“O Brasil é um mercado apaixonado por viagens e por experiências”, diz Rustico (Divulgação) Depois de 24 anos na Costa Cruzeiros e uma década atuando como presidente executivo da companhia para as Américas, Dario Rustico deixará o cargo no próximo dia 14 (Jorge Serrano Martín de Vidales assumirá o posto em janeiro de 2027). Dario é otimista com o mercado de cruzeiros no Brasil, embora acredite que precisa melhorar. Ele ressalta que Santos precisa “continuar trabalhando em infraestrutura, mobilidade, acessos, logística e experiência do passageiro, desde a chegada à Cidade até o desembarque do navio” e demonstra confiança de que a próxima década será da América do Sul. Na entrevista para A Tribuna, Dario só não quis falar sobre o acidente com o Costa Concordia e o quanto a tragédia afetou a empresa. A embarcação tombou em 13 de janeiro de 2012, ao se chocar com um aglomerado de rochas e naufragou na Itália, causando 32 mortes e deixando 64 feridos dentre as 4.229 pessoas a bordo. Depois de 24 anos na Costa, qual é o legado que o senhor deixa e o que mais mudou na indústria de cruzeiros nesse período? Tenho muito orgulho de ter contribuído para o crescimento e a consolidação da Costa em diferentes mercados e de ter acompanhado de perto a evolução das Américas. O meu maior legado está nas relações que construí e nas pessoas que caminharam comigo ao longo dessa trajetória. A indústria mudou profundamente. O cruzeiro deixou de ser visto apenas para servir à elite e passou a ser uma experiência de viagem cada vez mais completa e acessível, com gastronomia, entretenimento, destinos, bem-estar e diferentes possibilidades de personalização. O perfil do hóspede também mudou, com a chegada de públicos mais jovens e de famílias, e hoje temos uma indústria muito mais madura, tecnológica e preocupada com sustentabilidade, eficiência e experiência. Como o senhor avalia atualmente o mercado de cruzeiros da América do Sul e, particularmente, o brasileiro? A América do Sul é uma região de grande potencial e deveria ser considerada um mercado estratégico para muitos players da indústria (de cruzeiros). Temos uma combinação interessante de destinos, uma população grande, forte afinidade cultural com o produto e uma demanda que existe tanto para os cruzeiros domésticos quanto para as viagens internacionais. O Brasil tem características muito particulares. É um mercado apaixonado por viagens e por experiências, e o cruzeiro tem uma capacidade enorme de atender diferentes perfis de viajantes. Ao mesmo tempo, é um mercado que precisa aprender a competir, ter uma maior previsibilidade e condições adequadas para que as companhias possam confiar mais em investimentos a longo prazo. Existe, com certeza, espaço para crescer, mas esse crescimento precisa ser construído em conjunto por toda a cadeia turística. O Brasil já recebeu mais navios e teve mais companhias operando simultaneamente. Por que esse mercado encolheu e o que impede uma retomada mais forte? A operação de um navio é uma equação bastante complexa, que envolve demanda, custos, infraestrutura, logística, disponibilidade portuária, tributação, legislação e rentabilidade. As companhias precisam avaliar todos esses elementos conjuntamente quando definem onde posicionar seus navios. Também precisamos considerar que a indústria global de cruzeiros mudou. As companhias passaram a ter mais possibilidades de distribuição de frota e novos mercados se tornaram competitivos. Para o Brasil ter uma participação maior, é importante que consigamos criar condições para que a operação aqui seja cada vez mais competitiva em relação a outras regiões do mundo. Por que a própria Costa não destina mais navios ao Brasil? É uma questão de demanda? No meu ponto de vista, não existe um problema de demanda e de apelo comercial, mas sim situações com custos operacionais, e problemas de infraestrutura e logística, de condições portuárias e de ambiente regulatório. Dario: “Para o Brasil ter uma participação maior no setor, é importante que consigamos criar condições para que a operação aqui seja cada vez mais competitiva” (Divulgação) O que teria de mudar para a Costa considerar uma ampliação significativa de sua oferta no País? Precisamos de um ambiente que permita às companhias planejarem suas atividades com segurança e previsibilidade no longo prazo. Os posicionamentos dos navios são decididos com dois a três anos de antecedência e precisamos ter visibilidade e confiança sobre o que vai acontecer. Não sendo assim, as empresas operam de forma tática com os navios que sobram. Por isso, é essencial oferecer segurança jurídica, regras claras e condições operacionais consistentes. Não basta colocar mais navios. Precisamos criar condições para que eles sejam sustentáveis economicamente durante toda a operação. É economicamente possível manter cruzeiros no Brasil durante todo o ano? O Brasil tem atributos para receber cruzeiros durante o ano todo, mas uma operação permanente precisa ser economicamente sustentável. O calendário não depende apenas da existência de demanda. É necessário avaliar clima e sazonalidade, disponibilidade e custo de infraestrutura, destinos, portos, logística e, principalmente, a capacidade de manter uma ocupação adequada a bordo. Existe potencial para ampliar a temporada, mas isso precisa ser construído gradualmente. Quanto mais competitiva for a operação e quanto mais desenvolvida estiver a infraestrutura e a oferta dos destinos, maiores serão as possibilidades de avançar. O destino, o clima e a demanda comercial não são necessariamente um problema. Precisamos criar as condições para competir em relação à custos e regulamentação jurídica com outros destinos que também atuam por temporadas. As companhias frequentemente apontam custos e questões trabalhistas como entraves no Brasil. Quanto esses fatores realmente pesam na decisão? Custos e questões trabalhistas são fatores relevantes, mas fazem parte de um conjunto mais amplo de elementos que influenciam a decisão de posicionar, trazer ou retirar um navio do Brasil. Além dos custos de mão de obra, temos que considerar as despesas relacionadas a taxas e tarifas portuárias, serviços obrigatórios como combustível, logística, impostos e encargos regulatórios. Outro aspecto importante é a complexidade regulatória. O setor lida com a atuação de diferentes órgãos governamentais, procedimentos alfandegários e migratórios, além de regras que podem variar de um porto para outro. Quanto maior a previsibilidade e a eficiência desses processos, mais atrativo o mercado se torna. A infraestrutura portuária também tem peso significativo. Questões como capacidade dos terminais, restrições para embarcações de maior porte, instalações para embarque e desembarque de passageiros, mobilidade urbana no entorno dos portos e investimentos em modernização influenciam diretamente a experiência dos passageiros e a eficiência operacional das companhias. Somam-se a isso desafios como a limitação de destinos e homeports (portos de origem), a necessidade de ampliar a conectividade aérea e a acessibilidade dos destinos para expandir a base de clientes. Santos continua sendo fundamental para os cruzeiros brasileiros. Como o senhor avalia a infraestrutura da Cidade para receber navios e passageiros? Santos tem uma importância histórica e estratégica para o mercado brasileiro de cruzeiros. É um dos principais pontos de embarque do País e tem uma localização privilegiada em relação ao maior mercado emissor de passageiros do Brasil, que é o Estado de São Paulo. Como em qualquer grande operação turística, existem oportunidades de melhoria. Precisamos continuar trabalhando em infraestrutura, mobilidade, acessos, logística e experiência do passageiro, desde a chegada à cidade até o desembarque do navio. O crescimento do setor depende também em oferecer uma experiência integrada, e isso envolve não apenas o navio, mas toda a infraestrutura ao redor. A transferência do terminal de cruzeiros de Santos para o Valongo pode efetivamente tornar Santos mais competitiva e melhorar a experiência do turista? Toda iniciativa que contribua para modernizar a infraestrutura e melhorar a experiência do passageiro deve ser analisada com atenção. A mudança para o Valongo pode representar uma oportunidade importante para Santos, especialmente se vier acompanhada de investimentos em acessibilidade, mobilidade, integração com a Cidade e estrutura adequada para o fluxo de passageiros. O mais importante é que o novo terminal seja pensado não apenas como um ponto de embarque e desembarque, mas como parte de uma experiência turística mais ampla. A melhor infraestrutura será determinante, mas não podemos esquecer a competitividade de custos. Olhando para os próximos dez anos, o senhor acredita que o Brasil pode voltar a receber uma quantidade de navios próxima à registrada em seus melhores momentos? Com certeza. Estão sendo encomendados muitos novos navios e depende de o Brasil competir para ganhar a confiança das companhias de cruzeiros em posicionar esses ativos aqui. O mercado brasileiro tem demanda, destinos e uma população que responde muito bem ao produto cruzeiro. Depois de acompanhar esse mercado por tantos anos, o senhor é otimista ou fica preocupado com o futuro dos cruzeiros na América do Sul? Otimista. A América do Sul tem atributos muito fortes e continua sendo uma região com enorme potencial para o turismo de cruzeiros. Temos destinos, diversidade cultural, natureza, gastronomia e, principalmente, pessoas que gostam de viajar e de viver experiências. É claro que existem desafios e que precisamos continuar trabalhando para tornar a região mais competitiva. O meu desejo é que a indústria continue crescendo, gerando empregos, movimentando destinos e possibilitando que cada vez mais brasileiros conheçam o mundo a bordo de um cruzeiro marítimo. Estou confiante de que a década de 2030 vai ser a década da América do Sul.