São preenchidos 20 contêineres por semana no armazém da Costa Brasil e cada um leva duas horas para ficar completo; depois, as caixas metálicas seguem para os portos (Alexsander Ferraz/ AT) Bicicletas, motos, patinetes, geladeiras, medidores de energia, ração animal e até banheiras. Os produtos são diversos, mas o modo de levá-los pode ser o mesmo: a cabotagem. Trata-se do processo de transporte de cargas marítimas ao longo da costa de um mesmo país, ou seja, de um porto a outro. Clique aqui para seguir agora o canal de Porto & Mar no WhatsApp! O sistema, no entanto, não é restrito a contêineres lotados de um mesmo item, rotina de grandes indústrias e distribuidores. Empresários que desejam transportar pequenos volumes também podem se utilizar da cabotagem fracionada, modalidade onde é possível compartilhar espaço e frete em contêiner, trazendo muitas vantagens. “É uma etapa de aculturamento. A carga fracionada sempre foi trabalhada com o modal rodoviário. Temos clientes que preferem esse segmento - e atendemos a ele - muito em função da rapidez. Mas, em qualquer cenário que você olhar, a cabotagem é mais atrativa. Não só em termos econômicos como em questões de segurança e de meio ambiente”, explica o gerente sênior de negócios da Costa Brasil, Amilton Cássio. Segundo ele, o custo, bem abaixo do rodoviário, faz diferença no produto final. De tudo um pouco Os itens citados no início do texto - e outros tantos, incluindo matérias-primas, são encontrados no armazém da operadora de transporte multimodal, localizado em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, onde A Tribuna esteve. “A gente recebe as cargas dos nossos fornecedores e clientes que estão em Manaus (AM) e da operação de coleta que fazemos aqui em São Paulo e demais estados. Elas partem daqui”, afirma Amilton. A Costa Brasil trabalha com carga fracionada há 10 anos e também possui bases operacionais em Santos, Cubatão (mais voltada para a siderurgia), Itajaí (SC) e Manaus, operando com vários armadores nos portos de Manaus, Pecém (CE), Suape (PE), Salvador (BA), Vitória (ES), Itaguaí (RJ), Paranaguá (PR), Itajaí, Rio Grande (RS) e, claro, Santos. “É até redundante falar, mas o Porto de Santos é o mais importante do Brasil e, para a cabotagem, é igual. É o que recepciona e abastece carga pelas regiões Sul e Sudeste. Não é à toa que estamos em Guarulhos. É uma questão estratégica. Poderíamos ter o armazém no nosso terminal de Santos, mas isso dificulta para o cliente entregar carga lá. Descer e subir a Serra não é coisa simples. Eles preferem entregar aqui e para a gente está perfeito. Lógico que temos outras bases, mas o movimento de Santos é muito maior”, argumenta. Convencimento O gerente sênior de negócios da Costa Brasil revela que a empresa está iniciando operação de carga fracionada nos portos do Nordeste. “A gente também enxerga a região como um potencial mercado para a carga fracionada, que hoje é 100% transportada por rodovias. Não temos, infelizmente, uma malha ferroviária que atenda o interior do Brasil. E aí é só caminhão. Tentamos mudar essa perspectiva, essa forma de levar. O Nordeste já é, de certa forma, abastecido por cabotagem, mas ainda full contêiner (totalmente carregado)”, argumenta. A diferença nos prazos ainda pesa contra a cabotagem, relembra Amilton, embora reforce os outros benefícios. “Se para Manaus a gente chega muito próximo, para o Nordeste você tem um caminhão que vai daqui para lá em cinco, seis dias, mesmo com as estradas não sendo lá essas coisas. E a cabotagem demora um pouco mais, próximo de dez dias. Ainda faz diferença, mas a gente tenta explicar para o usuário, os fornecedores e compradores dessa região, para que olhem isso como uma alternativa interessante: em termos de segurança não tem comparativo, no custo é muito melhor e ainda há a questão da sustentabilidade”. Não bastassem as etapas de convencimento dos interessados, ainda existe o desconhecimento a respeito do modal. “Há clientes que não sabem o que é cabotagem, não têm conhecimento de como funciona. Temos que atrair mais gente para esse segmento, que é extremamente importante”, afirma o gerente. Todo cuidado com a carga: as frágeis ficam por cima e mais protegidas para evitar avarias no transporte (Alexsander Ferraz/ AT) Carga fracionada A carga fracionada exige extremo cuidado com a acomodação em contêineres de 40 pés, geralmente os utilizados pela Costa Brasil e destinados à produtos secos. “Tenta-se ser o mais homogêneo possível dentro de um universo heterogêneo, justamente para preservar a integridade do que transportamos. O espaço precisa ser bem utilizado. A gente vende espaço”, lembra o gerente sênior de negócios da Costa Brasil, Amilton Cássio. Como é A inclusão no contentor vai de 20 a 50 produtos distintos, dependendo dos tipos, afirma o gerente da empresa. “Quanto mais mix tiver, melhor. A gente tenta otimizar ao máximo. Temos o início da operação aqui (no armazém da operadora em Guarulhos) e o final na ponta rodoviária. Contêineres São estufados em torno de 20 contêineres por semana no armazém de Guarulhos. Ficam, no máximo, três dias no local. O processo para encher cada um demora aproximadamente duas horas, de acordo com a complexidade. Amilton usa a simplicidade do cotidiano para definir como tudo é realizado. “É como quando a gente vai à feira com a esposa e ela pede para colocar o tomate em cima das compras. Aqui temos muitos ‘tomates’, cargas frágeis. Imagine, por exemplo, que houve a compra de uma banheira, que demora de 25 a 30 dias para chegar e acontece algum tipo de avaria. A dor de cabeça é absurda e a reposição, demorada. Se eu for levar para colocar em prateleira, o cuidado é igual pela mesma razão. O trabalho tem que ser bem feito”, explica.