(Imagem gerada por IA) Quem frequenta portos brasileiros já fez essa pergunta ao ver um terminal vazio. Por que um país com litoral extenso, clima favorável e forte vocação turística ainda recebe menos navios de cruzeiro do que poderia? A resposta não está apenas no mar. Está em terra. Cruzeiro é uma atividade móvel. O navio que hoje está em Santos, no Rio de Janeiro, em Salvador, em Recife ou em Itajaí pode, na temporada seguinte, estar no Caribe, no Mediterrâneo ou em qualquer mercado que ofereça melhores condições comerciais e operacionais. O dono da embarcação compara destinos, avalia custos, mede infraestrutura, observa a previsibilidade e escolhe onde faz mais sentido operar. O mundo está navegando mais. A indústria global de cruzeiros transportou mais de 37 milhões de passageiros em 2025, crescimento superior a 7% em relação a 2024. Isso mostra que não falta demanda. O desafio brasileiro é capturar parcela maior desse fluxo. No Brasil, há uma combinação de potencial e alerta. A temporada 2025/2026 registrou impacto econômico de mais de R\$ 4,7 bilhões, queda superior a 20% em relação à anterior, em um contexto de redução de cerca de 20% na oferta. Para 2026/2027, a previsão é de recuperação superior a 20% na capacidade, com oito navios regulares. Essa oscilação mostra que o País tem mercado, mas ainda precisa melhorar suas condições para disputar a decisão das companhias. Quando um navio deixa de vir, não desaparece apenas uma bela imagem no horizonte. Deixam de desembarcar passageiros. Deixam de circular recursos em restaurantes, hotéis, transporte, comércio, passeios e serviços urbanos. Perde a cidade portuária, perde o turismo e perde o país, que deixa de ocupar espaço em uma indústria global em expansão. O Brasil não deve olhar para o cruzeiro como evento de verão. E precisa se renovar a cada temporada. Precisa tratar essa atividade como política permanente de turismo e desenvolvimento regional, com resultado concreto. As rotas são decididas com antecedência. As companhias precisam saber quais terminais estarão disponíveis, quais custos incidirão, quais regras serão aplicadas e quais cidades estarão preparadas para receber grande fluxo de passageiros em poucas horas. Sem isso, o navio escolhe outro destino. Essa previsibilidade é parte central da competitividade. Nos últimos anos, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), em parceria com o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), passou a tratar, com maior ênfase, a infraestrutura para passageiros como parte da estratégia do turismo marítimo. A Agência atuou na estruturação de terminais voltados à movimentação de passageiros e às atividades associadas ao turismo. O Terminal Marítimo de Passageiros de Fortaleza, no Porto do Mucuripe, é exemplo desse movimento. Mais recentemente, o terminal de passageiros do Porto do Recife. Beleza natural atrai, mas não resolve a operação. É preciso terminal adequado, atendimento eficiente, integração com a cidade, transporte organizado, segurança e boa experiência em terra. O passageiro não compra apenas a viagem de navio. Compra a lembrança da cidade onde desembarca. Se encontra fila excessiva, terminal desconfortável, pouca informação e passeio improvisado, a escala perde valor. Se encontra acolhimento, fluidez e bons atrativos, aquela parada vira propaganda espontânea do destino. Há ainda o custo Brasil aplicado ao cruzeiro. Custos portuários e complexidade operacional pesam na decisão das companhias. Não se trata de reduzir controles essenciais nem de flexibilizar segurança. É organizar processos, eliminar redundâncias, dar clareza às regras e tornar o Brasil comparável aos destinos que disputam os mesmos navios. Caribe e Mediterrâneo não são concorrentes abstratos. São alternativas reais para a mesma embarcação. Também é necessário diversificar destinos. Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Maceió, Fortaleza, Itajaí e outros portos cumprem papel relevante. Mas o país pode ampliar circuitos, fortalecer escalas regionais e combinar melhor litoral, cultura, gastronomia, natureza e patrimônio histórico. Há espaço para cruzeiros de cabotagem, de longo curso, de luxo, de expedição, temáticos e de curta duração. Cada segmento exige planejamento próprio, mas todos dependem de previsibilidade, coordenação e infraestrutura. O cruzeiro não deve ser visto apenas como produto para estrangeiros. O brasileiro gosta de cruzeiro. Muitos viajam pela primeira vez em um navio justamente na costa nacional. Outros compram roteiros no exterior, no Caribe e na Europa. Se parte desse público já consome o produto fora, há oportunidade evidente de ampliar a oferta dentro do Brasil, com mais destinos, períodos, experiências e presença nas agências. A pergunta, portanto, não deveria ser apenas: ‘Cadê o cruzeiro que estava aqui?’. A pergunta correta é: ‘O que estamos fazendo para que ele volte, fique mais tempo e traga outros navios com ele?’ O Brasil tem demanda, paisagem, cultura, cidades portuárias fortes e capacidade de gerar renda com o turismo marítimo. O que falta é transformar vocação em estratégia permanente. Isso exige planejamento, investimento, articulação entre porto e cidade, diálogo com o setor privado e segurança para quem decide onde operar. O navio de cruzeiro é uma cidade flutuante, mas sua decisão de rota é profundamente terrestre. Ele escolhe os lugares que o recebem melhor, custam de forma racional, operam com eficiência e planejam com antecedência. O cais vazio pode dar lugar a outra imagem, a de um país que olha para o mar não apenas como fronteira, mas como oportunidade. A Antaq vem fazendo a sua parte. Ao estruturar projetos, aprimorar modelagens, conduzir processos de arrendamento e apoiar a ampliação da infraestrutura voltada aos passageiros, a Agência contribui para que o Brasil ofereça melhores condições a quem decide trazer um navio para a nossa costa. Mas essa agenda não se esgota no porto. Exige integração com cidades, operadores de turismo, comércio, transporte, segurança pública e órgãos de governo. O cruzeiro que estava aqui pode voltar. E pode voltar mais vezes. Para isso, precisa encontrar um país preparado para recebê-lo. *Renildo Barros, superintendente de Outorgas da Antaq