Oferecer treinamentos aos motoristas atrelados a benefícios, como prioridade em triagens, seria incentivo para que eles buscassem a capacitação profissional, dizem consultores da área (Alexsander Ferraz/AT) Os caminhoneiros e suas dificuldades estão na ordem do dia há algumas semanas no País. Aumento no preço do combustível, maior rigor na fiscalização do pagamento do piso mínimo do frete e projetos para renovação da frota têm mobilizado a categoria. Mas ainda falta algo: a maior participação do poder público na solução de questões do dia a dia dos motoristas. Além disso, a comunicação entre os ministérios que atuam na área apresenta aparentes ruídos. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! É o que avaliam especialistas ouvidos por A Tribuna, na quarta reportagem especial sobre os caminhoneiros. A série está sendo publicada aos domingos. “O poder público tem um papel que deve ir muito além da caneta e do bloco de multas. Precisamos de campanhas que sejam verdadeiramente empáticas com a realidade do caminhoneiro. A grande maioria desses profissionais não comete irregularidades por má-fé, mas sim por uma combinação de margens de lucro espremidas, fretes defasados e falta de acesso à informação técnica de forma simplificada”, afirma o diretor da Graf Infra Consulting, Rodrigo Paiva. Ele sugere a criação de “pit stops educativos” nos principais acessos ao Porto de Santos. “Ao invés de parar o caminhão apenas para autuar, o poder público, em parceria com as autoridades portuárias e concessionárias rodoviárias, poderia oferecer check-ups preventivos gratuitos. Nesses momentos, o motorista receberia orientação sobre itens críticos de segurança, como freios, pneus e amarração de carga, sem o peso imediato da punição. E o cumprimento das tabelas de frete mínimo é fundamental”. Paiva entende que campanhas de rádio, podcasts voltados para a estrada e cartilhas digitais via WhatsApp, com linguagem simples e direta, também são ferramentas poderosas para levar conhecimento. “Esses programas não são apenas necessários, mas urgentes. Programas de treinamento não podem ser vistos como perda de tempo ou custo extra, mas como investimento em eficiência e preservação de vidas”, diz ele. Uma ideia viável, segundo o consultor, seria a implementação de certificações rápidas e modulares, que o motorista pudesse fazer enquanto aguarda nas janelas de agendamento do porto. “Se atrelarmos esses treinamentos a benefícios práticos — como prioridade em filas de triagem ou acesso a áreas de descanso melhores —, criamos um incentivo positivo para que o caminhoneiro busque essa qualificação de forma voluntária e engajada”, argumenta. Investimentos caros Já o engenheiro e especialista portuário Eduardo Lustoza pondera que o investimento para adquirir um conjunto reboque e semirreboque bi-trem, por exemplo, facilmente ultrapassa R\$ 1 milhão e o custo financeiro deste caminhão não alcança a capacidade dos profissionais autônomos. “Caso haja rigor na fiscalização, provavelmente 60% da frota será sucateada e apreendida”, alerta. Para ele, a frota de veículos das transportadoras tradicionais recebe serviços de manutenção regularmente e tem melhor aparência e conservação. “Eles são fiscalizados por seus clientes e têm que atender a idade máxima da frota, entre três e cinco anos, dependendo dos produtos a serem transportados”. O engenheiro diz que os caminhoneiros autônomos trabalham em outra realidade. “Normalmente, em nossa região portuária, administram o transporte de cargas entre porto e retroporto e evitam viagens longas e a subida da Serra do Mar. Esta frota de autônomos é muito mais antiga e tem maior dificuldade em fazer investimentos em manutenção eletromecânica preventiva”. Lustoza pontua ainda que, nos próximos anos, o setor irá começar a sentir falta de motoristas tanto para o trabalho autônomo como para emprego nas transportadoras tradicionais. “Esta tendência de mercado já é vivenciada em diversos países e vários transportadores já perceberam a dificuldade de renovação dos profissionais. Campanha de treinamento e segurança ajudarão sempre, mas o colapso é econômico e não cultural. Luta pela sobrevivência é a prioridade”, complementa. Concessionária Rota vital para o transporte no Porto de Santos, o Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI), gerido pela concessionária Ecovias Imigrantes, também abre espaço para ações importantes junto aos caminhoneiros. De acordo com a empresa, são realizadas campanhas educativas periódicas voltadas à condução segura, à manutenção preventiva dos veículos e à conscientização sobre comportamentos de risco, como o excesso de velocidade. As ações incluem abordagens diretas nas rodovias, além da distribuição de materiais informativos, orientações sobre segurança viária e cuidados com a saúde, além do acesso a serviços como aferição de pressão arterial e teste glicêmico. “A concessionária também disponibiliza um pátio de apoio para caminhoneiros no km 40 da Via Anchieta, equipado com banheiros, chuveiros, área para alimentação e espaço para práticas esportivas”, explica. Ministérios empurram problema sem assumir responsabilidades Falta coordenação no Governo Federal para a difusão de políticas públicas voltadas para os caminhoneiros no seu dia a dia. Nas últimas semanas, a Reportagem buscou informações sobre medidas educativas e de apoio à categoria sobre como garantir a ela o pleno cumprimento das obrigações profissionais, mas o que se viu foi um “jogo de empurra”. Foram feitos questionamentos sobre se o governo tem linhas de crédito específicas para caminhoneiros que operam em áreas portuárias; se existem programas de treinamento e campanhas educativas voltadas à segurança no transporte de contêineres; e o que pode ser implementado para reduzir o índice de irregularidades e melhorar as condições da frota. O Ministério dos Portos e Aeroportos (MPor), por exemplo, orientou que “a demanda seja encaminhada ao Ministério dos Transportes, órgão responsável pelo tema”. Este, por sua vez, justificou que “para a demanda sobre veículos que atuam em áreas portuárias, sugerimos o contato com o Ministério de Portos e Aeroportos. Já para informações sobre linhas de crédito específicas para caminhoneiros, sugerimos o contato com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC)”. A pasta citada, então, informou que o balanço mais recente divulgado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostra que o Move Brasil já alcançou R\$ 6,3 bilhões em recursos aprovados. E que “o valor médio é de R\$ 1,07 milhão por operação. A maior parte dos recursos foi destinada à aquisição de caminhões novos para frotistas, com R\$ 4,9 bilhões, em 4.380 operações. Outros R\$ 110 milhões foram para clientes autônomos, em 239 operações até 13 de março”. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) também foi consultada e afirmou que “questões relacionadas à conservação de veículos de carga e capacitação de motoristas não se inserem diretamente em suas atribuições institucionais”. Informou ainda que a atuação da ANTT está concentrada na regulação, fiscalização e cumprimento de normas “relacionadas à prestação do serviço de transporte terrestre, não abrangendo, de forma específica, a gestão de programas de treinamento ou campanhas educativas voltadas à manutenção de frota ou qualificação profissional de caminhoneiros”. Ações concretas Para o diretor-executivo da Process Log & Comex e MBA em Gestão de Negócios pela Universidade de São Paulo (USP), Lúcio Lage Rodrigues, o poder público tem um papel fundamental e precisa atuar com uma abordagem de orientação e estruturação. “Campanhas educativas são importantes, mas precisam ser objetivas e conectadas com a realidade operacional do motorista. Muitos profissionais querem operar corretamente, mas enfrentam limitações econômicas para manter o veículo dentro do padrão exigido”, argumenta. Para ele, programas de treinamento são essenciais, mas precisam caminhar junto com medidas estruturais. “Hoje, quando vemos um número elevado de irregularidades, isso não pode ser interpretado apenas como falha individual do motorista. Existe um fator estrutural muito claro: parte significativa da frota que atende o Porto de Santos ainda é antiga e sofre com desgaste natural, o que aumenta a probabilidade de problemas mecânicos e operacionais. Esse ponto, inclusive, vem sendo destacado por entidades do setor que defendem a modernização da frota como prioridade”. Rodrigues avalia que treinamento e campanhas educativas funcionam muito bem quando são práticas e contínuas. “O motorista precisa entender exatamente quais são os pontos críticos, o que gera autuação e, principalmente, como prevenir problemas. Mas educação sozinha não resolve se não houver condição operacional. É preciso orientar, mas também criar condições reais para que o motorista consiga operar dentro das exigências”, defende. Para o especialista, se quase todos os veículos apresentam algum tipo de irregularidade, isso precisa ser tratado como um sinal sistêmico, não apenas individual. “Hoje, o que vemos no Porto de Santos é uma combinação de frota envelhecida, custos elevados e alta pressão operacional. A modernização da frota é um passo fundamental para melhorar esse cenário e já vem sendo defendida por diversas entidades do setor como uma medida necessária para elevar o padrão de segurança e eficiência logística”, complementa.