Ao longo dos últimos 27 anos, o Porto de Santos - e os outros tantos complexos portuários brasileiros e mundiais - evoluíram muito. O Instituto de Capacitação Técnica e Profissional (Incatep), na Ponta da Praia, em Santos, tenta caminhar junto, unindo formação teórica e prática, com o uso de simuladores, para capacitar os trabalhadores do setor. E é justamente um pouco dessa história, além das mudanças e das necessidades atuais do mercado, que o diretor operacional João Gilberto Campos, de 62 anos, contou nesta entrevista para A Tribuna. O engenheiro portuário, técnico de segurança do trabalho e com pós-graduação em educação e gestão portuária nasceu em Londrina, no interior do Paraná, mas mora em Santos há mais de quatro décadas. O trabalho dele no setor portuário começou oito anos antes do Incatep e foi o embrião de um local que já emitiu mais de 140 mil certificados e é responsável por atender portos de todo o País e de outros continentes. O Incatep completou 27 anos em julho. Quando o senhor decidiu criar a empresa e o que o motivou a investir em capacitação profissional para o setor portuário? Quando houve a Lei de Modernização dos Portos, a 8.630, de 1993, notamos que, com a privatização, as empresas portuárias começaram a comprar equipamentos novos, automatizados. Eu trabalhava em uma multinacional e fomos chamados logo depois de 1993 para fazer um acompanhamento com os trabalhadores portuários visando esses equipamentos. Foi quando percebemos que existia um mercado que necessitava de capacitação para essa nova realidade provocada por esses investimentos e necessitaria de mão de obra capacitada. E entendemos por capacitação algo complementar à qualificação. O que a gente enxerga como o futuro do trabalho é que a pessoa faça um curso formal, casos do Ensino Médio, do técnico, do superior ou uma pós-graduação, e, depois que ela estiver qualificada, vem até o Incatep e a capacitamos em cima de boas práticas na operação de equipamentos seguindo as normas regulamentadoras nacionais e internacionais por intermédio de uma habilitação profissional, teórica, com instrutores que são técnicos de segurança do trabalho e com muita experiência no setor portuário, totalmente credenciados pela Marinha, e utilizando simulador. Esse é o nosso negócio: treinar as pessoas para que elas possam dar produtividade com segurança. Quais foram as maiores dificuldades para transformar o Incatep em uma referência nacional em treinamento portuário? Em algum momento pensou em desistir? A maior dificuldade estava em alguns trabalhadores que tinham resistência à mudança. A segunda foi a dificuldade de desenvolvermos ferramentas para que nos tornássemos imparciais na avaliação e dentro de um perfil. Sobre desistir, tivemos várias fases difíceis com os planos do Governo, que interfere muito nas relações que temos. Não imaginava que fosse tanto. Passamos períodos em que a demanda cai bastante porque o Governo interfere muito nesse processo. O que mais mudou na qualificação dos trabalhadores portuários desde a fundação da empresa até hoje? Uma grande mudança foi que as pessoas visualizaram o porto como uma atividade econômica, de arrumar um trabalho. O porto sempre foi visto como uma atividade à parte não só aqui, mas em todo o mundo. Em filmes, sempre que aparece porto é um lugar sujo, com bandidos e traficantes. A imagem do porto foi melhorando e as universidades fizeram isso muito bem, primeiramente com os cursos de tecnólogo, de dois anos. Hoje você tem no Brasil inteiro cursos de gestão portuária, faculdades, MBA e mestrado. O aumento da qualificação fez com que as pessoas conhecessem a realidade do porto, que é um negócio essencial e necessita cada vez mais de pessoas com perfil, com oportunidades reais de trabalho, com um risco muito grande e uma remuneração condizente, mas com necessidade de estar sempre atualizado. O porto se atualiza diariamente, como qualquer outro ramo de atividade. Não é como antigamente, que os trabalhadores carregavam sacos nas costas. Não existe mais esse trabalho braçal. Como está estruturado o Incatep atualmente? Quantos simuladores, treinamentos e alunos atende e quais são hoje seus principais diferenciais? Temos 18 simuladores de todos os tipos de equipamentos portuários. Temos também uma ferramenta de cursos a distância, que são oferecidos para o mercado. Temos 42 treinamentos catalogados. Temos trilhas que formam e também que requalificam aqueles trabalhadores que necessitam de uma reciclagem. Temos uma média de 6 mil alunos por mês e atendemos todos os portos do Brasil, América Latina, África e na Europa - em Portugal - porque houve a privatização dos portos. O desenvolvimento de simuladores próprios foi uma aposta ousada. Como surgiu essa ideia e que vantagens ela trouxe para a empresa e para os alunos? A ideia surgiu quando os equipamentos novos começaram a chegar e você não tinha disponibilidade para ministrar um treinamento. Como você vai parar um equipamento que está descarregando um navio, por exemplo, e colocar as pessoas para aprenderem em um equipamento desse porte? Além da produção que você vai perder, porque o navio vai demorar mais, há também o risco de acidente e de avaria. Foi a necessidade de a gente ganhar tempo de aprendizagem e também para fazer avaliação de perfil da pessoa. Além disso, a cada 12 horas de utilização, deixa-se de queimar mil quilos de dióxido de carbono (gás carbônico) na atmosfera ou economiza energia elétrica, atualmente a fonte de vários equipamentos. Começamos a ter os simuladores a partir de 2010. Quando não tínhamos, demorávamos um ano e meio para entregar um operador de guindaste portuário tipo RTG, aquele de nível 2, ou seja, já pronto para o trabalho. Hoje entregamos em 90 dias porque o simulador está sempre disponível e, quando o operador faz 60 dias com a gente de simulador, depois fazemos o treinamento no trabalho com ele durante 30 dias. E já o entregamos produzindo muitas vezes melhor do que os operadores que já estão na empresa porque a gente consegue ensinar os conceitos modernos do equipamento, algo que muitos dos antigos não tiveram oportunidade. Sempre perseguimos o seguinte objetivo: com o simulador e uma boa teoria com instrutores proficientes, há condição de entregar para o operador uma mão de obra de, no mínimo, 50%. A outra metade ou até menos a pessoa aprende no trabalho. Quanto mais qualificada a pessoa for, maior vai ser a probabilidade de ele entender o treinamento e mais facilidade para nós capacitarmos. Temos clientes atualmente que nos contrataram para que a gente recrute operadores de equipamentos com ensino superior. Como a inteligência artificial, a automação, a realidade virtual e outras tecnologias vão transformar o trabalho portuário nos próximos anos? Que profissional o mercado passará a exigir? Será cada vez mais necessário que as pessoas tenham uma qualificação maior. Fazer um curso superior é imprescindível para conseguir entender essas tecnologias. A inteligência artificial vai te ajudar a fazer atividades repetitivas. No caso dos simuladores, conseguimos desenvolver junto a fornecedores um que, ao ser ligado, cria sozinho as dificuldades, como chuva e vento, e quem está fazendo o treinamento tem que tomar as atitudes. E com o óculos de realidade virtual, de repente, vai escurecer. Isso faz com que a pessoa consiga entender os riscos da operação e mitigá-los. Se a pessoa fizer uma boa qualificação em uma faculdade, ele já vai vir com outros conceitos e irá além. Não importa se é homem ou mulher. O instrutor também teve que melhorar o nível e os manuais porque esse público é cada vez mais exigente. "O legado é deixar uma trilha em que podemos modificar a vida dessas pessoas. Não tem dinheiro que pague isso", afirma o diretor operacional do Incatep (Sílvio Luiz/AT) Como o senhor avalia o nível tecnológico do Porto de Santos em comparação com os principais portos do mundo? Em que estamos avançados e onde ainda precisamos evoluir? Acho que, primeiramente, temos que tomar muito cuidado ao fazer essa avaliação porque são realidades diferentes. É preciso ver, por exemplo, o nível de atendimento que tem o porto e qual a movimentação de carga que ele tem. É lógico que é muito importante visitar outros portos, como eu fiz e tive oportunidade de mandar instrutores para a China fazer cursos. E temos visitas em que mandamos instrutores. Há pouco tempo chegaram equipamentos e softwares moderníssimos em Santos. Se for visitar um porto qualquer no mundo, são utilizados os mesmos equipamentos e programas daqui. O problema é a parte do Governo, como resolver os problemas de profundidade (calado) que influenciam diretamente na produção do porto, e não a iniciativa privada. Fora do ambiente de trabalho, qual é o papel da família em sua vida? Que valores procura levar para a empresa e para as pessoas que forma? Como empresa pequena, temos atualmente 28 funcionários. Procuro passar para o meu pessoal um convívio familiar. Em atividades em que haja mais de uma pessoa, sempre vai ter conflitos e você tem que administrá-los. Sou casado há 40 anos, tenho três filhos, sendo dois gêmeos de 30 anos e outro de 28, que trabalham comigo, e uma filha, de 34 anos, que é médica em São Paulo. Ainda sou da época em que a gente trabalha pela nossa família, para dar conforto. É isso que eu passo aqui para o pessoal. Completar 27 anos com o mesmo CNPJ é um sinal de que trabalhamos com muita seriedade. Investimos na questão da qualidade do trabalho. E sofremos concorrência de empresas que não têm nenhum tipo de certificação, mas existe cliente para tudo. Quem contrata o Incatep é um cliente especial porque quer qualidade, treinamento diferenciado e lutamos para que possamos oferecer isso. Depois de quase três décadas à frente do Incatep, de que o senhor mais se orgulha e que legado espera deixar para as futuras gerações de profissionais portuários? Estava conversando outro dia com o meu gerente sobre isso. O maior orgulho é quando chegamos para trabalhar e as pessoas falam: ‘Olha, hoje eu estou recebendo um salário melhor porque vocês me ajudaram’. Eu não ajudei ninguém. A pessoa veio, fez um treinamento com a gente, conseguiu melhorar de vida, entendendo que a gente só vence se a gente estudar e for correto. Isso vale para todos. Muitas vezes a pessoa tem a ideia de entrar no porto achando que vai ganhar dinheiro facilmente, mas não é bem assim. Volto a insistir que o interessado tem que ter o perfil. O legado é deixar uma trilha em que podemos modificar a vida dessas pessoas. Não tem dinheiro que pague isso.