Objetivo é que as mulheres atuem na operação, manutenção, convés, engenharia e na gestão das embarcações (Divulgação) Historicamente, a mulher foi associada às tarefas de atenção e cuidado por razões sociais, culturais e econômicas estabelecidas ao longo dos séculos. A divisão sexual do trabalho, os valores religiosos e morais e o avanço da industrialização, que reforçou o papel do homem como provedor, estão entre os fatores cujos efeitos persistem até hoje. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! No Brasil, por exemplo, cerca de 75% dos empregos no setor de apoio e serviços sociais, que inclui áreas como assistência social, enfermagem e serviços domésticos, são ocupados por mulheres. Já em segmentos tradicionalmente masculinos, como o portuário, embora haja avanços na ocupação de cargos administrativos e operacionais, elas ainda permanecem à margem, concentradas em funções vistas como extensões “naturais” de seu papel de atenção ao outro. No ambiente marítimo, essa lógica histórica também se reproduz. Segundo Aline Carvalho, diretora de Gente, Gestão e Frota da Norsul, as funções ligadas ao cuidado de pessoas, como cozinha e enfermagem, carregam uma carga simbólica profunda. “São papéis historicamente associados às mulheres, ligados ao ato de nutrir, proteger e servir”, observa. A gestora participou do lançamento do projeto Mulheres a Bordo, promovido pelo Grupo Tribuna em parceria com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), em abril deste ano. Ela explica que, a bordo, esses cargos refletem a estrutura da própria sociedade, em que as mulheres tendem a ser reconhecidas e valorizadas sobretudo quando permanecem dentro desse território simbólico. “É o fenômeno da gaiola dourada, em que há prestígio e admiração, mas também limitação e aprisionamento”, observa. Aline destaca ainda que a responsabilidade de atenção ao outro ultrapassa as fronteiras das funções formais. “Mesmo quando não estão oficialmente em atividades de assistência, as mulheres são, de algum modo, chamadas a mediar. Elas acabam resolvendo conflitos, acolhendo emoções, percebendo tensões e equilibrando relações. Esse papel se torna uma expectativa implícita, uma função silenciosa que acompanha a presença feminina, independentemente da posição que exerçam”, afirma. Na Norsul, a executiva afirma que há um esforço contínuo para romper com esse padrão, ampliando a participação feminina a bordo. O objetivo é que elas também atuem na operação, manutenção, no convés, na engenharia e na gestão da embarcação. “Essa ampliação não é apenas uma questão de representatividade, mas de competência e oportunidade”, ressalta. Para Aline, promover essa transformação exige mais do que abrir vagas. “O desafio é enorme, porque não se trata apenas de abrir espaço para as mulheres em outras funções, e sim de desconstruir um padrão profundamente enraizado, inclusive, e talvez principalmente, nas próprias mulheres”, reconhece. De acordo com ela, muitas acabam se identificando com o papel de assistência e sentem prazer e reconhecimento nele. Há afeto, dignidade e valor em cuidar, e é justamente por isso que o processo de letramento e desconstrução é tão delicado. “Não é sobre negar essa função, mas sobre libertá-la do gênero.” O caminho, segundo a executiva, é ampliar possibilidades sem deslegitimar experiências que deram sentido e força a tantas mulheres. “É preciso reconhecer que, para muitas, o espaço da cozinha, da enfermagem e do acolhimento foi também o local onde puderam exercer autonomia, poder e pertencimento. Romper com a gaiola dourada não significa negar esse valor, mas questionar por que ele precisa estar limitado a esse território.” Aline cita uma frase de Clarice Lispector que a inspira nesse processo: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o edifício inteiro. “A frase traduz a atenção e o zelo que precisamos ter nesse processo. Às vezes, o que chamamos de ‘defeito’, como a dedicação excessiva, a doação ou a busca por reconhecimento, é justamente o que sustentou trajetórias de resiliência, de sobrevivência e de força”, explica. Por isso, ela conclui, o movimento de transformação precisa ser sensível e profundo, pois não se trata de apagar o passado, mas de dar novos significados a ele. A Norsul tem buscado fazer isso: reconhecer o valor da dedicação ao outro, mas ao mesmo tempo ampliar as fronteiras do possível. “Queremos que as mulheres possam estar onde quiserem, inclusive nos espaços que historicamente lhes foram negados. E que essa atenção, quando existir, seja uma escolha consciente, não uma imposição silenciosa.” Mediação “Mesmo quando não estão oficialmente em atividades de assistência, as mulheres são, de algum modo, chamadas a mediar. Elas acabam resolvendo conflitos, acolhendo emoções”, Aline Carvalho