A gestão do tráfego de caminhões em direção do cais santista, uma antiga promessa da Autoridade Portuária de Santos (APS) para evitar grandes congestionamentos, ainda é projeto. A gestora do Porto está em busca da união de sistemas para rastreamento dos veículos desde a origem e a comunicação com eles em tempo real. Clique aqui para seguir agora o canal de Porto no WhatsApp! A empresa pública federal espera que essa integração aconteça com o método a ser desenvolvido pelo Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos (SP), a partir de um contrato que deve ser firmado ainda neste ano. Para o funcionamento, entretanto, não há data prevista. “A APS prevê a iniciativa como prioritária para fazer frente ao crescimento anual da movimentação de cargas no Porto de Santos, que é de 7 a 10%, e considera o aumento já aprovado da poligonal (traçado do Porto), da ordem de 54%”, afirma, em nota. Para elaborar o projeto, a APS informou que fez dezenas de reuniões com autoridades, órgãos públicos e empresas. “Ouvimos todos que atuam no Porto para que pudéssemos reunir um modelo para contratarmos este sistema tecnológico que viabilize a integração dos caminhões”, explica o diretor de Operações da APS, Beto Mendes. “O próximo passo será a efetiva contratação do sistema que é inspirado, por exemplo, no trabalho da Infraero (empresa pública que monitora os voos no território nacional)”, emenda. No ano passado, a média diária no Porto de Santos foi de 8.018 caminhões, segundo a APS. Seis anos antes, em 2019, por exemplo, a média diária era de 6.489. O aumento foi de 23,5%. Dois sistemas Atualmente, dois métodos disciplinam a chegada e operações de caminhões no Porto. Um é o Sistema de Gestão de Tráfego de Caminhões (SGTC), iniciado em 2013, para veículos que transportam contêine-res, carga geral e líquidos. O outro é o Sealog, iniciado em 2021 e que sucedeu ao Portolog, responsável por regular os caminhões de granéis sólidos de origem vegetal. Este último, de acordo com a APS, incorporou elementos de um projeto anunciado em 2019, que previa um Centro de Controle de Tráfego de Caminhões. “O problema é que eles não se comunicam entre si, ou seja, não conversam para, por exemplo, buscar uma solução quando acontecem acidentes na descida da Serra”, sintetiza a APS. Os dois exigem que os caminhões tenham vagas reservadas nos pátios reguladores e delimitam um número de caminhões por hora para cada terminal que opera no Porto de Santos. O limite está condicionado à capacidade de cada terminal e é homologado pela APS. “Esses sistemas, que abarcam 100% dos caminhões que chegam ao Porto, têm conseguido manter os pátios reguladores com uma lotação média entre 30 a 40% e evitado que as filas de caminhões na Via Anchieta cheguem, como acontecia até 2013”, afirma a APS. Veículos adiantados fazem filas irregulares A presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Litoral Paulista (Sindisan), Rose Fassina, avalia que o problema não está no agendamento, mas no que acontece antes dele: caminhões chegando adiantados ao Porto de Santos e formando filas e estacionamentos irregulares nas proximidades dos terminais enquanto aguardam o horário. A antecipação, segundo ela, tem uma explicação estrutural. “Em geral, o motorista é orientado a sair com bastante margem de segurança para não correr risco de atraso, considerando a imprevisibilidade do trajeto, o tráfego nas rodovias Anchieta e Imigrantes, além de outras variáveis da estrada. É comum, inclusive, o motorista optar por viajar de madrugada justamente para garantir a chegada antecipada”, detalha. O resultado, lembra Rose, é a concentração de caminhões esperando. “E muitas vezes estacionados de forma irregular, porque não há vagas suficientes próximas aos terminais e, quando existem, nem sempre há disposição para pagar por elas”, completa. A percepção de Rose é que o quadro piorou nesse ponto. Isso acontece porque o crescimento das exportações pelo Porto de Santos também significa mais caminhões e, consequentemente, mais filas, um efeito colateral do aumento de movimentação de carga. “Porém, a infraestrutura de apoio (vagas de espera, controle de tempo de carregamento, tecnologia de gestão) não acompanhou esse crescimento na mesma proporção”, justifica. “O que precisa melhorar, na nossa avaliação, é mais investimento em tecnologia e dados para prever e organizar esse fluxo, e mais áreas de espera estruturadas próximas aos terminais”, emenda. Não é solução definitiva A dirigente do Sindisan, Rose Fassina, considera um passo importante o projeto anunciado no ano passado pela Autoridade Portuária de Santos (APS), em parceria com o Parque de Inovação Tecnológica (PIT) de São José dos Campos, mas acredita não ser a solução definitiva. Rose citou como exemplo o estudo técnico Santos 10+, divulgado no final de junho pelo Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo (Sopesp). Segundo os números, o total de cargas projetado para 2040 no Porto de Santos pode ser antecipado em dez anos, aumentando de 196,7 milhões de toneladas para 253,6 milhões em 2030 e alcançando 291,1 milhões de toneladas em 2035. “Os números levantados divergiram significativamente dos parâmetros atualmente usados pela APS, com uma diferença da ordem de dez anos de defasagem entre os dados. Isso mostra que a base de informação usada hoje na gestão do tráfego está desatualizada e precisa de mais tecnologia e dados mais confiáveis”, sentencia.