Cláudio Oliveira: “Os terminais estão preparados para receber navios maiores, mas a profundidade do Porto não permite. Estamos 12 anos atrasados em relação aos navios que operam no mundo” (Vanessa Rodrigues/AT) As mais de quatro décadas no setor credenciam o CEO da Brasil Terminal Portuário (BTP), Cláudio Oliveira, a traçar um panorama cirúrgico e realista da situação atual do Porto de Santos. E um futuro promissor, para o executivo, depende de segurança jurídica, planejamento de Estado e obras de infraestrutura capazes de acompanhar o constante crescimento da demanda. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Em entrevista para A Tribuna, Oliveira ressalta os prejuízos ao cais santista com o atraso para a implantação do Terminal de Contêineres (Tecon) Santos 10, que ocupará o cais do Saboó (STS10). O leilão da área se arrasta por anos e ainda não tem data certa para ocorrer. Ele também cobra avanços do poder público em acessos e dragagem. O CEO da BTP fala ainda sobre investimentos feitos pela empresa para ampliar a capacidade do terminal e as ações voltadas aos colaboradores. Aliás, é ao falar de pessoas que os olhos dele brilham. “Se a gente puder preparar todos os nossos colaboradores para que eles possam crescer, seja dentro ou fora da empresa, estaremos orgulhosos”. Qual é o principal desafio hoje na área portuária? É a segurança jurídica. Temos que ter a confiança de investir o que foi planejado e aprovado pelo governo. Não dá para, no meio do caminho, as regras mudarem. Além disso, é preciso ter um planejamento, um plano de Estado para a infraestrutura. A gente sofre com os acessos ao Porto de Santos há quantos anos? Agora se fala na terceira pista da (Rodovia dos) Imigrantes, que é importantíssima, mas que a construção vai levar de sete a dez anos. Fala-se no túnel imerso, que vai sair daqui a cinco, seis anos? E o Tecon Santos 10, que está superatrasado? Quando esse terminal ficar pronto, daqui a cinco ou seis anos, todo o espaço dele já vai ser tomado. A demanda vem crescendo, não vai ser suficiente. Então, terminada essa licitação, precisa começar a pensar no próximo. Ou enfrentaremos sempre o mesmo problema (da falta de capacidade). As empresas estão investindo, mas há um descompasso entre o privado e o público? Exatamente. O recurso das empresas é estrangeiro, mas elas estão apostando no Brasil. Estão cada vez mais interessadas em investir em infraestrutura nos portos, em logística. Mas quem investe precisa ter segurança. A BTP, desde que renovou a concessão por mais 20 anos, tem um compromisso de investimento de R\$ 2 bilhões, que seguramente vai chegar a R\$ 2,5 bilhões. Metade desse valor é em equipamentos para trazer mais eficiência, melhorar a produtividade. São equipamentos elétricos já com uma pegada de transformação energética. A nossa ambição é, a partir de 2030, ser carbono zero. A empresa está fazendo tudo o que pode para enfrentar essa demanda alta e se planejar para o futuro. Mas se fora dos nossos portões nada for feito, isso não vai andar. O Porto de Santos pode enfrentar uma situação difícil? A BTP não vai participar do leilão do Tecon Santos 10, mas está muito interessada que isso saia logo. Porque daqui a pouco Santos perderá serviço, os armadores (donos dos navios) não vão querer ficar aqui esperando dias para atracar, porque não haverá condições de atender a todos. A carga também não vai querer esperar e nem gastar mais, porque o custo vai aumentar muito. Santos vai passar por uma situação que é a pior de todas, vai começar a perder volume. A dragagem para aprofundar o canal de navegação é outra preocupação? O Porto vai perdendo, a economia brasileira vai perdendo. Os terminais estão prontos para receber os navios maiores, mas a profundidade do canal do Porto não permite. Estamos 12 anos atrasados em relação aos navios que hoje operam o mundo. Nós poderíamos atender um navio de até 400 metros, mas a gente precisa de água. Hoje temos dificuldade para atender o de 366 metros. Se não aprofundar o canal, mesmo esse navio (de 366 metros) nunca vai ser produtivo para o armador. Com esse calado de 14,5 metros (profundidade do canal), o navio sai com 75%, 80% da capacidade. O armador precisa rodar com os navios a 100%. Voltando a falar em segurança jurídica, o que precisa melhorar? O que enfrentamos muito são mudanças das regras no meio do caminho. O capital investido é muito grande no nosso negócio. Você vai trabalhar para 20 anos, como era o nosso contrato, com mais 20 (anos de prorrogação). Tem agora os contratos que são de 35 anos com mais 35. Então você faz todo um estudo e aprova o investimento baseado nisso. Se no meio do caminho você não pode mais cobrar isso ou fazer aquilo, como fica? Mas houve muitos avanços ao longo dos anos? Eu estou há 42 anos nesse negócio. A evolução do setor portuário nesses anos é impressionante. A evolução da agência reguladora (Antaq), do Ministério dos Portos e Aeroportos, muito mais atuante agora. Então, vemos crescimento em tudo. Só que algumas pessoas não entenderam que a gente tem que andar para frente. Ficam criando problemas pequenos, sem necessidade, e aí acontece a judicialização. Como você avalia processos como licenciamento ambiental, estudos de impacto e viabilidade? É um processo aqui, aí precisa esperar aquele para ir para outro processo. Por que não tem um Poupatempo dos portos? Dá entrada em um órgão só, internamente é distribuído e as coisas correm em paralelo, para agilizar. A ideia é essa: simplificar. Uma renovação de contrato com o terminal que estava operando há mais de 15 anos levou três anos. É uma burocracia que você não tem ideia. O Porto de Santos tem mais espaço para crescer, além do Tecon Santos 10? Tem áreas viáveis? Sim, mas quando você pensa nos espaços a serem explorados hoje, tem a questão da acessibilidade. Tem muitas áreas na Margem Esquerda para serem exploradas, mas não adianta colocar um terminal para operar navio e depois a carga não chegar e nem sair. Talvez parte do serviço retroportuário comece a se expandir usando mais áreas em São Vicente e em Cubatão. O Porto é da Baixada Santista. Na Margem Esquerda, em Guarujá, há um problema habitacional grave. As empresas portuárias estão dispostas a colaborar, investir e resolver essa questão? Sem dúvida. Você sabe como começou a BTP (na área do antigo lixão da Alemoa), o investimento feito para remediar uma área que era o segundo maior passivo ambiental do Estado e o maior numa área portuária no Brasil. Onde tem problema de habitação, o investidor está consciente, disposto a ajudar. Se Governo Federal, a Autoridade Portuária, o governo municipal e quem for investir se unirem, essas famílias podem ser realocadas para uma situação confortável, para que tenham toda a tranquilidade. Podemos construir novos negócios sem deixar ninguém desabrigado. E o que a BTP tem feito da porta para dentro, em relação aos colaboradores? Hoje temos 2 mil colaboradores diretos e mais de 5 mil indiretos. Procuramos cuidar dos nossos colaboradores e das famílias deles da melhor forma possível. Temos investido em capacitação, acabamos de formar a primeira turma da Universidade Corporativa BTP. Foram 92 alunos, 80 em graduação e 12 em pós-graduação. A segunda turma tem 160 inscritos, sendo que seis deles saíram do nosso programa interno, o EJA (Educação de Jovens e Adultos). Ajudamos esses profissionais a terminarem o Ensino Médio. Temos muito orgulho do que fazemos: o nosso principal ativo são as pessoas. Além disso, temos um forte trabalho de inclusão. Vamos para a quarta turma do BTP com Elas, já formamos 100 mulheres para trabalhar no mercado portuário. E já tivemos 11 turmas do BTP para Todos, que é para pessoas com deficiência. E há muitos projetos para o futuro? Queremos cada vez fazer mais. Nossos equipamentos elétricos e automatizados serão operados de uma sala, com ar-condicionado. Uma pessoa com deficiência poderá operar um guindaste, com joystick, sem nenhum problema. Para o futuro, queremos criar uma escola de talentos BTP, que a gente possa capacitar os jovens que entram, por exemplo, do Camps. Se ao final do ciclo na BTP eles não tiverem vaga para ficar na empresa, estarão mais preparados para o mercado de trabalho. O conhecimento é da pessoa, a empresa só dá a ferramenta. Se a gente puder preparar todos os nossos colaboradores para que eles possam crescer, seja dentro ou fora da BTP, estaremos orgulhosos”.