Principal modal de transporte de cargas do País deve ser modernizado com transformações tecnológicas (Adobe Stock) Em meio aos diversos problemas enfrentados (má conservação dos veículos, infrações de diversos tipos, alto custo do combustível e problemas no pagamento do frete), o caminhoneiro busca sobreviver e se manter relevante. Assim, o futuro da profissão entra em discussão. Não são poucos os desafios para a categoria - mas as saídas possíveis existem. E uma delas conversa diretamente com a modernização do trabalho e a adesão às inovações tecnológicas. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! De acordo com a presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Litoral Paulista (Sindisan), Rose Fassina, o caminhoneiro brasileiro já está lidando com o futuro no presente. Ele enfrenta uma combinação de desafios estruturais, como custos operacionais elevados, insegurança nas estradas e prazos cada vez mais exigentes. E ao mesmo tempo que precisa se adaptar a exigências tecnológicas e regulatórias. “Hoje, o grande desafio não é apenas transportar cargas, mas fazê-lo com eficiência, rastreabilidade e segurança. E isso exige um profissional mais preparado e resiliente. Precisamos reconhecer que o setor vive um momento crítico: segundo pesquisa de 2025 da NTC&Logística, cerca de 88% das empresas de transporte têm dificuldade para contratar motoristas, o que já impacta diretamente a operação e deixa caminhões parados”, afirma. Já o engenheiro civil e mestre em Engenharia de Transportes Luís Cláudio Montenegro observa o caminhoneiro brasileiro como, antes de tudo, um sobrevivente, que aprendeu a operar em um ambiente de preços comprimidos, marcado por excesso de oferta e forte pressão competitiva. “O desafio agora é virar essa chave. Isso passa por sair da lógica de sobrevivência e avançar para uma atuação mais profissional, com maior controle sobre custos, formação adequada do frete e gestão da própria operação. Nesse contexto, a intermodalidade aparece como um caminho natural de eficiência”, avalia. Ele entende que a atuação em trechos mais curtos, com carga definida, permite maior previsibilidade de receita, melhor utilização do veículo, redução da dependência de fretes de retorno e condições mais adequadas de segurança. Tecnologia Segundo Rose, a tecnologia já deixou de ser tendência e passou a ser realidade. “A tecnologia não substitui o condutor. O caminhoneiro passa a ser um operador logístico altamente qualificado, que precisa interpretar dados, operar sistemas embarcados e tomar decisões com base em informações em tempo real”, argumenta. Montenegro vai na mesma linha. “A tecnologia tende a jogar a favor do caminhoneiro em várias frentes. No plano operacional, há avanços relevantes em assistência à direção, rastreamento, roteamento e gestão da viagem, aumentando segurança, produtividade e previsibilidade. Também há um ganho importante na organização do mercado, com plataformas de frete, acesso a informações de preços, identificação de clientes, formalização documental e maior automação nas operações em terminais logísticos”. Envelhecimento e capacitação A presidente do Sindisan alerta para o envelhecimento dos profissionais do volante, apontado como uma das principais preocupações do setor. “O Brasil perdeu cerca de 1,2 milhão de motoristas de caminhão na última década, uma queda de aproximadamente 22% na força de trabalho, de acordo com levantamento da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), analisado pela plataforma Motorista PX. Além disso, estamos diante de um envelhecimento da categoria. Esse cenário, se não for enfrentado, pode levar a um verdadeiro apagão logístico, comprometendo o abastecimento e o crescimento econômico”. O engenheiro, por sua vez, considera a questão delicada, mas a preocupação deve ser qualificada. “O setor conta com profissionais experientes, altamente capacitados, que conhecem profundamente a operação, a profissão e as rodovias do Brasil, garantindo níveis elevados de segurança e eficiência. Esse capital humano precisa ser valorizado. Ao mesmo tempo, a baixa barreira de entrada permite a entrada de motoristas de conveniência, muitas vezes sem formação adequada. Isso pressiona preços, reduz a qualidade média do serviço e desvaloriza o profissional qualificado. A resposta está na qualificação e na profissionalização do setor”, preconiza. Segundo ele, a combinação de remuneração adequada, qualificação contínua e maior rigor operacional é o que permite formar e reter motoristas preparados para as demandas mais complexas do transporte. “A elevação do padrão de exigência do mercado é fundamental. Quanto mais o setor exigir qualidade, segurança e conformidade, maior será o espaço para profissionais qualificados e menor para operadores que competem apenas por preço”, encerra. Perfil da categoria tem 99% de homens Para projetar o futuro da profissão, é essencial olhar para o passado e compreender a trajetória dos caminhoneiros que cruzam o Brasil. Trata-se de uma categoria majoritariamente masculina (99%), com idade média de 46 anos; 78,3% são casados; 43,8% não concluíram o Ensino Fundamental; e 39,1% têm dois filhos. Esse é o perfil do caminhoneiro autônomo identificado em pesquisa realizada no ano passado pela Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA). O levantamento oferece uma análise técnica e consistente sobre as características da rotina e das condições de trabalho desses profissionais. A pesquisa “Realidade do Transportador Autônomo de Cargas” ouviu 2.002 caminhoneiros autônomos, todos registrados no Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC), em 11 estados: Amazonas, Tocantins, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Perfil do veículo Em 71,3% dos casos, os veículos estão quitados, enquanto 25,2% ainda são financiados. A idade mais comum dos caminhões varia entre 10 e 14 anos. Do total, 32,7% são destinados ao transporte de carga seca. Em relação às condições, 80,1% dos veículos apresentam pneus em bom estado, embora 57,6% utilizem pneus recauchutados. O profissional De acordo com a CNTA, muitos caminhoneiros permanecem, em média, mais de duas semanas por mês fora de casa. A rotina exige conciliar longas jornadas com altos custos operacionais, o que torna a remuneração um dos principais pontos de preocupação da categoria. Os profissionais trabalham cerca de 25 dias por mês, com jornada média de 14 horas diárias — sendo que 40,4% chegam a trabalhar entre 15 e 17 horas por dia. O período de férias anual é, em média, de apenas oito dias, e 48,5% afirmam não usufruir desse descanso. Em média, são realizados nove fretes por mês. Quanto à renda, o faturamento bruto mensal gira em torno de R\$ 46 mil, enquanto o rendimento líquido fica próximo de R\$ 14 mil (cerca de R\$ 40 por hora trabalhada). A principal forma de obtenção de fretes é por meio de aplicativos (46,6%), seguida por negociações diretas com embarcadores (38%). Já o pagamento ocorre, predominantemente, via Pix (75,5%). Para descanso, a grande maioria utiliza postos de combustíveis (96,6%). Ainda assim, 78,4% relatam dificuldade para encontrar locais adequados para cumprir a jornada de repouso. O tempo médio de atuação na profissão é de 18 anos. Para 59,3% dos entrevistados, há uma percepção de desvalorização da atividade, apesar da necessidade de permanecer no trabalho. Outro dado relevante aponta que 84,9% discordam da obrigatoriedade de 11 horas ininterruptas de descanso. Além disso, 89,5% afirmam desconhecer iniciativas governamentais de incentivo à categoria. A saúde também aparece como ponto de atenção: em 62% dos casos, os caminhoneiros só realizam exames médicos quando apresentam algum problema, e 86% não praticam atividades físicas. Segurança O estudo da CNTA revela ainda que 57,7% dos entrevistados não se sentem seguros nas rodovias. Além disso, 83,1% já foram vítimas de furtos, enquanto 86,7% relataram roubos com uso de violência. Por fim, 71,4% dos motoristas afirmaram já ter se envolvido em algum tipo de acidente, frequentemente atribuído a falhas de outros condutores (64,4%). De forma geral, os resultados traçam um retrato atual e fiel da categoria, evidenciando não apenas suas condições de trabalho, mas também desafios persistentes e carências que demandam atenção. O futuro da profissão está diretamente ligado às condições enfrentadas no presente.