Cada módulo é projetado para uma equipe de cerca de 100 pessoas (Alexsander Ferraz/AT) As florestas de eucalipto em Três Lagoas e nas cidades vizinhas, em Mato Grosso do Sul, podem ficar em áreas bem distantes dos centros urbanos. Por isso, quando uma determinada fazenda já tem árvores maduras, com aproximadamente sete anos de idade, uma estrutura volante é montada no local para a colheita da matéria-prima da celulose. A Tribuna acompanhou todo o processo feito pela Eldorado Brasil, uma das empresas produtoras e exportadoras de celulose no País. A partir de Três Lagoas, a Reportagem percorreu mais de 100 quilômetros florestas adentro até encontrar o que a empresa chama de módulo de colheita. Ele é o suporte completo para as equipes em campo, permitindo superar os desafios do isolamento e garantir a eficiência no trabalho. Cada módulo é projetado para uma equipe de cerca de 100 pessoas e inclui diversas instalações, como um escritório volante com computadores e internet dentro de um trailer. “É onde fazemos toda a gestão do time e da produção”, explica o gerente de Colheita Florestal da Eldorado, Anderson Bobko. Ele aponta para outro trailer maior, onde funciona um depósito de peças para manutenção das máquinas e equipamentos. “Aqui temos estoque para atender 90% das ocorrências de manutenção, como mangueiras, parafusos e fios, sem precisar ir até a cidade.” Além disso, o módulo conta com uma sala de afiação para manter o material de corte em condições ideais, banheiros e um refeitório. “O pessoal faz refeições aqui e aproveita o intervalo para relaxar, acessar a internet e se comunicar com as famílias”, complementa Bobko. A operação de colheita funciona em dois turnos: o primeiro das 7 horas às 16h48, e o segundo das 16h48 às 2h36. No intervalo entre os turnos são feitas manutenções preventivas, lavagem das máquinas que fazem a colheita, lubrificação e abastecimento de combustível. Ou seja, o trabalho é 24 horas. Duração do módulo Há muitos anos que a colheita do eucalipto deixou de ser manual. Hoje ela é feita com um operador em uma máquina chamada harvester, que possui um braço para segurar os troncos. Cada máquina consegue colher, em média um hectare por dia (10 mil metros quadrados, pouco mais do que um campo de futebol). “Temos dez máquinas no módulo, então colhemos cerca de 10 hectares diariamente. O tempo em que o módulo permanece no mesmo lugar depende do tamanho da fazenda, que pode variar de 200 a 10 mil hectares. Não tem tamanho fixo. Em algumas, ficamos vários meses; em outras, menos de um mês”, afirma Bobko. Ainda dentro da mesma fazenda, a estrutura pode se deslocar para facilitar o trabalho. “Em média uma vez por mês fazemos uma mudança, porque as máquinas vão de distanciando”, diz o gerente. Após a colheita, as árvores são deixadas empilhadas no local por cerca de três meses para secagem natural, até o transporte para a fábrica de celulose. “A madeira não absorve água depois de colhida, apenas evapora. Então, mesmo com chuva, o tempo de secagem não muda muito”. Após cada colheita, a área é preparada para o plantio de novas mudas, que ocorre de cinco a seis meses depois e mantém o ciclo. Perdas A operação enfrenta desafios naturais, mas que não impactam a produtividade. “As árvores são organismos biológicos e, por isso, estão sujeitas a pragas e doenças”, afirma Bobko. Entre os principais problemas estão insetos, fungos e questões climáticas, como seca prolongada. A mortalidade natural é monitorada regularmente. “Plantamos cerca de 1,2 mil árvores por hectare e consideramos normal perder de 5% a 10% ao longo do ciclo. No final, se tivermos 1,1 mil árvores por hectare, está dentro do esperado”. Ana Lucia opera há 4 anos a supermáquina harvester Com um braço potente ela agarra o tronco, serra a árvore na base, deixando só o toco com a raiz, desgalha, corta de forma padronizada (todos do mesmo tamanho, 6,5 metros) e empilha. A harvester é uma supermáquina usada na colheita do eucalipto. Mas o ótimo desempenho dela depende muito de quem opera. Ana Lucia Barboza Soares, de 39 anos, é a ‘comandante’ de um harvester na Eldorado Celulose. “Ter atenção na operação é fundamental para garantir a minha segurança e da máquina, que precisa de conservação. A operação exige sincronismo, agilidade e eficiência. Simples ações fazem muita diferença na operação, como o ajuste de um banco ou a identificação de uma máquina mal posicionada”, ensina a operadora de colheita, que trabalha com a máquina desde 2021. Embora a função seja predominantemente masculina, Ana batalhou para estar ali. “A operação de máquina não é um serviço pesado, porém pode ser cansativo pelo nível de atenção que temos. Na colheita, precisamos estar atentos à manutenção e troca de material de corte, por exemplo. Tudo isso faz parte da função. Mas o maior desafio é ir atrás da vaga e mostrar ser capaz de executar o trabalho”. A máquina A harvester é composta por uma máquina base, com cabine com ar-condicionado, grade e vidro grosso, de 16 milímetros de espessura, para proteção dos operadores em caso de eventual impacto de uma árvore. “A gente tem mais de dez anos de operação sem nenhum acidente dentro da cabine. É uma operação bem segura. O operador precisa de quase um ano de treinamento”, explica o gerente de Colheita Florestal da Eldorado, Anderson Bobko, acrescentando que as máquinas trabalham a uma distância mínima de 100 metros entre elas, por segurança. O material que é descartado pela harvester é deixado no solo, como galhos, folhas e o toco com a raiz. Ele se transforma ao longo do tempo em matéria orgânica e nutriente para as próximas plantações. “Do toco nós fazemos um aproveitamento parcial, para abastecer a nossa usina termelétrica (que gera energia para a fábrica). A gente pega mais ou menos 20%, com outro equipamento, que tem uma espécie de pinça para segura e puxar”, detalha Bobko.