O mercado de trabalho no setor marítimo e portuário para mulheres ainda é desafiador, demanda uma mudança estrutural e contínua para resolver questões como assédio, falta de reconhecimento e sobrecarga para comprovação de desempenho. O avanço passa por ampliar a representatividade, o acolhimento e criar condições mais equitativas, inclusive para o retorno após a maternidade. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Essa é a visão de Aline Carvalho, diretora de Gente, Gestão e Frota da Norsul, uma das maiores empresas de cabotagem do País. Engenheira de produção por formação, a executiva acumula mais de 20 anos de carreira no setor portuário. Ela se tornou referência ao implementar uma cultura organizacional voltada à humanização das relações de trabalho, ampliando a diversidade e a inclusão. Aline pontua que o desafio é “melhorar o ambiente para a mulher a bordo. Quando digo isso, falo em todas as esferas em que uma mulher é impactada, e não só no setor marítimo. Respeito, combate ao assédio, combate ao cansaço que uma mulher enfrenta para ser reconhecida. Toda mulher precisa entregar resultados superiores, comprovar seu valor muito mais vezes, sustentar desempenho de forma muito mais contínua para ser reconhecida. E isso gera uma estafa psicológica enorme”. A gestora ressalta que é preciso criar condições para que mulheres no pós-maternidade consigam retornar para bordo. A humanização no ambiente corporativo, segundo Aline, deve ser diversa e inclusiva. “Passa por reconhecer o trabalhador como indivíduo completo — com limitações, ambições e experiências pessoais — e não apenas como elo de uma cadeia produtiva. Por mais estranho que possa parecer, humanizar é tratar as pessoas como seres humanos”, declara. Segundo ela, a Norsul busca tratar o ser humano nas suas luzes e nas suas sombras. “Na prática, no dia a dia, é olhar para o marítimo não como um cargo, mas como um indivíduo. Entender que ele tem frustrações, ambições, problemas pessoais e que tudo isso está misturado dentro de um mesmo espectro humano”. Criatividade Aline explica que diversos estudos comprovam que a diversidade traz maior potencial de criatividade, melhores resultados, ambientes de trabalho mais saudáveis. “Quando você tem equipes mais equilibradas, tudo melhora. Não faltam indicadores mostrando que diversidade gera resultados positivos”. Mas, a executiva aponta o desafio a ser vencido. “O problema está nos estereótipos, nos vieses e naquilo que ainda nos impede de efetivamente construir ambientes diversos no trabalho. A evidência da vantagem já existe. O que precisamos é superar as barreiras que nos impedem de chegar lá”. Contudo, ela reconhece avanços. “A autenticidade é o símbolo máximo de um ambiente humanizado. Quando o nível de confiança é tão alto que as pessoas compartilham suas vulnerabilidades, suas opiniões, falam abertamente sobre seus erros e têm coragem de dizer o que não sabem. Normalizar a diferença é o caminho”. Diálogo Aline afirma que o caminho para engajar lideranças e colaboradores em uma mudança de cultura é o diálogo. “Muito mais importante que definir de forma esteticamente bonita os valores, a missão, a visão e o propósito da companhia, é gerar sentido em cada símbolo. E as conversas servem para isso, para esclarecer de forma transparente, nem sempre fácil, nem sempre em concordância com todos, mas de forma respeitosa e segura, os temas difíceis. Com muitas perguntas abertas e envolvimento de absolutamente todas as pessoas”, afirma. Quanto à manutenção de uma cultura organizacional, a gestora diz que é indispensável. “É necessário adaptar-se ao contexto. O que hoje garante o resultado da companhia é, sem dúvida, uma cultura capaz de lidar com os desafios, com as mudanças, com as novidades. Não há resultado sustentável sem uma cultura alinhada. Ela não apenas impacta os resultados, é intrinsecamente parte deles”. Para Aline, o mercado ainda precisa evoluir ao tratar as pessoas. “Provoquem o RH de vocês para que entendam muito mais de gente do que de negócio. O RH precisa fazer autodesenvolvimento profundo para, de fato, cuidar de gente e desenvolver pessoas”.