José Roberto Duque, diretor comercial da Aliança Navegação, tem relação de longa data com o Porto; aos 41 anos, ele trabalha desde os 17 no setor (Silvio Luiz/ AT) Nascido e criado em Santos, José Roberto Duque, de 41 anos, cresceu respirando porto. Aos 17 anos, ingressou no setor como office boy numa comissária de desembaraço aduaneiro e, desde então, construiu uma carreira sólida e ascendente. Trabalhou em diversas funções operacionais e comerciais em gigantes do transporte marítimo internacional, como MSC e Maersk. Atualmente, está à frente da diretoria comercial da Aliança Navegação e Logística. A empresa representa a aposta do grupo Maersk no desenvolvimento da cabotagem nacional, que é o transporte de cargas entre os portos dentro do País. Com mais de 20 anos de história no Brasil, foi a primeira do setor no País e é a maior do segmento, operando com nove navios. Duque conhece a fundo os desafios e oportunidades da cabotagem brasileira. A seguir, em entrevista para A Tribuna, ele compartilha uma visão crítica e estratégica sobre o setor, destacando gargalos de infraestrutura, potencial de crescimento e o papel essencial da integração logística. Como você compara as experiências no transporte internacional de cargas e na cabotagem? São bem diferentes, tive que me adaptar bastante. No doméstico, o nosso público-alvo tem uma carga bem de consumo final. Já na exportação eu lidava muito mais com commodities, geralmente são produtos que vão para uma fábrica, que vai produzir e distribuir para algum lugar. O tempo de trânsito é diferente, a aceitação do negócio é muito diferente. Hoje em dia, a exportação vai acontecer pelo navio naturalmente, porque por avião é muito caro. Então, a carga está acostumada com o modal. Já a cabotagem ainda está em crescimento, são 25 anos no Brasil, está em um processo de amadurecimento. Hoje, ela representa cerca de 3% da matriz de transporte nacional. A gente é muito pequeno perto do que deveria ser. Os Estados Unidos hoje têm entre 35 e 40%. A China também está nessa faixa. Nosso país conta com 8 mil quilômetros de costa e 80% da população mora a até 200 quilômetros da costa. Faz muito sentido termos o trânsito costeiro por navios, é muito mais barato, eficiente, reduz as emissões de carbono. É um modal que temos que promover. A personalização das soluções logísticas é essencial na cabotagem? Exatamente. Mais da metade do nosso volume é porta a porta: caminhão-navio-caminhão. O meu cliente não quer se preocupar com navio, ele quer a solução pronta. Então fazemos essa engenharia logística, estufamos o contêiner, estudamos a carga. Diferentemente do longo curso, o trabalho da minha equipe é muito mais de logística na veia. Eu tenho que fazer conversão de carga, trazer a carga de outros modais. Isso exige da gente um conhecimento amplo, não basta conhecer de navio e de porto. Temos que saber de caminhão, de armazém, da carga do cliente. Temos que saber o tipo de produto, onde colocar, como funciona. Temos que fazer um trabalho de inteligência e engenharia. Nosso negócio funciona diferente, o caminhão sai na porta e chega na porta. A janela portuária e a limitação de estrutura atrapalham o crescimento da cabotagem? A cabotagem precisa crescer, isso é um fato. Precisa crescer como estrutura portuária, como armadora, como transporte. Porque a cabotagem não aceita defeito. Se eu começo a complicar, o cliente volta para o transporte terrestre. Temos que fazer as coisas fluírem. Se eu começo a ser muito complexo para o cliente, ele vai embora. Posso levantar a bandeira da Aliança, porque, pelo fato de sermos integradores logísticos, dá para a gente uma margem, uma flexibilidade. Não somos dedicados à cabotagem, temos transporte aéreo, rodoviários, ferroviário, temos armazém. Isso dá uma flexibilidade para atender às necessidades dos clientes. A Aliança hoje não vende só a cabotagem pura. É nosso carro-chefe, mas como usamos o grupo Maersk como integrador, tentamos solucionar qualquer necessidade que o cliente tenha. "Hoje, ela (a cabotagem) representa cerca de 3% da matriz de transporte nacional. A gente é muito pequeno perto do que deveria ser", afirma José Roberto Duque (Silvio Luiz/ AT) E em relação ao custo? Ainda existe o mito de que a cabotagem é cara? Na realidade, a cabotagem é de 20% a 30% mais barata do que o transporte rodoviário. Mas não é só esse o nosso diferencial. Temos planos para imprevistos, plano B. Além disso, a cabotagem emite 90% menos CO2 do que o caminhão, com a mesma quantidade de mercadoria. E tem a vida: o caminhoneiro leva 12 a 14 dias para ir até Manaus. Para na estrada, tem uma logística, risco de vida, distância da família. Com a cabotagem, ele faz apenas os trechos curtos, próximo à sua base, e deixa o trecho longo para o navio. E temos maior segurança da carga no navio. Por isso a cabotagem tem que crescer. E o que precisa para isso? Estrutura portuária e retroportuária, calado. Nós temos que investir como grupo e todo mundo nessa indústria precisa fazer a sua parte. Temos que ter mais cargas na cabotagem, apostar no modal. Precisamos de um terminal novo em Santos, a gente precisa crescer. Se chegamos com um navio e temos que ficar esperando porque não tem janela ou porque o gate está fechado pelo fluxo grande de cargas, o cliente desiste e a carga vai embora. O navio de cabotagem para em qualquer terminal. Nossos navios têm capacidade para 3,5 mil TEU (unidade de medida de um contêiner padrão) a 4 mil TEU, se adequam bem. Não significa que não temos restrições de calado e de tempo de operação, acontece. O Brasil precisa olhar mais para a cabotagem, fomentar o modal. A legislação atual atende às necessidades do setor? Temos que continuar evoluindo. A Lei da Cabotagem (BR do Mar, de 2022) trouxe uma evolução bacana, mas temos que continuar trabalhando, não podemos parar. O segredo é otimizar a lei, desburocratizar, trazer benefícios para quem está investindo na cabotagem, para fomentar que as pessoas usem o modal. Só de abrirmos uma discussão já é um excelente começo. A cabotagem agora está em pauta e isso é superimportante, ser discutida como todos os modais sempre foram. Falta mão de obra qualificada para atender à expansão da cabotagem? Temos pedido apoio da Marinha, conseguimos uma parceria para lançar novos talentos. A mão de obra hoje é limitada. Estamos com um número satisfatório para operação, mas numa zona de risco. Não encontramos profissionais facilmente no mercado. Isso evita o modal de crescer. Se a gente quisesse dobrar a capacidade hoje, não teríamos profissionais suficientes. Precisamos atrair gente para a cabotagem.