A Maratona Internacional de Maceió, em Alagoas, marcada para os próximos sábado (1º) e domingo (2) vai prejudicar a movimentação do porto da capital alagoana com interrupção das atividades. A situação é alvo de reclamações do setor. Sindicatos e empresas afirmam que os bloqueios previstos nas vias de acesso ao complexo portuário vão impedir a entrada e a saída de caminhões e trabalhadores, afetando operações agendadas e a economia. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O assunto causou protestos formais à Administração do Porto de Maceió. “O Porto de Maceió possui uma dinâmica operacional diretamente influenciada pela sazonalidade de determinadas cargas. Neste período, há uma expectativa de aumento das operações e, especificamente no fim de semana da realização da maratona, é esperada a atracação de três navios, o que representa um momento de grande movimentação para o complexo portuário e de grande expectativa para os trabalhadores portuários avulsos”, afirma o diretor do Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo) de Maceió, Thiago Leite. Além dos impactos logísticos, Leite também destaca o aspecto social da questão. “Os avulsos são remunerados de acordo com as operações efetivamente realizadas. Assim, eventuais atrasos ou prejuízos à logística portuária podem repercutir na produtividade das operações e, consequentemente, na remuneração desses trabalhadores, justamente em um período de grande expectativa em razão do aumento do volume de cargas”. Sindicatos Em carta conjunta assinada pelos presidentes dos sindicatos dos Estivadores, dos Arrumadores, ambos do estado de Alagoas, e dos Conferentes e Consertadores de Carga e Descarga do Porto de Maceió, é lembrado que o problema se agrava porque se trata de final de semana, “ocasião em que os salários e as taxas de produção são acrescidos dos adicionais noturno e de fim de semana, de modo que o ganho dos trabalhadores, ali, seria substancialmente maior”. O presidente do Sindicato dos Conferentes e Consertadores de Carga e Descarga do Porto de Maceió, Marcos Antônio de Oliveira, deixa claro que as entidades não são contrárias ao turismo e ao esporte, mas que a produtividade e cerca de 500 trabalhadores não sejam prejudicados. “Passamos quase três meses com um ou dois navios por mês. E aí, quando chegam embarcações, como vamos dizer à nossa família que não vamos levar o pão de cada dia?”, questionou. “Isso vai dificultar o serviço e, se para, é prejuízo”, acrescenta Josinaldo Constantino dos Santos, presidente do Sindicato dos Arrumadores no Estado de Alagoas. “Somos trabalhadores avulsos e não temos renda fixa. O final de semana é quando ganhamos um trocado melhor para o sustento de nossa família”, reforça Sydnss Fernando dos Santos Costa, presidente do Sindicato dos Estivadores no Estado de Alagoas. (Divulgação) Empresas A Macelog Serviços Portuários também encaminhou ofício à Administração do Porto de Maceió observando que, no período em questão, estarão em andamento embarque de 15 mil toneladas de açúcar ensacado, descarga de 10 mil toneladas de fertilizantes e de 5.600 toneladas de betume (material que provém do refino do petróleo usado como verniz, massa de revestimento e base para pintura). “Quanto à mitigação dos prejuízos, não tenho como aferir, porém os demurrages (sobre-estadias) de navios parados por dia são altíssimos, estando na casa de US\$ 30 mil a US\$ 60 mil. E ainda têm as transportadoras que tem que absorver o custo de caminhão parado, além do prejuízo para o trabalhador avulso”, calcula o gerente da Macelog, Ronald Wlisses Vasconcelos Ávila. A Federação Nacional das Operações Portuárias (Fenop) também enviou documento para a Administração do Porto de Maceió com o propósito de "destacar a imprescindibilidade da preservação das condições necessárias ao regular funcionamento do porto organizado, considerando que a atividade portuária é reconhecida pelo ordenamento jurídico brasileiro como serviço essencial, indispensável ao abastecimento, à logística nacional e à continuidade das cadeias produtivas". "Assim, confiamos que essa Administração adotará todas as medidas necessárias para assegurar a manutenção da normalidade operacional do Porto Organizado de Maceió, garantindo o livre acesso de trabalhadores, veículos de carga e demais usuários às instalações portuárias durante todo o período anunciado para a realização do evento", finalizou, no documento, o presidente da entidade, Sérgio Aquino. Encontros Duas reuniões foram realizadas sobre o tema - uma no último dia 23 e a outra nesta segunda-feira (27). “Ficou definido que os departamentos jurídicos do Porto de Maceió, das operadoras portuárias Macelog e Irmãos Britto Representações e Comércio - outra empresa que também enviou protesto formal - e do próprio Ogmo elaborarão conjuntamente um documento técnico-jurídico a ser encaminhado aos organizadores do evento e à Federação Internacional das Maratonas, demonstrando a particularidade operacional do Porto de Maceió e buscando uma solução que permita preservar o acesso ao complexo portuário durante a realização da prova”, afirma o diretor do Ogmo, Thiago Leite. Leite destaca que a convivência entre eventos esportivos e a atividade portuária não é novidade. O Porto de Maceió fica no bairro histórico de Jaraguá, região por onde tradicionalmente passam os percursos das corridas de rua realizadas na capital. “Ao longo dos anos, diversas corridas foram realizadas na região sem prejuízo ao funcionamento do Porto, justamente porque era adotado o sistema conhecido como 'pare e siga', no qual o fluxo de veículos é interrompido apenas durante a passagem dos atletas e liberado em seguida, permitindo que as operações portuárias continuem normalmente”, recorda. A diferença é que esse sistema ao longo do percurso não poderia ser usado na primeira edição da Maratona Internacional de Maceió, segundo a organização da prova informou durante os encontros realizados, em razão das exigências relacionadas à certificação internacional da prova. "Essa excepcionalidade é o que motivou a preocupação dos diversos agentes que atuam no Porto e deu origem às discussões atualmente em curso”, afirma. Procurada, a Administração do Porto de Maceió não respondeu até a publicação da matéria. (Divulgação/Antaq) Organização A Done Sports, organizadora da Maratona Internacional de Maceió, também foi procurada pela Reportagem. O proprietário da empresa, Lucas Romariz, esclareceu que “o evento vem sendo planejado e divulgado desde novembro do ano passado, com ampla antecedência e em constante diálogo com todos os órgãos envolvidos. A comunicação oficial ao Porto de Maceió foi realizada dentro dos prazos solicitados e, ao longo de todo o processo de organização, a equipe permaneceu à disposição para reuniões e tratativas, buscando construir soluções que minimizassem os impactos operacionais”. Romariz explica que a passagem da prova pela região do porto integra um planejamento técnico e estratégico. “Cerca de 50% dos participantes são de outros estados e países e, desde o início da concepção do evento, foi definido que a maratona utilizaria a orla marítima, principal cartão-postal e polo turístico da cidade. Além disso, como se trata de uma prova de 42,195 km, os 17 km de extensão da orla não seriam suficientes para compor o percurso. A utilização desse trecho também contribui para manter uma altimetria mais baixa, característica importante para uma maratona certificada (pela World Athletics) e com potencial competitivo”. Como resultado do diálogo com os órgãos envolvidos, Romariz explica que a organização estruturou uma operação para reduzir ao máximo o período de interrupção do fluxo. A montagem da estrutura, segundo ele, será realizada entre 22h e 3h, permitindo que a interdição completa ocorra apenas durante a passagem efetiva dos atletas pelo trecho em frente ao porto. “No sábado, a interrupção será necessária aproximadamente entre 4h e 8h. No domingo, entre 4h e 10h. Esse procedimento é indispensável porque a Maratona Internacional de Maceió segue as normas técnicas da World Athletics para provas certificadas, que exigem um percurso totalmente livre de interferências durante a competição. Não se trata apenas de uma travessia de pista, mas de um fluxo contínuo de corredores ao longo de todo o percurso”, detalha. A organização também entende que é possível construir uma operação conjunta que preserve tanto a dinâmica do Porto quanto a realização da prova. “A proposta é otimizar a janela anterior à largada para que o maior número possível de caminhões possa acessar o terminal antes da interdição temporária, reduzindo impactos às operações. Durante todo o processo, a organização tem buscado soluções construídas em conjunto, de forma que nenhuma das atividades seja inviabilizada”. A organização reforça que permanece “em diálogo permanente com o Porto de Maceió e os demais órgãos competentes para buscar o melhor entendimento possível, preservando a segurança dos atletas, o funcionamento das atividades portuárias e a realização de uma prova internacional certificada”. A prova A Maratona Internacional de Maceió reunirá 13,2 mil atletas de todos os estados brasileiros e de 13 países. Na sexta-feira (31), haverá a Maratoninha para crianças. As disputas principais começam no sábado (1º), com as provas de 5 km, 10 km e meia-maratona (21 km). No domingo (2), será realizada a maratona de 42 km. A meia-maratona concentra o maior número de inscritos, com 5.461 atletas. Os 10 quilômetros reúnem 3.165 corredores, enquanto os 5 quilômetros contam com 2.209 participantes. A maratona de 42 quilômetros soma 2.283 inscritos, além das 200 crianças da Maratoninha. O quantitativo de atletas por prova é superior ao número total de inscritos por categoria, já que parte dos participantes está inscrita no Desafio, modalidade que combina mais de uma distância ao longo do fim de semana e, por isso, é contabilizada nas respectivas provas.