[[legacy_image_356972]] O aposentado José Lopes Cruz já caminha com alguma dificuldade. Aos 97 anos, ele é de um tempo em que, no Porto de Santos, sequer havia contêineres, cuja utilização foi autorizada em 1965. Mas as memórias ainda se fazem presentes, na fala e no filho, Abinésio Lopes Cruz, de 64 anos. Os dois têm suas histórias ligadas ao maior porto do Hemisfério Sul. O pai trabalhou por 26 anos, e o filho, que trabalhou entre 1979 e 1990, retornou no ano passado, graças a uma anistia, E uma conversa com eles é uma aula prática de História. Seo José ingressou na antiga Companhia Docas de Santos (CDS) em 1954, e viu de perto a transformação do Porto. “Trabalhei na carga e descarga. O estivador tirava a carga do navio e a gente ficava embaixo, recebendo”, recorda. “Era muito trabalho. Entrava seis da manhã e não tinha horário para sair. Podia ser dez da noite, meia-noite, quatro da manhã”, acrescenta. Segundo ele, sobre a cabeça, sacas de café, açúcar e arroz. A jornada intensa não dava tempo para conversas. A preocupação, conta o aposentado, era levantar um dinheirinho, pagar o aluguel e alimentar os 11 filhos. “Minha esposa não ajudava com as finanças, mas cuidava da casa”, emenda o patriarca da família. UnidosO caminhar não é mais tão forte quanto há 70 anos. As lembranças também vão ficando diluídas no tempo. Mas a troca de olhares e confidências com a família permanece, assim como o orgulho do filho Abinésio, que seguiu os passos e o desejo do pai de trabalhar no Porto. “Estava servindo o quartel, mas ele (José Lopes, o pai) queria que eu ficasse no Porto de Santos. Servi nas Forças Armadas e saí. Esse era o desejo do meu pai. Era importante que seguisse o caminho que ele abriu”, diz Abinésio. O filho conta que entrou na antiga CDS em 1979, na função de ajustador, nomenclatura que davam para mecânico de várias especialidades. Permaneceu até 1990, saindo na leva de demissões do início do Governo do presidente Fernando Collor. Hoje, atua como técnico portuário na Alemoa. “Nesse período longe do Porto, atuei como técnico em refrigeração. Fiz outros serviços, cursos de eletricista, mas sonhava em voltar. Ano passado, deu certo”, acrescenta Abinésio. TransformaçõesUm dos aspectos que mostram, na visão dos dois, a grande mudança no trabalho portuário é a preocupação com a segurança. Seo José, por exemplo, conta que viu vários colegas de cais morrerem por conta de acidentes no trabalho. Enquanto isso, seu filho reconhece a melhoria nesse aspecto. “Alguns guindastes pegavam mercadorias acima da capacidade deles. A tecnologia torna raros os acidentes. Há mais segurança”, relata Abinésio. Em tempos de Pix e outros tipos de transferências bancárias, ele lembra, da incumbência que lhe foi dada, certa vez, de buscar, junto ao pai, o dinheiro do trabalho. Eram tempos difíceis, mas os ganhos tinham seus direcionamentos. “Tinha por volta de 9 anos, e o pagamernto era feito em espécie, no local de trabalho. Meu pai falou: ‘Estão faltando as coisas em casa e amanhã vai sair o pagamento. Vá lá buscar no tráfego’. Ele disse para eu ir cedo, e assim fiz. No prédio do tráfego, no final da Rua João Octávio, meu pai veio na grade e me deu o dinheiro. Fui à padaria, açougue, quitanda. Não deixei ninguém com fome (risos)”. O exemplo de retidão do seo José vinha de outros relatos, como o dia em que assumiu, sozinho, o trabalho braçal de duas pessoas. “Ele tinha um parceiro, e trabalhavam em dupla. Certo dia, ele não estava se sentindo bem.Meu pai disse para ele ficar sentado, que faria o trabalho dos dois. E, naquele dia, trabalhou dobrado. A força física dele era impressionante”, atesta. Seo José ouve o relato sobre a própria história na voz do filho vê a continuidade do trabalho que começou no Porto. “É a nossa vida”, resume.