Primeiro navio abastecido com etanol no Brasil foi no Porto de Santos (Vanessa Rodrigues/AT) O etanol brasileiro é uma solução pronta de combustível verde para atender à demanda do transporte marítimo global, acelerando a transição energética. O primeiro abastecimento de um navio cargueiro, no Porto de Santos, é uma amostra desse potencial. É o que afirmam especialistas ouvidos por A Tribuna. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O navio CMA CGM Iron foi abastecido com etanol no Tecon Santos, da Santos Brasil, em Guarujá, no último domingo. O combustível é o mesmo utilizado nos automóveis. Na avaliação do responsável técnico de Biossoluções e Fertilizantes do Instituto E+ Transição Energética, Pedro Guedes, o abastecimento comercial de um navio transoceânico com etanol prova o potencial de mobilizar a logística, a produção e a oferta nacionais. “O etanol já tem um potencial significativo quando produzido de maneira adequada, sustentável, com uma redução entre 75% e 80% das emissões em relação ao combustível convencional, podendo atingir valores ainda mais baixos com melhores práticas agrícolas, fertilizantes de baixo carbono e aumento da produtividade”, afirma Guedes. O especialista diz que o avanço para o mercado dependerá da regulamentação internacional em discussão na Organização Marítima Internacional (IMO), que deverá reconhecer o etanol como uma das rotas para a descarbonização do setor. Guedes ressaltou que a consolidação do Brasil como hub de abastecimento exigirá investimentos em logística, infraestrutura portuária e manutenção dos critérios de sustentabilidade. “A validação de um sistema internacional para essa redução de emissões e a infraestrutura e logística competitiva e sustentável no Brasil são pontos críticos para a gente pensar essa questão. É necessário que isso seja assegurado tanto no aspecto da certificação e auditorias quanto na reputação para que a produção possa continuar sendo validada nesses processos internacionais”, ressaltou. Parcial O diretor de Meio Ambiente da Portos do Paraná, João Paulo Ribeiro Santana, avalia que o País está parcialmente preparado para consumir etanol. Segundo ele, apesar de possuir tecnologia e produção em escala, os portos brasileiros ainda não possuem uma logística de distribuição preparada. Quanto aos investimentos necessários, Santana afirmou que dependerão muito de cada caso, “considerando a expertise de cada porto em movimentação prévia ou não de granéis líquidos para finalidade de abastecimento, estruturas de tancagem, distância das regiões produtoras do etanol, infraestrutura de transporte”. Para ele, o Brasil tem a missão de se tornar um dos principais fornecedores de etanol em escala global. “Precisamos ser protagonistas na transição da matriz energética para os combustíveis de queima limpa. Enquanto não houver tecnologia viabilizada para implantar o hidrogênio verde, por exemplo, o etanol brasileiro está pronto e devemos posicioná-lo como opção frente ao metanol, GNL e amônia”. O diretor de Meio Ambiente da Portos do Paraná, João Paulo Ribeiro Santana, argumenta que o potencial do Brasil é reforçado por integrar o Brics (grupo de cooperação entre economias emergentes), ao lado de grandes produtores de cana-de-açúcar, como Índia e China. Ele defende o etanol como alternativa competitiva aos combustíveis desenvolvidos pelos países industrializados. “Temos pronta outra solução e devemos impô-la como possibilidade. Fabricantes de motores já disseram que podem converter e fabricar motores para o uso do etanol”, afirma. No entanto, Santana diz que o etanol ainda não compete com o bunker (combustível fóssil) em escala global. “Isso dependerá da sua disponibilidade em escala nos portos mundiais, além de ter o seu custo de produção e distribuição estabelecidos”. Santana acredita que os investimentos em infraestrutura podem ser compensados pelos ganhos ambientais. “Essas variáveis, que hoje ainda são tratadas como externalidades, deverão compor a tomada de decisão de qual combustível ser utilizado”. Outra posição O superintendente de Meio Ambiente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Sidnei Aranha, afirma que o etanol coloca o Brasil em posição privilegiada na transição energética da navegação por se tratar de uma tecnologia consolidada e de um combustível renovável com baixa emissão de carbono. “O etanol é um combustível alternativo, sustentável, renovável, que tem menor emissão. O Proálcool (Programa Nacional do Álcool) foi instalado no Brasil em 1975. A tecnologia de etanol no Brasil é uma tecnologia consolidada e nós entendemos que o celeiro brasileiro tem condição de plantar cana suficiente para abastecer o mercado internacional”. Para o superintendente de Meio Ambiente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Sidnei Aranha, a operação realizada no Porto de Santos demonstra que o País oferta uma solução para o mundo na descarbonização do transporte marítimo. Na avaliação dele, o diferencial brasileiro está na capacidade de produzir em escala e distribuir o combustível para os principais portos do mundo. “Temos terra agricultável, condições climáticas e empresas que já desenvolveram essa tecnologia. Ela tem muita chance de ganhar o mundo”, diz. Aranha acrescenta que a consolidação do etanol como combustível marítimo poderá fortalecer a posição estratégica do Brasil no cenário internacional. “O Brasil vai se consolidar como a grande potência verde do mundo”.