Fontes já fez mais de 30 mil manobras em navios e teve a vida transformada no livro que lançará amanhã (Alexsander Ferraz/AT) Prático há 57 anos, o presidente da Praticagem de São Paulo, Fábio Mello Fontes, de 87 anos, decidiu qual rumo seguiria na vida ainda menino. Aos 9 anos, enquanto observava fascinado os navios pelo canal do Porto de Santos, começava a traçar o caminho que o levaria à Marinha Mercante e, em 1969, à praticagem. Agora, o homem que manobra navios e conduz a própria vida com paixão, garra e ímpeto conta sua trajetória no livro “Fábio Mello Fontes, uma lenda dos Mares”. A biografia será lançada amanhã, às 17 horas, na Pinacoteca Benedicto Calixto (Avenida Bartolomeu de Gusmão, 15), em Santos. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O livro, escrito por Ivani Cardoso e Maria Fernanda Rodrigues, com coordenação editorial de José Rodrigues, reúne histórias pessoais, familiares e profissionais de uma trajetória que começou muito antes de ele subir pela primeira vez a bordo de um navio como prático. Em uma entrevista descontraída, Fontes falou com orgulho de sua dedicação intensa para ingressar na Praticagem de São Paulo. “Eu já era casado, pai de três filhos pequenos e queria garantir o futuro deles. Comecei a estudar para o processo seletivo em 10 de abril de 1968. Eu estudava 15 horas por dia. Em janeiro de 1969, entrei na Praticagem”, disse ele. “A profissão e a família são o meu norte”, ressaltou. O resultado daquela maratona de estudos foi o primeiro passo de uma carreira que atravessaria mais de cinco décadas. Ao longo da vida profissional, alcançou aproximadamente 30 mil manobras. Sempre disposto Nesse tempo, Fontes viu o Porto de Santos mudar, os navios crescerem e a tecnologia transformar a atividade. Mas uma coisa permaneceu intacta: o prazer de estar a bordo. “Ser prático é vocação. Pode ser madrugada, chover, ventar, fazer frio. Se houver um navio esperando por mim, lá eu estarei. É o meu jeito de ser. Não sei ser diferente”. Na Marinha Mercante, ele exerceu todas as funções a bordo, inclusive foi comandante, ainda que interinamente, de um navio da Petrobras. Mas, a saudade de casa falou mais alto e, então, ele optou pela praticagem. “Eu passava três meses a bordo na Marinha Mercante. Mas, na praticagem eu encontrei a possibilidade de continuar perto do mar sem passar meses longe”. Vida pessoal também é destaque em obra: entrada na profissão foi pensando na família (Arquivo Pessoal) Lembranças da vida Além de entrevistas com Fontes, familiares, amigos e colegas de profissão, a obra também resgata parte da história da praticagem e episódios que ajudam a entender a evolução da atividade nos portos de Santos e São Sebastião. Entre muitas memórias contadas no livro, Fontes destacou a que considera inesquecível. “Foi o dia em que embarquei no porta-aviões São Paulo, da Marinha do Brasil, que veio do Rio de Janeiro para Santos com o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Eu passei 20 minutos conversando com o presidente na ponte de comando. Meses depois, recebi uma fotografia autografada daquele encontro”, lembrou. O porta-aviões chegou ao Porto de Santos em 28 de abril de 2001. Na Marinha Mercante, ele exerceu todas as funções a bordo, inclusive foi comandante (Arquivo Pessoal) Parar? Ainda não Viúvo desde 2023, Fontes conta que reencontrou o amor. Conheceu a atual namorada há 42 anos, perdeu o contato e, décadas depois, graças à internet, conseguiu localizá-la. Ela também é viúva. Hoje, os dois vivem um relacionamento à distância, entre visitas e encontros. “Estou em lua de mel”. Fontes disse que se considera um “idoso fora da curva”. Segundo ele, “a idade está na certidão de nascimento, na cabeça, não. Sou apaixonado pela vida”, afirmou. Talvez, essa seja a melhor definição para um homem que passou quase seis décadas manobrando navios e, no decurso de toda a sua vida, aprendeu a fazer algo parecido consigo mesmo: ajustar o rumo, enfrentar o vento, respeitar as marés e seguir em frente. Fontes é um prático. Manobra navios, mas também a própria vida com a experiência de quem conhece os riscos. No entanto, mantém a coragem e o entusiasmo para desbravar novos horizontes. Sobre o futuro? “Eu quero completar 88 anos, em 10 de maio de 2027, a bordo de um navio. Eu sou um sujeito que estou de bem com a vida”, concluiu.