Valéria Provete e Milena Giglioti (Divulgação) A presença das mulheres no ambiente de trabalho marítimo-portuário não é recente, mas ainda encontra espaços de resistência. Um deles é nas posições de liderança. De acordo com levantamento feito pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) em 2023, as mulheres ocupam somente 17,3% do total de vagas no setor. Em cargo de dirigente, o índice é ainda menor: 13%. Mas quem “furou a bolha” pode indicar caminhos a serem seguidos e ainda ajudar a implementar políticas que auxiliem o percurso de outras mulheres. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! É o caso da gerente-executiva de Gestão de Pessoas e Diversidade da Santos Brasil, Milena Giglioti. Na empresa há quatro anos, ela entende que esse tipo de preocupação só encontra eco quando a política da empresa é autêntica. “(Ocupar esse cargo) é um orgulho, mas também um desafio. Sempre tive como premissa que não há diferença, apesar de perceber isso no nosso dia a dia, nas dificuldades que são impostas. Mas, aqui, me foi dado o espaço onde pude acreditar como propósito. Porque, senão, fica difícil tocar um projeto dessa magnitude, mexendo com tantas vidas”, afirma. Para ela, o momento de participar das rodas de conversa com as mulheres é quando cai a ficha do quão representativo é ter essa posição, e o quanto a liderança se torna referência para as pessoas. “A responsabilidade aumenta, mas a vontade de fazer diferente, o certo, cresce ainda mais. Não precisei, em nenhum momento, me mascarar, ter comportamentos diferentes por ser mulher, de pensar em masculinizar alguns pontos. Me vi extremamente respeitada desde o começo”, pontua. Um exemplo da preocupação da empresa pode ser comprovado na formação de líderes: atualmente, são 30% de mulheres em posição de liderança. A meta é chegar a 35% até 2030. “Além disso, neste ano, 51 vagas afirmativas (para mulheres) foram inicialmente oferecidas, mas houve 96 contratações”, acrescenta Milena. Inspiração Valéria Becalli Provete, gerente de novos negócios da Portocel, no Espírito Santo, demonstra que a jornada, mesmo longa, pode ser vitoriosa. Trabalhando no setor portuário, há 14 anos especificamente com logística, ela entende o espaço ainda como “conservador” em muitos aspectos. “Em alguns momentos, notei que as lideranças eram compostas exclusivamente por homens. Não havia muito espaço, ainda, para uma atuação feminina”, espanta-se. Com o tempo, o panorama vem mudando um pouco, em uma realidade cuja reversão é necessária. “As mulheres são primordiais para trazer um pouco mais de diversidade enquanto pensamento, forma de condução de processos, ambientes acolhedores, cuidado com pessoas. Aqui na Portocel temos trabalhado isso sob dois vieses: um de representatividade feminina no ambiente como um todo, além de uma ação forte para aumento de representatividade nos cargos de liderança, onde a gente possa conectar um olhar de mudança de cultura organizacional estabelecida”, argumenta Valéria. Ela reforça, especialmente nas profissionais mais jovens ou que estão chegando ao mercado, uma inspiração e uma aspiração: não se deixar colocar em determinadas “caixas” pré-estabelecidas. “O grande desafio é abrir esse leque de opções e entender onde a gente pode entregar mais resultados, mais reflexões, conectar mais pontes. E o setor logístico exige uma dinâmica natural, pela própria característica do negócio, de soluções rápidas e pensamentos ágeis, e que é mais uma oportunidade para que as mulheres se posicionem”, aponta a gerente. Ela, que hoje serve como inspiração, já teve em quem se espelhar. “A gente teve na superintendência do terminal, por quase dez anos, uma mulher. Ela passou pela gerência de operações, depois gerência-geral e, por fim, uma superintendência, defendendo um olhar para o desenvolvimento do setor, não só no Espírito Santo, mas com representatividade nacional. Esteve à frente de associações, rompendo uma série de paradigmas. Isso sempre foi muito inspirador”, resume. Agência vai pesquisar presença feminina A diretora da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Flávia Takafashi, lembra que o trabalho sobre mulheres no setor publicado no ano passado é fruto da insistência e da necessidade de dados fieis à presença feminina no ambiente portuário. E, segundo ela, o levantamento deve passar a ser bienal, ou a cada dois anos, a partir de 2025. “O Brasil não dispunha desses dados específicos, da participação de mulheres no setor. Então, a Antaq, que tem a expertise de levantar, anualmente, os dados de movimentação portuária, utilizou essa experiência de dados estatísticos e fez um levantamento com as áreas portuária e marítima, para saber quantas mulheres faziam parte desse setor”, lembra. Para Flávia, o ambiente portuário, ainda predominantemente masculino, é um obstáculo, mas que pode ser vencido pelas mulheres. “Elas precisam estar, cada vez mais, nas posições de base, para terem a oportunidade de ascender às posições de liderança. Acaba sendo um funil natural. O que a gente percebe, no setor como um todo, é que as mulheres precisam de mais oportunidades”, raciocina a diretora. Teto de vidro Única mulher presente na diretoria da Antaq em mais de 20 anos, ela pondera que o cargo que ocupa não é em função dessa condição, mas sim da abertura de fronteiras. “Você tem essa dificuldade na chegada, porque estamos em poucos espaços. Mas a oportunidade vai surgindo de acordo com a capacitação. Temos que estar sempre prontas e preparadas, para a gente criar essas oportunidades. É um desafio, mas o setor me acolheu muito bem. Já vinha dessa trajetória. Mas sempre digo: quando tomei posse, em 2021, afirmei ‘mulheres, sentem-se à mesa!’. É uma questão, também, de as mulheres estarem, cada vez mais, dispostas a ocupar esse espaço”. Flávia Takafashi resume, de forma precisa, o tamanho da conquista ao ocupar um cargo de liderança como o atual. “O setor tem aberto, cada vez mais, espaço paras lideranças femininas. Aliar as trajetórias profissionais a esse olhar de dar oportunidade, vai favorecer um ambiente cada vez mais de inclusão. Para a primeira que quebra o ‘teto de vidro’, acaba sendo mais difícil. Mas, depois, o objetivo é que essas oportunidades sejam abertas”, finaliza.