Pedro Doria: “O escoamento na direção dos portos ainda é um problema. A gente devia fazer o transporte hidroviário e o ferroviário. E só fazemos parcialmente” (Sílvio Luiz/AT) A fala do jornalista e escritor Pedro Doria é absolutamente franca e direta. Com larga experiência em redações e criador do canal do YouTube Meio, que trata de temas da atualidade, Doria conversou com A Tribuna sobre economia, política e, claro, o setor portuário. As ligações entre os três assuntos surgiram naturalmente, desde as dificuldades na infraestrutura até o escoamento das mercadorias nos portos brasileiros, movidas por generosas doses de polarização política e incertezas econômicas. A entrevista foi concedida durante o evento comemorativo dos 65 anos da Advocacia Ruy de Mello Miller (RMM), realizado na quinta-feira, no auditório do Grupo Tribuna, e que contou, na programação, com uma palestra do jornalista. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O senhor costuma analisar as grandes transformações políticas e econômicas do mundo. Como o Brasil se posiciona hoje nesse cenário? Como muitos outros países no Ocidente, o Brasil vive uma crise democrática, que é de representação. É uma crise à qual a gente vai ter que sobreviver de alguma forma. O Brasil não está sozinho nisso. A maneira como as pessoas se comunicam e se informam se transformou. Ao mesmo tempo, houve uma profunda mudança na base da sociedade brasileira. O Brasil era um país pobre e, hoje, é um país de classe média, embora de classe média baixa. Isso muda as expectativas da sociedade em relação aos políticos. A gente não vai escapar de algumas reformas. E estamos travados em um processo de polarização no qual está aproximadamente metade da sociedade brasileira. Antes de 2030, não tem cara que isso vai mudar. Quanto a instabilidade política interfere na capacidade do País de planejar e executar grandes obras de infraestrutura? A polarização abriu um vácuo para que o Centrão, que na verdade não faz parte dessa polarização, assumisse o controle de um bom pedaço do Orçamento. E isso dá um nó tático em qualquer presidente da República. Presidentes da República perderam poder no Brasil. O Brasil consegue pensar infraestrutura como política de Estado ou ainda depende dos ciclos eleitorais? Depende dos ciclos eleitorais, inevitavelmente. Não temos política de Estado. Isso é algo que a Nova República (a partir de 1985) não conseguiu criar, mas isso em grande parte também tem a ver com o fato de que, diferentemente de boa parte dos países, o Brasil não tem um acordo interno a respeito de política econômica. Existe uma disputa entre um caminho econômico heterodoxo e um ortodoxo. Boa parte dos países não tem essa disputa. Os europeus não têm, os ortodoxos ganharam lá. Nos Estados Unidos, até (a eleição de) Donald Trump, os ortodoxos tinham ganhado. Então, como o Brasil não tem esse consenso sobre o que é uma política econômica, é difícil você ter uma política de Estado definida. E aí depende de qual será o lado do próximo presidente da República. Pedro Doria: “Como somos uma economia muito fechada, não conseguimos gerar riqueza internamente. Acabamos dependendo muito do momento econômico exterior” (Sílvio Luiz/AT) O Porto de Santos vive uma série de projetos estruturantes. Como o senhor avalia a importância da infraestrutura logística para o crescimento econômico brasileiro? O Brasil é um país exportador de commodities (substâncias ou produtos primários, minerais ou agrícolas, normalmente insumos para a produção de bens acabados). É isso. Agora, a gente tem algumas opções internas que são um problema. Como, por exemplo, o transporte rodoviário, que é excessivamente caro. Então, se por um lado a gente conseguiu desenvolver bem o braço portuário da logística, o escoamento na direção dos portos ainda é um problema. A gente devia fazer o transporte hidroviário e o ferroviário. E só fazemos parcialmente. Segurança jurídica é uma das maiores demandas do setor de infraestrutura. O Brasil evoluiu nesse aspecto ou ainda transmite insegurança aos investidores? Piorou, na verdade. O (ex) ministro (da Fazenda) Pedro Malan (dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002) costumava dizer que no Brasil até o passado é incerto. E, no fim das contas, o que ele estava falando era justamente sobre isso. O fato de que você fez um contrato, ele já venceu e as pessoas ainda podem ir atrás disso. Não só temos uma judicialização excessiva como o conflito interno nos tribunais superiores atualmente piorou a situação. O que pesa mais hoje para um investidor internacional: estabilidade política, segurança jurídica ou retorno financeiro? O Brasil cresce quando o juro lá fora está baixo e o juro aqui dentro está alto. Aí entra dinheiro. O Brasil cresce quando existe um boom de commodities no mundo. Esses são os momentos de crescimento do Brasil. Como somos uma economia muito fechada, não conseguimos gerar riqueza internamente. Acabamos dependendo muito do momento econômico exterior. O Brasil tem capacidade para ser uma potência logística mundial. O que ainda nos impede de alcançar esse patamar? Essencialmente, o País se tornou um exportador de commodities. Não há um caminho. Eu não vejo um rumo industrial, fora algumas áreas específicas. O nosso principal caminho seria na área de serviços. Nem temos governos que acreditam muito nisso. E temos um problema de insegurança jurídica. E, fundamentalmente, como estamos em uma situação de juro muito alto, mesmo o setor privado não tem muito incentivo para investir a partir do momento em que alguém, botando dinheiro para rodar na Bolsa e em outros investimentos, faz mais dinheiro. Como o senhor avalia o impacto da inteligência artificial e da transformação digital sobre a infraestrutura, a logística e os portos? O Brasil tem um imenso potencial como um hub de data centers (instalações físicas que abrigam a infraestrutura de Tecnologia da Informação - TI) no mundo. Isso pode se tornar um incentivo para termos uma indústria própria de inteligência artificial. Depende de acontecer, de os governos entenderem isso. Mas nós estamos congelados em uma briga fratricida entre dois polos políticos que nos impede um pouco de caminhar para frente, de planejar o futuro. A burocracia continua sendo um dos principais entraves ao desenvolvimento brasileiro? A burocracia é um problema menor hoje. O Estado se digitalizou muito. Acho que burocracia é uma área na qual a gente caminhou. Não caminhamos é no resto.