Exportador de commodities, como o açúcar, Brasil deve sentir impactos das medidas nos próximos meses. (Alexsander Ferraz/AT) A ‘guerra comercial’ entre Estados Unidos e China, iniciada neste mês, que culminou na sobretaxação de importações, tende a desacelerar a economia global e poderá surtir efeitos no Brasil nos próximos meses, segundo especialistas ouvidos por A Tribuna. Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs uma sobretaxa de 25% sobre o aço e o alumínio importados de todos os países, a China praticou taxas de 15% para carvão e gás natural e 10% sobre o petróleo, máquinas agrícolas, carros de altas cilindradas e picapes, todos importados dos EUA. Em 2024, o Brasil foi o segundo maior fornecedor de aço e ferro aos EUA, com uma participação de 14,9% do total importado pelo país, atrás apenas do Canadá (24,2%). Essas exportações somaram US\$ 4,677 bilhões (cerca de R\$ 27 bilhões) em receita. Já na balança comercial brasileira, os EUA compraram 47,9% do total de aço e ferro nacionais exportados, seguido da China, o segundo maior comprador, com 10,7%. Especialistas O presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, avaliou que o aumento de tarifas afetará a economia global. “A China e os Estados Unidos são os dois maiores parceiros mundiais no comércio exterior. A China é o maior exportador e os Estados Unidos, o maior importador. Então, essas medidas vão desacelerar a economia no mundo”. Ele explica que aço e alumínio, por exemplo, são matérias-primas para diversos produtos manufaturados, que serão afetados com as alíquotas. “Então, isso gera uma insegurança no mercado internacional. Agora, todo mundo vai pensar duas vezes antes de fazer negócio”, afirmou Castro. O especialista pontuou que a procura por commodities tende a cair com a desaceleração econômica no mundo. “Quem define os preços das commodities é o mundo, não é o Brasil. Com a desace-leração na demanda por commodities, nós podemos perder em preço e volume de vendas. É um cenário de perde-perde, não de ganha-ganha, e a gente vai perder”. Castro não projeta boas perspectivas para 2025. “O Custo Brasil é muito alto e buscar um mercado alternativo nesse momento não é uma possibilidade, porque não temos muito a oferecer”. Ele diz que 85% do que o Brasil importa são produtos manufaturados e 65% do que exporta são commodities. “Ou seja, nossa balança comercial tem uma pauta pobre. Quanto mais o mercado internacional oscilar, maior será a chance de instabilidade para nós”. Por fim, Castro analisa que o Brasil poderá sentir os impactos das sobretaxas daqui a três a seis meses, porque o que está sendo entregue hoje foi comprado antecipadamente, antes da decisão de Trump. “Possivelmente, as empresas que estão sendo atingidas vão rediscutir contratos e essas novas bases vão aumentar custos”. Especialista: procurar outras rotas O CEO da empresa China Link, Lincoln Fracari, que é especialista e consultor na área de negócios com a China, afirma que medidas protecionistas são comuns para promover a indústria local. “O Brasil cobra uma sobretaxa de 20% de importação sobre o etanol. Os Estados Unidos exportam etanol para nós e nós sobretaxamos eles. Então, isso já faz parte do dia a dia”. Fracari diz que uma alternativa ao Brasil seria trocar os EUA pela China. “Exportar mais para a China, que já é o nosso primeiro cliente. Talvez, focar no Oriente Médio, Rússia e mudar um pouco o volume de onde o aço está vindo”. Porém, o especialista observa que a queda nas exportações poderá baratear o preço do aço para comercialização no País. “Se houver oferta em excesso, a tendência é o preço ficar mais barato no mercado interno. Em um outro cenário, uma maior oferta de aço pode levar cada país a consumir o próprio produto”. Cais santista Em relação ao Porto de Santos, ele afirmou que “pode acontecer uma redução das rotas para os Estados Unidos por causa da sobretaxa. Mas, em um segundo momento, com um rebalanceamento de compras e demanda no mundo, isso vai se equilibrando”. Lincoln acha que é possível um impacto a curto prazo, mas que pode se nivelar nos próximos meses com o encontro de potenciais países parceiros. “Se não houver, há uma possibilidade dessa demanda ser revertida para o mercado interno”, detalha o especialista.