"Após tanto desenvolvimento tecnológico, temos hoje mais ou menos postos de trabalho? Temos muito mais, claro", afirma Pupo (Divulgação) A tecnologia é um processo irreversível em qualquer atividade. Por essa razão, o quadro não é diferente no Porto de Santos, nem em qualquer outro complexo brasileiro e em outros países. Sócio-fundador da empresa T2S, especialista em desenvolvimento de sistemas, Ricardo Pupo Larguesa conversou com A Tribuna e revelou as tendências que estão revolucionando o setor em termos operacionais e profissionais. Clique aqui para seguir agora o canal de Porto & Mar no WhatsApp! Quando se fala em tecnologia portuária e em automação, o que é mais importante? No que os novos sistemas e tecnologias auxiliam a eficiência, agilidade e segurança das operações portuárias em seu dia a dia? O mais importante é que haja processos bem definidos e eficientes. Costumo dizer que o que resolve problemas é o processo, não o software. O software automatiza, agiliza e organiza o processo de forma sistemática para aumentar o controle e evitar retrabalho e redundâncias. No que diz respeito à automação da operação portuária, há uma dependência muito grande de hardware, então incentivos fiscais são fundamentais para viabilizar economicamente os investimentos na aquisição de equipamentos de ponta, que demandarão um alto nível de integração. Qual o setor ou quais os setores mais beneficiados atualmente na cadeia portuária? Por quê? E quais serão os próximos, na sua visão? Por quê? Acredito que o agronegócio seja o mais beneficiado atualmente, sendo um dos pilares da economia brasileira e responsável por uma parte significativa das exportações do País. O avanço da mecanização, a digitalização e a adoção de novas tecnologias, como IoT, drones e big data, têm revolucionado a produtividade e a gestão das operações agrícolas, além de beneficiar também o setor de tecnologia. O setor industrial também se beneficia significativamente da infraestrutura portuária e, no Brasil, ainda tem muita oportunidade de crescimento. Acredito que o setor industrial deva se beneficiar ainda mais no futuro, devido à crescente modernização e automação dos portos. Quais são os principais programas e soluções implantadas nos últimos anos que ajudaram muito os portos, em especial o de Santos? Muitos terminais investiram na modernização de seus TOS (Terminal Operating Systems). A modernização desses sistemas permite melhor coordenação e integração tecnológica, resultando em aumento de produtividade e redução de erros. As redes 5G privadas suportam a alta demanda por conectividade estável e de baixa latência, essenciais para a operação de dispositivos IoT e sistemas automatizados em tempo real. RPA (Robotic Process Automation) tem automatizado processos administrativos e operacionais, eliminando tarefas repetitivas e permitindo que os funcionários se concentrem em atividades de maior valor agregado. A segurança de dados também recebeu investimentos significativos para proteger contra ciberataques e garantir a integridade das informações. Big data, que permite prever demandas, otimizar rotas e melhorar a eficiência logística. Espera-se mais investimentos em IA (inteligência artificial), que pode melhorar a previsão de demanda, otimizar a manutenção preditiva de equipamentos e automatizar decisões operacionais complexas, além de muitas outras aplicações, aumentando ainda mais a eficiência e precisão das operações portuárias. Quais são as novidades mais recentes e que devem ser muito promissoras para o futuro em relação à tecnologia nos portos? Acredito que a IA seja a mais promissora. Os avanços recentes permitem a criação de tecnologias e ferramentas que automatizam uma ampla variedade de tarefas de maneiras inéditas e a um custo relativamente baixo. A IA pode ser aplicada na otimização da programação de atracação, reduzindo o tempo de espera dos navios e melhora na utilização dos terminais. Além disso, pode ser utilizada para manutenção preditiva de equipamentos, antecipando falhas e programando reparos de forma eficiente, evitando interrupções nas operações. A IA também tem potencial para aprimorar a segurança, com sistemas que identificam ameaças cibernéticas em tempo real e protegem dados sensíveis. Essas aplicações podem transformar a eficiência operacional e a tomada de decisões nos portos, revolucionando o setor. Mas há uma infinidade de possibilidades. Como você avalia a questão da segurança cibernética e da proteção de dados nos portos? O que precisa melhorar e mudar? Não apenas o setor portuário, mas todos os setores enfrentam desafios relacionados a ataques cibernéticos. Em geral, as empresas já investem massivamente em hardwares e softwares para proteção contra ciberataques. No entanto, a maior vulnerabilidade ainda reside nas pessoas. A maioria das pessoas não está preparada para se defender contra ciberataques, o que torna as empresas vulneráveis. É preciso investir em treinamentos em todos os níveis, revisar processos constantemente e implementar mecanismos eficientes de controle. Como a tecnologia modificou o trabalho portuário, as profissões e a forma dele como um todo? Na sua visão, muda o tipo de trabalho? Toda nova tecnologia gera preocupações sobre a perda de postos de trabalho. No entanto, após tanto desenvolvimento tecnológico, temos hoje mais ou menos postos de trabalho? Temos muito mais, claro. Novas tecnologias criam novos papéis, geralmente demandando mais conhecimento, mas em contrapartida agregam mais valor e pagam melhores salários. Todos devemos estar atentos ao impacto que nossa profissão pode sofrer com as novas tecnologias, e quanto antes aceitarmos a possibilidade de mudança e buscarmos requalificação, mais facilmente nos adaptaremos. Como você vê essas mudanças no Porto de Santos? No Porto não é diferente. Tive a oportunidade de conhecer alguns desses ‘terminais fantasmas’, e fantasma mesmo é apenas a área operacional. Há muitos trabalhadores na retaguarda utilizando tecnologias que permitem os terminais fazerem mais com menos. Isso diminui o custo da logística e traz apenas benefícios à sociedade como um todo.