Aristides Russi Júnior é CEO da JBS Terminais (Sílvio Luiz/ AT) Aristides Russi Júnior está há mais de uma década atuando em posições executivas, liderando operações, estratégias de crescimento e iniciativas voltadas à eficiência, competitividade e desenvolvimento de terminais portuários. Ele é o CEO da JBS Terminais, empresa que completou dois anos à frente do Porto de Itajaí (SC), com mais de 800 mil TEU (unidade de medida de um contêiner padrão de 20 pés) movimentados e quase R\$ 250 milhões em investimentos destinados à retomada, modernização e ampliação da capacidade do terminal. Entre o primeiro e o segundo ano de operação, a movimentação cresceu 62%, segundo a empresa. Agora, a companhia anunciou um novo aporte de R\$ 15,2 milhões para modernizar a inspeção de cargas e ampliar o fluxo de caminhões. Em entrevista para A Tribuna, Aristides fala dos investimentos e de outros temas relacionados ao porto catarinense. O que foi determinante para a JBS recuperar rapidamente a movimentação do Porto de Itajaí? O passo decisivo foi recuperar a confiança do mercado por meio da entrega. Depois de quase dois anos de paralisação, precisávamos restabelecer a estrutura e mostrar aos armadores, importadores e exportadores que Itajaí voltava a oferecer um serviço competitivo, eficiente e previsível. Investimos quase R\$ 250 milhões no período e trabalhamos em estreita parceria com os clientes. A flexibilidade operacional também faz diferença: temos mais de um quilômetro de cais e conseguimos acomodar mudanças na programação dos navios. Atualmente, são 12 linhas regulares, o maior número da história do porto, e mais de 3,5 mil clientes. A operação da JBS ocorre por contrato transitório. Essa condição limita novos investimentos? Em um contrato transitório, cada projeto precisa ser avaliado considerando o período disponível, a demanda e o retorno. Isso não impediu os investimentos necessários para recuperar o terminal e acompanhar o crescimento da operação. Enquanto durar o contrato vigente, nosso compromisso é manter a qualidade do serviço. Essa segurança também é importante para os clientes: os armadores planejam suas linhas e os embarcadores organizam suas cadeias logísticas com antecedência. A companhia anunciou um novo aporte de R\$ 15,2 milhões para modernizar a inspeção de cargas e ampliar o fluxo de caminhões. O que será feito? São duas frentes complementares: modernizar o sistema de inspeção de cargas e melhorar o fluxo de caminhões no terminal. Na inspeção, buscamos dar mais eficiência ao processo, preservando a segurança e o atendimento às exigências de controle. No fluxo de caminhões, o objetivo é agilizar a entrada, a circulação e a saída, reduzindo pontos de retenção. Com o crescimento dos volumes, todas as etapas precisam acompanhar esse movimento. Para o cliente, esperamos uma operação mais fluida e previsível, além de melhor aproveitamento da infraestrutura. A JBS vai disputar o leilão definitivo do terminal, o ITJ01? Temos interesse. A decisão dependerá das condições do edital e da avaliação de viabilidade do projeto. Os investimentos exigidos precisam ser compatíveis com a infraestrutura, e a demanda projetada deve ser realista, porque esses fatores são fundamentais para a viabilidade econômico-financeira. Também são importantes a segurança jurídica, a clareza das responsabilidades e o tratamento dos riscos relacionados aos acessos. Buscamos um projeto que permita investir, oferecer um serviço competitivo e crescer de forma sustentável. É importante que a definição ocorra com antecedência suficiente para dar clareza ao mercado sobre a continuidade da operação. Quanto maior essa antecedência, maior a previsibilidade para armadores, embarcadores e operadores planejarem suas atividades e investimentos. O arrendamento definitivo oferece um horizonte mais longo para planejar investimentos e desenvolver a operação comercial. Aristides: "A competição por eficiência e custo cria valor para toda a cadeia. Para competir, Itajaí precisa combinar produtividade no terminal, qualidade dos acessos e segurança para o planejamento de longo prazo” (Sílvio Luiz/AT) O canal de Itajaí-Navegantes vem enfrentando assoreamento e restrições. Quanto isso já prejudicou a operação da JBS? Os impactos têm sido pontuais, não recorrentes, e as restrições são tratadas assim que as condições meteorológicas e operacionais permitem. Isso não impediu que os terminais da companhia recebessem megaoperações de desembarque de veículos elétricos da BYD, em maio e junho deste ano. A atividade portuária está sujeita às condições climáticas. Por isso, são necessários investimentos contínuos na infraestrutura e na manutenção do acesso aquaviário. Vemos a concessão do canal como um caminho que pode dar mais previsibilidade a esse trabalho e acompanhar o crescimento das operações. A dragagem realizada foi suficiente? Qual é hoje a real condição do canal? A manutenção da dragagem tem permitido a continuidade das operações quando as condições climáticas são favoráveis, sempre dentro dos parâmetros autorizados de segurança da navegação. Entre abril e agosto, os terminais da companhia movimentaram, em média, mais de 44 mil TEU por mês. Esse volume mostra que o porto tem operado e atendido à demanda dos clientes. O desafio é dar continuidade à manutenção e ao monitoramento do canal para sustentar essa capacidade de atendimento e oferecer previsibilidade aos armadores. As restrições são pontuais e tratadas em coordenação com os armadores, assim que as condições meteorológicas e operacionais permitem, sempre com segurança. A operação vem mantendo sua trajetória de crescimento, o que reforça a importância dos investimentos contínuos na infraestrutura e na manutenção do canal de acesso. O problema pode ser resolvido apenas com dragagem de manutenção ou Itajaí precisa de uma solução estrutural para o assoreamento? A manutenção é indispensável, mas a competitividade de longo prazo exige uma visão mais ampla. Precisamos de monitoramento permanente, planejamento e continuidade do serviço para lidar com o assoreamento. Também é importante avaliar tecnicamente as condições de profundidade e manobra necessárias para atender navios de maior porte. Essa agenda precisa ser conduzida pelas autoridades responsáveis, com a contribuição dos operadores e usuários. Como operador, nosso papel é mostrar quais condições são necessárias para atender o mercado com segurança e eficiência. Itajaí precisa preservar a operação atual e preparar a infraestrutura para a demanda futura. Como a JBS vê a futura concessão do canal de acesso? Vemos de forma construtiva um modelo que assegure continuidade da manutenção, previsibilidade dos investimentos e clareza nas responsabilidades. A concessão pode contribuir, desde que tenha obrigações de desempenho bem definidas e uma estrutura econômica que preserve a competitividade do porto. Para o operador e o armador, o resultado precisa aparecer em condições confiáveis de navegação. Não há eficiência no cais sem eficiência no acesso. O canal deve ser tratado como uma infraestrutura essencial, com planejamento de longo prazo e capacidade para acompanhar o desenvolvimento do complexo portuário. Quanto a empresa ainda pretende investir enquanto permanecer em contrato transitório e quanto ficaria condicionado à conquista do arrendamento definitivo? Não temos um valor adicional a anunciar. Os investimentos durante o contrato transitório são avaliados conforme as necessidades da operação, o crescimento da demanda e o retorno dentro do prazo contratual. Já investimos quase R\$ 250 milhões no período, e o aporte anunciado de R\$ 15,2 milhões faz parte desse esforço de modernização. Novos projetos serão analisados com a mesma disciplina financeira. Itajaí disputa cargas diretamente com a Portonave. O que o porto público precisa fazer para competir em condições semelhantes? A competição por eficiência e custo cria valor para toda a cadeia. Para competir, Itajaí precisa combinar produtividade no terminal, qualidade dos acessos e segurança para o planejamento de longo prazo. Estamos fazendo nossa parte com investimentos, proximidade com os clientes e flexibilidade no atendimento aos navios. O porto tem localização estratégica e uma base importante de importadores e exportadores. O cliente escolhe pela combinação de custo, serviço e confiabilidade. No que o novo ciclo de investimentos para modernizar a inspeção de cargas e ampliar o fluxo de caminhões, em um aporte de R\$ 15,2 milhões, vai ajudar nessa competição? A movimentação aumentou 62% do primeiro para o segundo ano da nossa operação, e a infraestrutura precisa acompanhar essa evolução. A modernização da inspeção e a melhoria do fluxo de caminhões ajudam a reduzir gargalos e dar mais agilidade à passagem da carga pelo terminal. Essas medidas complementam os investimentos em pátio e no atendimento aos navios. Para competir, precisamos olhar a operação como um todo, da chegada do caminhão à movimentação no cais. Se o leilão do ITJ01 e uma solução definitiva para o canal avançarem, qual pode ser o tamanho do Porto de Itajaí daqui a cinco ou dez anos? Itajaí tem potencial para ampliar sua relevância no comércio exterior e no atendimento à indústria do Sul. Os resultados da retomada mostram que existe demanda: movimentamos mais de 800 mil TEU em dois anos e hoje temos 12 linhas regulares. Com segurança contratual e a evolução dos acessos, o porto terá melhores condições para planejar investimentos e buscar novos serviços e cargas. A dimensão dessa expansão, porém, vai depender do mercado, da infraestrutura e da viabilidade de cada projeto.