(Sílvio Luiz/Arquivo AT) A trajetória econômica brasileira nos últimos 45 anos revela um descompasso estrutural. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) per capita global cresceu 675%, o dos países avançados subiu 621% e o das nações emergentes avançou 1.128%, o indicador brasileiro registrou expansão de 428%. Esse cenário indica uma estagnação na produtividade sistêmica do País, cuja reversão depende da melhoria do ambiente de negócios e, diretamente, da redução dos custos logísticos mediante investimentos em infraestrutura. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Seja por critérios geográficos, econômicos ou ambientais, impõe-se a necessidade de ampliar o transporte pelos rios e pelo mar, que representa menos de 15% da nossa matriz de movimentação de cargas. Nossa pauta exportadora, ancorada em commodities agrícolas e minerais, exige ganho de escala em trajetos de longa distância, que frequentemente superam a marca de mil quilômetros. Considerando a extensão da costa brasileira (8 mil quilômetros) e a configuração da rede hidrográfica nacional (42 mil quilômetros), fica evidente a vocação territorial para o transporte aquaviário. Esse modal apresenta menores custos de implantação, maior eficiência operacional e menor impacto ambiental. Sob a ótica orçamentária, a infraestrutura básica da navegação é um ativo disponível na geografia do país, uma vez que o Brasil dispõe de rios naturalmente navegáveis. Enquanto a duplicação de 100 quilômetros de uma rodovia como a BR-364 demanda aportes superiores a R\$ 2 bilhões, os investimentos estimados para balizar e viabilizar 600 quilômetros da Hidrovia do Rio Paraguai são de R\$ 43 milhões. Em termos de eficiência energética, para movimentar mil toneladas-quilômetro úteis (TKU) de granel mineral, um caminhão consome 25 litros de diesel e emite 59,2 kg de CO₂, ao passo que um comboio hidroviário consome 0,9 litro e emite 2,7 kg de CO₂. O modal rodoviário consome 28 vezes mais combustível e emite de três a cinco vezes mais carbono por tonelada movimentada. Além do fator econômico, na Região Norte, a regularidade e a disponibilidade do transporte fluvial determinam o nível de conectividade regional e o acesso das populações locais a serviços básicos de saúde e educação. Todo esse contexto posiciona o transporte aquaviário como eixo central para o desenvolvimento do Brasil, quando estruturado sob uma visão de longo prazo. Dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) indicam que, nos últimos 15 anos, a navegação interior (média de 7,8% ao ano) e a cabotagem (3,5% ao ano) apresentaram crescimento superior ao PIB. Contudo, o país utiliza apenas 20,4 mil quilômetros de vias economicamente navegadas, o que representa 48,9% dos 42 mil quilômetros potencialmente utilizáveis. Expandir essa malha requer novos investimentos públicos e privados integrados, abrangendo obras de dragagem, sinalização de canais, eclusas para superação de desníveis, expansão de terminais portuários e intervenções nos acessos terrestres e aquaviários dos portos, além de decisões governamentais transversais. O setor aquaviário é estruturalmente não linear e complexo, afetado por fragmentação administrativa e agendas setoriais concorrentes. A formulação de políticas públicas cabe ao Ministério de Portos e Aeroportos, enquanto a regulação é exercida pela Antaq. No entanto, a execução de intervenções estruturais, como dragagens e acessos terrestres, compete ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) ou à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), vinculados ao Ministério dos Transportes. Paralelamente, cabe à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) harmonizar os conflitos no uso da água entre navegação e geração de energia em períodos de estiagem. A formação dos profissionais aquaviários cabe à Marinha, que também estabelece as regras de segurança. Os diagnósticos da Antaq revelam que o licenciamento ambiental, a cargo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e a regularização fundiária, sob responsabilidade da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), constituem os principais gargalos. Esses desafios ultrapassam a competência de um único ministério setorial e só podem ser resolvidos com orientação centralizada. Tomemos o exemplo da descarbonização. O Plano Clima preconiza maior equilíbrio da matriz de transportes para reduzir as emissões. Se a questão não for tratada de forma coordenada, corre-se o risco de se estabelecerem metas isoladas por setor, com prejuízo ao modal aquaviário, dados os elevados custos de adaptação e renovação das frotas de navios. Em uma visão sistêmica, pode ser estratégico que as emissões dos transportes aquaviário e ferroviário aumentem, com redução no rodoviário, para que o resultado agregado seja positivo. Não é inteligente que o modal mais sustentável arque isoladamente com os custos da transição energética. Conforme o Referencial de Governança do Tribunal de Contas da União (TCU), os órgãos que exercem funções de Centro de Governo — como a Casa Civil da Presidência da República e o Ministério do Planejamento e Orçamento — têm a atribuição de coordenar a política superior, gerenciar o planejamento estratégico de longo prazo, monitorar o desempenho das entregas e harmonizar diretrizes setoriais. Elevar a pauta aquaviária a esse nível estratégico é condição para conferir alcance intersetorial e multifederativo ao tema. Sob a coordenação do Centro de Governo, adota-se a abordagem de “governo único” (whole-of-government approach) para mitigar o viés de curto prazo e garantir a execução de metas de longo alcance, unificando as ações de múltiplos ministérios e entes federativos. A criação da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação foi um passo fundamental para essa articulação. A instituição do Comitê de Governança do Planejamento Integrado de Transportes e a proposta de uma Comissão Nacional das Autoridades de Transporte Hidroviário elevam o grau de coordenação. Mas essas iniciativas exigem continuidade institucional. A infraestrutura demanda uma estratégia de compromisso prévio estável, imune a ciclos políticos. A coordenação centralizada dessa matéria no Centro de Governo é o mecanismo necessário para reduzir o Custo Brasil, aumentar a competitividade das exportações e diminuir o impacto do frete no preço final dos alimentos. O Brasil precisa integrar sua geografia ao planejamento logístico estratégico para viabilizar o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade. Frederico Dias é diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Otto Burlier é secretário Nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos. Karoline Lemos é chefe de gabinete da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).