(Gerada por IA) A análise de que a China opera sob um modelo definido pelo próprio país como “socialismo com características chinesas”, combinando forte coordenação estatal com mecanismos de mercado, ajuda a compreender alguns dos desafios e oportunidades que também se apresentam ao Brasil. As observações realizadas durante a Missão Internacional Porto & Mar 2026, promovida pelo Grupo Tribuna, permitiram uma reflexão sobre as diferenças de estratégia, infraestrutura, tecnologia e planejamento entre as duas nações, especialmente sob a perspectiva logística e portuária. A passagem da comitiva brasileira por Pequim e Xangai evidenciou que o avanço tecnológico chinês não é resultado apenas da iniciativa privada ou de circunstâncias econômicas favoráveis. Trata-se de um projeto de longo prazo que integra governo, universidades, centros de pesquisa e empresas em torno de objetivos estratégicos. Durante a missão, os participantes visitaram empresas como a SenseTime, referência em inteligência artificial, e a UiSee, especializada em veículos autônomos. As visitas demonstraram como tecnologias baseadas em dados e inteligência artificial são aplicadas em operações logísticas, mobilidade urbana e sistemas de monitoramento em larga escala. Mais do que automatizar processos, a estratégia chinesa busca utilizar dados para prever comportamentos, reduzir desperdícios, aumentar eficiência operacional e apoiar a tomada de decisões em tempo real. A percepção deixada pela missão é que a transformação digital não ocupa uma posição periférica nas organizações chinesas. Em muitos casos, ela constitui o núcleo do planejamento empresarial e governamental. Outro exemplo observado foi a ZPMC, fabricante de equipamentos portuários presente em terminais de diversos países. A empresa construiu sua liderança global não apenas pela capacidade industrial, mas também pelo domínio logístico. Além de produzir equipamentos de grande porte, desenvolveu uma estrutura própria para transporte internacional, reduzindo dependências e aumentando sua competitividade. A presença de instalações voltadas ao relacionamento com clientes e fornecedores dentro do complexo industrial também demonstra uma visão integrada do negócio, em que produção, logística, hospitalidade e relacionamento comercial fazem parte de uma mesma estratégia. O aspecto mais relevante, porém, não está apenas na escala das operações, mas na capacidade de planejar investimentos e executar projetos de longo prazo. Diferenças Ao comparar as trajetórias de desenvolvimento da China e do Brasil, torna-se evidente a diferença entre modelos de planejamento. A China trabalha historicamente com planos plurianuais que estabelecem prioridades nacionais em áreas como infraestrutura, tecnologia, energia, educação e indústria. No Brasil, por outro lado, é comum que programas e projetos sejam alterados ou interrompidos em função das mudanças de governo. Essa descontinuidade frequentemente dificulta a consolidação de políticas públicas de longo prazo. Embora os contextos políticos e institucionais sejam distintos e não diretamente comparáveis, a diferença na capacidade de execução estratégica chama atenção. Outro contraste observado está na forma como cada país trata a infraestrutura. Nas últimas décadas, a China realizou investimentos massivos em portos, ferrovias, rodovias, energia e telecomunicações, criando uma base capaz de sustentar seu crescimento industrial e comercial. O Brasil possui vantagens competitivas importantes, especialmente em recursos naturais e produção agroindustrial. No entanto, ainda enfrenta gargalos logísticos que elevam custos e reduzem competitividade. A deficiência de infraestrutura impacta diretamente a produtividade nacional e limita o potencial de integração do país às cadeias globais de valor. A experiência chinesa também evidencia a importância de ambientes previsíveis para investimentos de longo prazo. Apesar das diferenças institucionais entre os dois países, investidores tendem a valorizar estabilidade regulatória, clareza de regras e capacidade de execução. No Brasil, empresários frequentemente apontam a complexidade tributária, a burocracia e a insegurança regulatória como obstáculos relevantes ao crescimento econômico. A simplificação de processos e a melhoria do ambiente de negócios continuam sendo desafios centrais para ampliar a competitividade nacional. Qualquer análise comparativa entre China e Brasil também passa por fatores culturais e históricos. O desenvolvimento chinês exigiu décadas de transformações econômicas profundas, acompanhadas por intensos processos de urbanização, migração interna e adaptação social. Milhões de pessoas participaram diretamente da construção da infraestrutura, da expansão industrial e da modernização econômica que permitiram ao país alcançar os níveis atuais de desenvolvimento. Os custos sociais desse processo são objeto de debate internacional, mas é inegável que houve uma mobilização nacional orientada para objetivos de longo prazo. No caso brasileiro, desafios históricos como desigualdade, baixa qualidade da educação básica, corrupção, burocracia e instabilidade institucional continuam impactando a capacidade de crescimento sustentável. Papel estratégico dos portos Uma das principais lições observadas durante a missão é a forma como a China enxerga seus portos. No país asiático, os portos não são tratados apenas como estruturas de embarque e desembarque de cargas. Eles fazem parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento econômico, integração industrial e inserção internacional. O Porto de Xangai, por exemplo, opera conectado a parques industriais, centros logísticos, redes ferroviárias e sistemas digitais altamente integrados. A eficiência logística é entendida como um fator estratégico de competitividade nacional. Outro aspecto relevante é o avanço da automação. Diversos terminais chineses operam com elevados níveis de digitalização, utilizando inteligência artificial, sensores e equipamentos automatizados para aumentar produtividade e reduzir custos. Visão estratégica e educação A visão estratégica chinesa também ultrapassa suas fronteiras. Nos últimos anos, empresas chinesas ampliaram investimentos em infraestrutura, energia, logística e transporte em diversos países da América Latina. No Brasil, grupos chineses participam de projetos relevantes nos setores portuário, energético e de transportes, refletindo o interesse do país asiático em fortalecer cadeias de suprimento e garantir acesso a matérias-primas estratégicas. Essa presença evidencia tanto oportunidades de investimento quanto a necessidade de o Brasil desenvolver sua própria capacidade de planejamento e financiamento de longo prazo. Uma das conclusões mais importantes da Missão Internacional Porto & Mar 2026 é que eficiência operacional, inovação tecnológica e gestão baseada em dados deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem requisitos básicos. O mundo caminha rapidamente para modelos produtivos cada vez mais integrados à inteligência artificial, automação e análise de dados. Nesse cenário, países que não investirem em educação, ciência, infraestrutura e inovação correm o risco de perder competitividade. O Brasil possui vantagens significativas, incluindo dimensão territorial, recursos naturais, mercado consumidor e localização estratégica. Entretanto, transformar essas vantagens em desenvolvimento sustentável exige planejamento consistente e continuidade institucional. Outro ponto frequentemente debatido é a redução da participação da indústria na economia brasileira nas últimas décadas. Enquanto a China utilizou sua base industrial como plataforma para avançar posteriormente em setores de maior valor agregado, como tecnologia, inteligência artificial e semicondutores, o Brasil enfrenta dificuldades para ampliar sua capacidade industrial e tecnológica. Isso contribui para uma relação comercial em que o país exporta predominantemente commodities e importa produtos industrializados de maior complexidade tecnológica. O desafio não está em abandonar os setores nos quais o Brasil já é competitivo, mas em agregar mais conhecimento, tecnologia e inovação à sua produção. Nenhuma transformação econômica ocorre sem investimento em capital humano. A China investiu fortemente na formação de engenheiros, cientistas e profissionais especializados em tecnologia. Ao mesmo tempo, ampliou sua capacidade de pesquisa e desenvolvimento. O Brasil ainda enfrenta dificuldades para universalizar uma educação básica de alta qualidade e ampliar sua produção científica em escala compatível com seus desafios econômicos. Fortalecer a educação, incentivar a pesquisa e criar ambientes favoráveis à inovação são etapas fundamentais para qualquer estratégia de desenvolvimento nacional. O que o Brasil pode aprender A principal lição da experiência chinesa não é reproduzir seu modelo político ou econômico, mas compreender a importância do planejamento de longo prazo. Nenhum país se transforma em potência tecnológica apenas por possuir recursos naturais ou vantagens geográficas. O desenvolvimento exige continuidade, investimento, metas claras e capacidade de execução. A comparação entre Brasil e China revela menos uma disputa entre modelos e mais uma diferença de prioridades ao longo das últimas décadas. O Brasil não está condenado ao atraso nem a uma posição secundária na economia global. Mas superar seus desafios exige um projeto nacional capaz de atravessar governos, ciclos eleitorais e interesses imediatos. A pergunta, portanto, não é se o Brasil “deu errado”. A questão central é se o país será capaz de construir consensos duradouros sobre educação, infraestrutura, inovação, produtividade e competitividade. A experiência observada durante a Missão Internacional Porto & Mar 2026 sugere que o futuro pertence às nações que conseguem transformar planejamento em execução, conhecimento em tecnologia e visão estratégica em resultados concretos para a sociedade. *Maxwell Rodrigues, consultor para assuntos portuários do Grupo Tribuna.