[[legacy_image_186872]] Há 400 anos o trabalho de ajudar os navios a entrar nos portos do mundo já era necessário. No Brasil, o primeiro regimento de pilotos foi oficializado em 12 de junho de 1808, por meio de um decreto assinado pelo príncipe regente português, Dom João. Assim conta Bruno Roquete Tavares, de 44 anos, um experiente piloto, ou simplesmente prático, como a profissão é mais conhecida em Santos. Tavares é diretor-presidente da Praticagem de São Paulo, fundada oficialmente em 27 de junho de 1933 e que completa 89 anos amanhã. Na data é comemorado o Dia da Praticagem em Santos, oficializado por decreto pela Prefeitura em 2016. Tavares, que exerce a profissão há 11 anos, conta que o serviço em Santos é feito 24 horas por dia, por 64 práticos, em qualquer horário. As escalas costumam ter 12 profissionais por dia, que se revezam nos navios. Existem manobras que demoram até 3,5 horas. “A representatividade do prático vai muito além de manobrar o navio: ele é o cara que representa o País, o primeiro a chagar a bordo dos navios estrangeiros. Mesmo durante o pior período da pandemia, estávamos lá. Tivemos muito cuidado em termos de procedimentos de segurança, revisamos tudo de acordo com as regras da Anvisa”, conta o diretor-presidente. Leia a seguir a entrevista dada para A Tribuna. Por que o navio não entra no porto sem o prático?O prático divide a responsabilidade da manobra com o comandante do navio. O prático é um profissional conhecedor local das peculiaridades daquele porto: vento, corrente, profundidades. Ele sabe onde pode passar com aquele navio. Enquanto o oficial de náutica, o comandante do navio, é treinado para navegar em mar aberto, o prático é treinado para manobrar navios em regiões super restritas, com perigos e uma geografia completamente diferente do mar aberto. É importante um profissional que tenha o conhecimento local para fazer a entrada e saída dos navios com a máxima segurança possível. Quais são os riscos para manobra de navios no Porto de Santos?O Porto de Santos é estuarino e muito sinuoso em certos trechos de navegação. O próprio canal não é largo. Existem navios que não podem cruzar com outro em determinados trechos, não há espaço. De acordo com a Autoridade Portuária, você precisa de dois práticos dependendo das dimensões do navio. Do início do canal de entrada do Porto de Santos até o último berço, lá em Cubatão, você tem 12 milhas de navegação, mais ou menos 24 quilômetros de extensão. E não é uma reta, são trechos estreitos e sinuosos. E nas duas margens, esquerda (Guarujá) e direita (Santos), têm terminais, comunidades, ferry boat cruzando todo o tempo. Não é um lugar que tem só mato de um lado e de outro e qualquer coisa você encalha o navio no mato. Tem edificações nas margens, pessoas transitando. O Porto de Santos é nevrálgico, sensível. Tem toda uma restrição para navegação. E 90% dos navios são estrangeiros, não é tripulação brasileira. Além disso, o comandante não é obrigado a conhecer cada porto, por isso a presença do prático é fundamental para assessorar o comandante. Comparando o Porto de Santos a outros portos brasileiros, como você classifica o nível de dificuldade na manobra?O Porto de Santos é desafiador. Não é que não existam outros portos sinuosos e estreitos, mas é que Santos tem um movimento muito grande. Ao mesmo tempo que tem várias restrições e é preciso usar muita segurança nas manobras por causa do tamanho dos navios, você não pode parar o porto por causa disso. Então, ao mesmo tempo em que temos que fazer um trabalho com segurança e qualidade, precisa de dinamismo, otimizando ao máximo para evitar perda de tempo, ou qualquer tipo de situação em que um terminal fique ocioso. É o maior porto da América Latina em termos de movimentação de cargas. Para manter essa dinâmica, temos que estar bem treinados, embasados e fazer uso de tecnologias para ajudar. Tudo isso é levado em conta no nosso dia a dia. Esse trabalho dos práticos existe no mundo todo?É mundial, a grande maioria dos portos tem. Em portos muito pequenos, com embarcações muito pequenas, pode não ser necessário. Mas é internacional, poucos são os portos que não tem. Temos um exemplo daquele caso da Itália, do acidente em que o navio bateu nas pedras (Costa Concórdia, em 2012), pessoas morreram, o comandante foi preso. Naquele trecho o prático era facultativo, o comandante não quis fazer uso de prático e aconteceu acidente. A regra mudou depois daquilo (o prático passou a ser obrigatório). Como é a escala de trabalho em Santos?Hoje em Santos são 12 práticos em escala por dia. A gente se organiza sempre pelo pico, não pela média. A média diária hoje é de 32 a 33 manobras. Mas temos picos de 50, 60. Nosso recorde foram 61 manobras em um dia. Com esse número de 12 práticos conseguimos fazer até 80 manobras e, se precisar chamar mais práticos, a gente tem condições de fazer isso. A empresa se prepara sempre para o pior cenário. É mais fácil não ter rebocador ou não ter amarrador suficiente para amarrar os navios do que não ter prático para manobrar. Mas também existe um aparato tecnológico que auxilia os práticos?Por trás de colocar o prático a bordo do navio tem toda uma infraestrutura. Hoje, na Praticagem de Santos, temos mais de 120 colaboradores diretos. Tem toda a equipe que compõe a lancha para botar o prático a bordo e desembarca-lo. Tem o mestre, o marinheiro, toda a equipe que está pronta a operar a frota de lanchas da Praticagem. Às vezes tem cinco, seis manobras simultâneas e tem que distribuir os práticos. Tem toda a equipe do departamento marítimo, do estaleiro, do centro de operações - que faz toda a coordenação do tráfego, de acordo com as regras da Autoridade Portuária. Tem dois operadores 24 horas por dia, sete dias por semana. Não para, é um serviço ininterrupto para alimentar o prático de todas as informações que ele precisa para ir para a manobra. E no centro de operações tem toda a tecnologia, com sensores para dar informações sobre ventos, correntes, toda a parte de computação para fazer os cálculos que o prático precisa saber para trocar informações com o comandante durante a manobra. Então, há toda uma equipe por trás dessa operação. E há uma programação de navios de acordo com as regras do Porto. Os operadores vão compilando as informações de acordo com programação da SPA, que passa os navios liberados para manobrar. Aí montamos uma escala. Quem paga o prático?É o armador, o dono do navio. Na verdade, nosso cliente direto é o Estado. Porque nós somos os representantes do Estado, os primeiros que vão a bordo. Financeiramente, são contratos de navegação com o armador do navio. Nós somos uma empresa privada, que não recebe um centavo do Governo. O lucro da empresa é divido entre os práticos. Como funciona a formação desses profissionais?Existe um processo público que é feito pela Marinha, que organiza a seleção, até porque é a Marinha que regulamenta o serviço. Tem prova teórica, psicológica, médica, física, prova de títulos. Após o candidato se classificar ele começa um processo de estágio de, no mínimo, um ano, acompanhando os práticos. Depois ainda passa por uma banca avaliadora da marinha para ver se está apto a atuar realmente no Porto de Santos. Mas ainda entra com uma restrição técnica em Santos, leva de quatro a seis anos para se tornar um prático habilitado a manobrar qualquer tipo de embarcação. Até para dar tempo de o prático ter bagagem para manobrar navios maiores. Então não é uma coisa fácil, é bem longo o processo de formação. Quais foram as mudanças nos últimos nãos na área de vocês?O que vem mudando muito é o tamanho dos navios, vem crescendo muito rapidamente. Até porque para ter uma economia de escala, colocam um navio gigantesco e conseguem carregar muito mais contêineres. E sempre treinamos para manobrar esses navios maiores, não só em comprimento, mas em largura e calado. Eles afundam mais. Hoje, o calado máximo em Santos é de 14,5 metros, que é um calado bem dinâmico para operação, em termos internacionais. Estamos sempre nos antecipando. No final de 2016 para 2017, quando começou a se ventilar a probabilidade de trazer os navios de 366 (de comprimento) já acendeu a luz amarela e começamos a buscar informações, centros de treinamentos, troca de informações entre praticagens. Começamos a nos preparar para isso. Tanto que em 2018 estávamos todos prontos a operar o 366. E até começamos a alimentar a autoridade portuária sobre como trazer esse navio para cá, a parte de segurança, vento, isso ajudou muito a autoridade portuária a homologar a vinda desse navio para cá. Já está homologado, agora é só esperar. Como a Praticarem avalia a desestatização do porto de Santos?Somos uma empresa privada e fazemos o nosso papel dentro do Porto como vários outros players. Então, se for bom para o Porto, se for trazer desenvolvimento, aprimoramento nas operações, agilidade, otimização, a gente assina embaixo. Tudo que for bom para o desenvolvimento do porto, seja na parte de logística, operacional de segurança, a gente está junto. Somos uma engrenagem que faz parte desse complexo que é o Porto de Santos. Tudo o que vier para melhorar, assinamos embaixo.