Cabotagem, que é a movimentação de cargas por navios entre portos dentro do País, espera avanço maior, com crescimento consolidado de até 10% no fechamento de 2026 (Vanessa Rodrigues/AT/Arquivo) A navegação de cabotagem no Brasil encerrou os primeiros nove meses de 2026 com um volume acumulado de 1,38 milhão de TEU (unidade de medida equivalente a um con-têiner de 20 pés) transportados entre portos nacionais, registrando uma expansão de 3,3% na comparação com o mesmo período de 2025. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! A sustentação desse crescimento veio do segmento feeder (cargas destinadas ou originadas do comércio exterior), que reverteu o início de ano retraído e passou a liderar o volume físico transportado pelas Empresas Brasileiras de Navegação (EBNs) associadas à Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac). Quando somadas as operações destinadas aos países integrantes do Mercosul, a movimentação total das armadoras associadas alcançou 1,5 milhão de TEU entre janeiro e setembro de 2026, montante que representa uma alta acumulada de 4,5% sobre o igual período do ano anterior. O resultado do terceiro trimestre isolado (julho a setembro) consolidou 480.572 TEU na cabotagem pura (alta de 3,0%) e 522.334 TEU no total geral com o Mercosul (avanço de 3,8%). O período expôs uma clara inversão de forças entre a demanda por consumo interno e a conexão com as rotas marítimas globais. Enquanto o transporte doméstico de cargas (com origem e destino no país) recuou 1,9% no terceiro trimestre, totalizando 235.105 TEU, a movimentação feeder acelerou 8,2%, atingindo 245.467 TEU. Essa trajetória reflete uma virada de cenário ao longo dos trimestres: as cargas domésticas haviam iniciado 2026 em ritmo forte (altas de 8,3% no 1º e 4,2% no 2º trimestre) antes da desaceleração recente. Já o fluxo feeder superou o declínio de 12,6% registrado no primeiro trimestre e engatou recuperação consistente a partir da metade do ano. No acumulado até setembro, a movimentação feeder somou 711.748 TEU, frente a 670.046 TEU do segmento doméstico. O comércio de cabotagem com o Mercosul, embora represente a menor parcela em volume absoluto, anotou o maior crescimento percentual do ano: subiu 14% no 3º trimestre (41.762 TEU) e acumulou expressivos 120.488 TEU de janeiro a setembro, avanço de 47,8% em relação a 2025. Para o diretor-executivo da Abac, Luis Resano, o crescimento do transporte de contêineres pelas Empresas Brasileiras de Navegação, impulsionado principalmente pelas cargas feeder, reforça o papel estratégico da cabotagem na logística nacional. “Ao conectar os portos brasileiros às grandes rotas internacionais, as empresas ampliam o alcance do comércio exterior e contribuem para uma operação logística mais eficiente e competitiva”, destaca. Desafios operacionais Apesar do saldo positivo acumulado, a velocidade de crescimento do setor desacelerou em relação a 2025 (quando a movimentação anual havia saltado 23,6%). A acentuada redução no nível dos rios amazônicos voltou a impor fortes restrições operacionais à navegação para o polo industrial de Manaus. Com os limites de calado reduzidos para patamares críticos em alguns trechos, os navios foram forçados a reduzir a capacidade de carregamento ou recorrer a operações complementares de transbordo por balsas. A infraestrutura logística também precisou absorver a aplicação de sobretaxas temporárias de seca para fazer frente aos custos operacionais adicionais da vazante. A expectativa da Abac é de que o fluxo marítimo na região continue sob pressão em novembro. Uma recuperação mais vigorosa das operações é projetada para dezembro, na dependência do repique dos níveis fluviais e do escoamento do lote de cargas represadas na Região Norte. Caso essa normalização se concretize no fechamento do ano, a entidade projeta que a cabotagem encerre 2026 com um crescimento consolidado próximo de 10%. Mudança Apesar de a carga doméstica ser historicamente o motor da cabotagem nacional, o acumulado de 2026 consolida uma mudança de perfil no setor. Com 711,7 mil TEUs movimentados até setembro, as operações feeder tomaram a liderança do volume físico das EBNs sobre o transporte doméstico (670 mil TEUs). O movimento demonstra como a frota de cabotagem passou a atuar como um amortecedor logístico essencial para o comércio exterior brasileiro, compensando a perda de ritmo do consumo interno no terceiro trimestre.