A Marinha Mercante (navios de carga) brasileira poderá enfrentar um déficit de aproximadamente 500 oficiais até 2030. Na prática, isso equivale a deixar cerca de 30 embarcações sem tripulação. A projeção consta em estudo realizado pelo Centro de Inovação em Logística e Infraestrutura Portuária (Cilip), da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Fundação Vanzolini. A pesquisa, de 2024, é atualizada a cada seis meses. A última atualização ocorreu no mês de junho. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Encomendado pela Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), pelo Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima (Syndarma) e pela Associação Brasileira das Empresas de Apoio Marítimo (Abeam), o levantamento confirma um cenário já apontado na primeira edição da pesquisa, divulgada em abril de 2024: embora o aumento de vagas nas escolas de formação tenha reduzido parte da projeção inicial de escassez de aquaviários, a oferta de novos oficiais ainda não será suficiente para atender ao crescimento da demanda. Um dos principais sinais desse desequilíbrio, de acordo com a pesquisa, é o aumento das vagas não preenchidas e da contratação de profissionais estrangeiros. Segundo o estudo, o número de oficiais estrangeiros empregados e de postos de trabalho em aberto passou de 376, no segundo semestre de 2025, para 458 na atualização mais recente, indicando a dificuldade das empresas de navegação em encontrar mão de obra qualificada no mercado nacional. Os pesquisadores destacam que o equilíbrio entre oferta e demanda dependerá da evolução da cabotagem, do apoio marítimo, dos setores de óleo e gás e da expansão dos projetos de energia eólica offshore. Mesmo sem considerar esse novo mercado, a projeção ainda aponta falta de cerca de 500 oficiais até o fim da década. Para reverter o quadro, o estudo recomenda ampliar as vagas dos cursos de Adaptação a Segundo Oficial de Máquinas e de Náutica, considerados a alternativa mais rápida para elevar a oferta de profissionais no médio prazo. Outra recomendação é manter a formação de oficiais de forma contínua nas Escolas de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (Efomm), utilizando toda a capacidade disponível, independentemente das oscilações da economia. Segundo os pesquisadores, reduzir o ingresso de novos alunos em períodos de menor atividade compromete o planejamento das empresas e favorece novos ciclos de escassez de mão de obra, afetando a competitividade da navegação brasileira. Cabotagem está em alerta A escassez de aquaviários da Marinha Mercante, especialmente oficiais de máquinas, já pressiona as operações da cabotagem e pode comprometer a expansão da frota brasileira. A afirmação é do diretor-executivo da Associação Brasileira de Armadores de Cabotagem (Abac), Luís Fernando Resano. Ele diz que o estudo do Centro de Inovação em Logística e Infraestrutura Portuária (Cilip) permitiu dimensionar com precisão a falta de profissionais no setor. Resano afirma que a maior deficiência está em uma função estratégica para a operação dos navios. “Faltam oficiais da Marinha Mercante, especialmente oficiais de máquinas. Essa carência vem sendo construída ao longo de vários anos e tem como principal causa o contingenciamento dos recursos do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Profissional Marítimo (FDEPM), que limita a capacidade da Marinha de ampliar o número de vagas nos cursos de formação”, explica. Ampliou demanda De acordo com Resano, a expansão da cabotagem após a Lei 14.301/2022 (BR do Mar) aumentou a necessidade de profissionais qualificados. A falta de mão de obra qualificada levou as empresas a recorrerem a novas medidas. “Como a formação de novos oficiais não acompanhou essa demanda, as empresas adotaram soluções emergenciais para manter as operações, como remunerar em dobro os oficiais que aceitaram trabalhar durante seus períodos de descanso”, diz. Segundo Resano, a estratégia evitou interrupções no transporte, mas elevou os gastos das armadoras. “Dessa forma, a cabotagem conseguiu atender ao mercado sem interrupções, mas com aumento significativo dos custos operacionais”, afirma. O estudo do Cilip aponta que ampliar permanentemente o número de vagas nas escolas de formação da Marinha, além de retomar e ampliar cursos de adaptação, são soluções para reduzir o déficit. “Existe grande interesse pela carreira marítima, tanto no Brasil quanto no exterior. O principal desafio, atualmente, não está na atração de candidatos, mas na ampliação da capacidade de formação”, afirma. Enquanto isso, as empresas associadas à Abac passaram a investir diretamente na qualificação de novos profissionais, em parceria com a Fundação de Estudos do Mar (Femar). “As empresas associadas custearão integralmente a formação de seus empregados”, destaca Resano. Ele ressalta que a Autoridade Marítima desempenha papel fundamental na formação dos profissionais da Marinha Mercante, mantendo escolas e cursos em diversos níveis do ensino profissional marítimo. “Iniciativas que permitam aumentar o número de vagas, fortalecer o financiamento do ensino profissional marítimo e estimular parcerias com instituições credenciadas representam caminhos importantes para atender à crescente demanda do setor”, conclui. Marinha Procurada, a Marinha informou que vem aumentando gradativamente o número de vagas oferecidas nos cursos de formação e adaptação de oficiais, em consonância com as necessidades identificadas e com a capacidade de formação. A Marinha acrescentou que esse incremento pode ser observado nos últimos anos. “Em 2024, foram oferecidas 333 vagas nos cursos de formação e adaptação de oficiais; em 2025, esse quantitativo foi ampliado para 374 vagas; e, em 2026, alcançou 389 vagas, evidenciando o esforço contínuo da Marinha do Brasil em ampliar a capacidade de formação de profissionais”. Hildelene explica que o mercado tem excelentes perspectivas para quem busca uma carreira sólida e desafiadora (Arquivo pessoal/ Divulgação) A primeira comandante do País Primeira mulher a comandar um navio mercante no Brasil, Hildelene Bahia percorreu todas as etapas da carreira de convés até se tornar capitã de longo curso em 2009. Atualmente, exercendo o cargo de gerente do Centro de Monitoramento da Transpetro, uma subsidiária da Petrobras no Rio de Janeiro, ela diz que se orgulha da profissão. "Fui praticante, segundo-oficial, primeiro-oficial, imediata e, desde 2009, exerço a função de comandante. Cada etapa contribuiu para minha formação técnica, humana e para o desenvolvimento da liderança necessária ao comando”, diz a aquaviária nascida em Belém, no Pará, com trajetória profissional no Rio de Janeiro. A escala de trabalho de um oficial da Marinha Mercante a bordo é muito peculiar. “Na cabotagem (navegação pela costa brasileira), o marítimo trabalha 50 dias embarcado e tem 50 dias de repouso. No longo curso (viagem internacional), o oficial fica 90 dias embarcado e outro 90 dias de repouso, permitindo a recuperação física e o convívio com a família antes de um novo embarque”, explica. Hildelene explica que, para chegar ao comando, além da formação inicial, é necessário adquirir experiência embarcada, cumprir todas as etapas de ascensão profissional e realizar cursos obrigatórios, previstos pela Autoridade Marítima. “É uma trajetória construída ao longo de muitos anos de dedicação e tempo de mar”, afirma. Durante a carreira, comandou embarcações em viagens nacionais e internacionais, transportando cargas para países como Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela, Singapura, Bahrain, Fujairah e Saint Eustatius, no Caribe. Em 2016, passou a atuar em terra, assumindo funções de gestão na Transpetro. Além da atuação executiva, Hildelene tornou-se uma referência para outras mulheres interessadas na carreira marítima. Ela é a idealizadora do Grupo Mulheres Aquaviárias do Brasil, criado para fortalecer a presença feminina na navegação e no setor portuário. “O grupo nasceu do desejo de criar uma rede de apoio, valorização e desenvolvimento para as mulheres do setor. Minha motivação sempre foi mostrar que é possível construir uma carreira de excelência no ambiente marítimo, promovendo representatividade e fortalecendo a presença feminina”, comenta. Hildelene diz que tem observado um crescimento significativo no interesse das mulheres pela carreira marítima. “Elas vêm ocupando espaços tanto na área de náutica quanto na área de máquinas, além de diversas funções no setor portuário e de apoio marítimo. Ainda somos minoria, mas esse cenário vem mudando gradualmente”, ressalta. Quanto à escassez de mão de obra, Hildelene diz que o setor enfrenta desafios relacionados à formação e à retenção de profissionais qualificados. A oficial comenta ainda que a rotina de embarque, o tempo afastado da família e o desconhecimento sobre a profissão acabam influenciando a escolha de muitos jovens. “É um mercado com excelentes perspectivas para quem busca uma carreira sólida e desafiadora”.