Máquinas responsáveis pela produção na Eldorado Brasil são monitoradas por gráficos e câmeras em central de controle (Alexsander Ferraz/AT) Como uma enorme panela de pressão, o digestor não para um segundo de cozinhar os pedaços de eucalipto para a produção da celulose. As caldeiras, que também fazem parte do processo na fábrica da Eldorado Brasil, em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, seguem em pleno vapor. Esses e outros equipamentos que produzem quase 1,8 milhão de toneladas celulose por ano, porém, não contam com ninguém ao lado. São operados à distância, de uma central de controle. O operador de Sistema Digital de Controle Distribuído (SDCD) Dione Motta é um dos olhos atentos da Eldorado para que a engrenagem não pare. Na frente das telas, ele analisa gráficos e imagens das câmeras instaladas nas máquinas e dá o comando necessário em cada etapa do processo. Quando A Tribuna esteve no local, Dione estava responsável pelo forno de cal, parte essencial do processo de recuperação química da fábrica. Ele destaca a importância de decisões rápidas em situações críticas. “Por exemplo, o forno pode apagar ou ter falhas. Se uma quantidade alta de impurezas for detectada, temos que agir rapidamente. Ser rápido é entender como e onde intervir. Essa precisão faz toda a diferença para manter a fábrica operando com eficiência”, explica. Águas e efluentes Outra operadora do painel de controle (SDCD) é Suselaine Marques dos Santos. Ela monitora de forma remota a área de águas e efluentes da fábrica. A Eldorado tem autorização dos órgãos ambientais para captar água do Rio Paraná para manter as operações da fábrica. Após o uso, mais de 80% da água é tratada e devolvida ao rio. “A área de águas engloba desde a captação e tratamento de água até o tratamento de efluentes. Todo o processo hídrico da fábrica passa pelo nosso monitoramento”, explica Suselaine. “É necessária muita atenção, responsabilidade e trabalho em equipe. Realizamos os acionamentos no painel, mas dependemos de informações precisas para fazer isso”. A operadora explica que a água captada é tratada para remoção de resíduos sólidos grosseiros e depois submetida a um tratamento químico e mecânico. Para uso nas caldeiras, há um tratamento específico. “Esses cuidados são essenciais para evitar problemas como incrustações nos tubos das caldeiras, que poderiam comprometer o funcionamento”. Quanto aos efluentes devolvidos ao rio, Suselaine detalha que o processo inclui tratamentos químicos e biológicos para garantir que a água atenda às exigências legais. “Utilizamos bactérias para degradar as impurezas. Após a separação sólido-líquido, o líquido tratado é devolvido ao rio, enquanto o sólido passa por desidratação e é descartado em aterros”, conta. A Eldorado está implementando um projeto de secagem de lodo, que permitirá que os resíduos sólidos sejam queimados em caldeiras, reduzindo a dependência de aterros. “Essa iniciativa é fundamental para o futuro, pois o espaço para aterros será cada vez mais limitado”, afirma. Para Suselaine, participar desse processo é motivo de orgulho. “A nossa área é essencial para a produção de celulose, que é exportada para vários países. Saber que contribuímos para a eficiência da fábrica e para a preservação ambiental é muito gratificante”. Em linha A fábrica da Eldorado Brasil, em Três Lagoas (MS), opera com máquinas e equipamentos em linha; única que permite a produção contínua de grandes volumes de celulose. O processo começa com a chegada de madeira de eucalipto descascada, que é picada e levada para cozimento. Depois,polpa da celulose é lavada, branqueada e secada. Por fim, as folhas de celulose (parecidas com grossas cartolinas) são embaladas em fardos e preparadas para o transporte rumo aos portos do País. Empresa utiliza cerca de 80 mil árvores por dia Na Eldorado Brasil, cada dia de operação é crucial. Se algo falhar, como um entupimento no digestor, as perdas podem ser enormes. Um dia de parada equivale a mais de R\$ 15,3 milhões de prejuízo. Esse é o valor de venda da produção diária, que utiliza 80 mil árvores para produzir, em média, 5,1 mil toneladas de celulose. Cada tronco resulta em menos de meio quilo de celulose. A madeira que chega das áreas florestais da empresa passa por um controle rigoroso na fábrica, que inclui peso, volume e origem, com rastreabilidade que conecta cada fardo de celulose à floresta de onde a árvore foi colhida. “A primeira etapa é medir peso, volume e registrar as informações do talhão (local) de onde a madeira foi colhida. Isso é essencial porque as características da madeira influenciam diretamente no cozimento”, explica Marcelo Martins, gerente industrial da Eldorado. “Madeiras mais duras, por exemplo, exigem temperaturas mais altas”. Após o recebimento, a madeira é picada em pedaços, chamados de cavacos. “O tamanho do cavaco é crítico: se for muito pequeno, ele degrada; se for muito grande, não cozinha adequadamente”. Os cavacos são armazenados em pilhas antes de seguirem para o digestor. No digestor, a madeira é cozida com soda cáustica e sulfeto de sódio para separar a lignina (composto orgânico que dá a rigidez para as árvores) das fibras de celulose. “Essa etapa é química, mas após o cozimento, passamos para a lavagem, onde a separação é física”. A lignina, removida durante a lavagem, segue para o processo de evaporação, onde é transformada em uma substância semelhante a piche. Essa lignina é usada como combustível na caldeira, que desempenha duas funções principais: gerar vapor para o processo e energia elétrica para a fábrica.