O potencial da Economia Azul na Baixada Santista é enorme. Para se ter uma ideia, há mais de 170 projetos na região que abarcam o uso sustentável dos recursos dos oceanos, mares e áreas costeiras. Destes, em torno de dez projetos são liderados pelo Blue Santos, iniciativa regional voltada para o fomento do tema que acompanha ainda mais de 100 iniciativas e apoia em torno de 25. A articulação é do engenheiro e executivo Mathias Mangels, presidente da RethinkingWorks, responsável por operacionalizar o Blue Santos, em conjunto com a Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS). A ideia é conectar desenvolvimento econômico, regeneração ambiental, empreendedorismo e formação de lideranças. Ele esteve na primeira edição do Blue Room, em julho, no auditório do Grupo Tribuna, que tratou de Economia Azul. Confira um pouco deste trabalho, porém mais ligado ao setor portuário, nesta entrevista de Mangels para A Tribuna. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Em termos de Porto de Santos e setores coligados, qual é o quadro atual da economia azul? A Autoridade Portuária de Santos (APS) está realmente muito preocupada com vários temas da economia azul, estão acontecendo vários movimentos. Um deles é o da energia. Existe um projeto que a APS está coordenando com consultores da Espanha e que estuda como ter energia elétrica para todas as embarcações do Porto de Santos. Hoje não há essa disponibilidade. Seria necessário quase que o dobro da energia atualmente disponível para toda a Baixada Santista para poder energizar todas elas. Depois tem as águas. A segunda maior contaminação de microplásticos do nosso planeta acontece na Baixada Santista. Estamos trazendo para a região, com vários testes já acontecendo, um sistema com algas em que elas vão absorvendo esses microplásticos a partir dos piscinões que são montados. E essas algas podem, depois, ser utilizadas para uma série de regenerações dos materiais delas. As algas também são importantes para a segurança alimentar. Os japoneses trabalham há muitos anos com o tema. A Baixada Santista tem um potencial bárbaro porque possui um belíssimo manguezal. Nos serviços, o turismo pode ser totalmente transformado com a Economia Azul, certificando a infraestrutura hoteleira de maneira sustentável. Estamos desenvolvendo todo um turismo de experiência nos manguezais. Outro aspecto está na dragagem e em como criar mais valor e regenerar um pouco os sedimentos. Fizemos na Blue Santos um programa de educação chamado Líderes Azuis justamente para que participem de projetos assim. Como está Santos entre os portos brasileiros? Entre os portos mais avançados destacam-se Suape (PE), Pecém (CE), Porto do Açu (RJ), Santos e Paranaguá/Antonina (PR), seguidos por Itaqui (MA) e Rio Grande (RS), que apresentam rápida evolução. Esses complexos representam modelos distintos de Economia Azul. Suape se diferencia por integrar transição energética, proteção da biodiversidade, pesca artesanal e desenvolvimento territorial, aproximando-se de um modelo abrangente de Economia Azul. Pecém e Porto do Açu, por sua vez, destacam-se pela formação de novos clusters industriais relacionados ao hidrogênio de baixo carbono, amônia, combustíveis verdes, siderurgia de baixo carbono e, no caso do Açu, eólica offshore. Santos apresenta um modelo mais associado ao conceito internacional de green port (porto verde), com iniciativas de descarbonização, planejamento energético, eletrificação de cais, incentivo tarifário a navios com melhor desempenho ambiental e desenvolvimento de corredores marítimos verdes. Paranaguá combina um plano formal de descarbonização com programas ambientais e sociais voltados às comunidades costeiras. Ainda que Santos esteja entre os portos mais avançados, ele demorou a notar os problemas que tem de mitigar e está correndo atrás disso ainda em tempo suficiente? Ainda há tempo, mas está atrasado. Embora faça um bom trabalho, a APS poderia ter uma outra dinâmica na regulamentação das coisas, com uma integração muito maior com as cidades da região. É necessário que as partes interessadas sejam mobilizadas e que a APS esteja à frente. Mas Santos tem que andar na frente. Há muito o que ser feito e vamos ver, a partir dessas eleições, o que vai acontecer em termos de visões federais (Governo e Ministério de Portos e Aeroportos) e como desdobrar isso para o Porto de Santos. A sociedade santista tem que se mobilizar muito. É muito falatório e, às vezes, pouca execução. Por isso que a gente criou o Blue Santos para ajudar nessa mobilização ou para fazer pressão no próprio Porto de Santos.