não é apenas aquele que recebe navios maiores, mas o que está bem conectado ao interior produtivo”, afirmou. Para o especialista, a modernização dos acessos terrestres é outro diferencial decisivo. “Quando os acessos estão estruturados, reduz-se o risco de gargalos e cria-se um ambiente mais favorável para investimentos e operações de maior escala”. Ao analisar o papel do complexo na logística estadual, Paveck defende a desconcentração de fluxos como estratégia para reduzir a pressão sobre corredores saturados. “O protagonismo não significa substituir outros portos, mas assumir funções específicas dentro de um sistema integrado”. Ele citou Santa Catarina como exemplo de modelo complementar, com diferentes portos operando de forma coordenada para ampliar a eficiência logística. Sobre eventual concorrência com Santos, o economista afasta a ideia de disputa direta. “Mais do que concorrência, a tendência moderna é de complementariedade entre portos”, explica Roberto Paveck.